28 de out de 2016

IGMR 294b – O espaço celebrativo do Ministério de Música

“Os fiéis e o grupo dos cantores ocuparão lugares que lhes favoreçam uma participação ativa.”

Como proposto anteriormente, sobre os espaços ministeriais, a IGMR 294 faz sua primeira referência ao espaço ministerial referindo-se aos participantes do Ministério da Música. Uma referência bastante interessante e com uma finalidade bem precisa: para que os músicos e cantores sejam favorecidos pela participação ativa deles e da assembléia. Uma primeira indicação, muito clara, aliás, que o Ministério da Música participa da celebração, repudiando o comportamento de alguns músicos que estão na celebração somente para cantar.  

Coral e coro
Antes da reforma litúrgica (1963), os músicos tinham seu espaço no fundo da igreja, num local mais elevado, que até hoje se denomina de “coro”. Isto é decorrência que ali ficava o coral. Havia uma finalidade prática, de sonorização, para aquela disposição: fazer com que o som ecoasse de cima para baixo preenchendo todo o espaço da igreja. 
Uma segunda finalidade dizia respeito a não exibição de cantores. O espaço central da igreja, para onde se dirigem todos os olhares, sempre foi o altar. Os cantores de corais, que se distinguiam pela arte musical de cantar em muitas vozes, eram colaboradores da beleza celebrativa em vista da participação orante e não artistas a serem admirados. Belo e bonito, mas não na frente para não confundir a celebração com concerto musical. O mesmo princípio continua válido para nossos tempos.

Finalidade do espaço celebrativo dos músicos
O conceito de coro e coral começou a mudar depois da reforma litúrgica. A Liturgia trouxe os músicos para a nave da igreja, mas não de frente para a assembléia. Eles também não ficam escondidos, porque precisam comunicar-se, precisam estabelecer contato visual com os celebrantes, reunidos na assembléia. Mas não sobem ao presbitério colocando-se de frente para os celebrantes. A Liturgia destina aos músicos um local apropriado com duas finalidades: exercer comunicativamente bem seu ministério e participar ativamente da celebração Eucarística. Em resumo, existe um espaço ministerial e celebrativo para os músicos.
Com tal mudança, a Liturgia está dizendo que os músicos fazem parte da assembléia, por isso estão no mesmo nível físico (no mesmo piso) da assembléia e não acima, evitando confundir com palco. Os músicos não participam da celebração para apresentar-se, mas para servir; colocam sua arte musical a serviço da assembléia litúrgica. Compreende-se, assim, que não é nada de litúrgico querer ocupar o presbítero e dali “animar” a assembléia.
O espaço musical, portanto, expressa o modo como o músico e o ministério da música participam da celebração: como parte da assembléia celebrante e como servidores para ajudar os celebrantes a participar cantando.
Serginho Valle
Outubro de 2016


21 de out de 2016

IGMR 294 – Espaço celebrativo funcional e ministerial

O povo de Deus, que se reúne para a Missa, constitui uma assembléia orgânica e hierárquica que se exprime pela diversidade de funções e ações, conforme cada parte da celebração. Por isso, convém que a disposição geral do edifício sagrado seja tal que ofereça uma imagem da assembléia reunida, permita uma conveniente disposição de todas as coisas e favoreça a cada um exercer corretamente a sua função (IGMR 294a)


Por se tratar de um parágrafo longo, vamos dividi-lo em quatro reflexões, uma para aspecto contemplado nesta IGMR 294: a proposta introdutória (este artigo), o espaço do ministério da música, espaço dos ministros e a reflexão final.
Continuamos tratando do espaço celebrativo, deslocando-nos do cuidado artístico do mesmo para contemplar sua composição funcional. Ou seja, cada espaço dentro da igreja tem a sua função específica. É construído para uma determinada finalidade, para uma determinada função, um serviço, um ministério.
Este é um elemento importante para evitar a improvisação. Nas igrejas antigas, construídas antes da reforma litúrgica (1963), existe a necessidade de adaptar espaços funcionais para os diversos ministérios que atuam na celebração Eucarística. Nas igrejas que estão sendo construídas, ter o cuidado de prever tais espaços para se evitar a improvisação que sempre provoca ruídos no processo comunicativo.

Espaços funcionais e ministeriais  
Importante ter presente que os tais espaços funcionais são, na realidade, espaços ministeriais. Isto é, espaços (locais) onde os diferentes ministros exercem seu serviço litúrgico. Assim, por exemplo, os músicos não ocupam o presbítero, porque existe um local reservado a eles, de onde exercem seu ministério de músicos. Os leitores não participam da Missa no meio da assembléia, mas no local reservado a eles e de onde se dirigem, no momento da proclamação da leitura, até o ambão. O mesmo se diga dos ministros que distribuem a Eucaristia; existe um espaço próprio de onde participam da celebração e se deslocam para exercer seu ministério.
A IGMR 249 esclarece que se trata não apenas de uma função organizacional, como também de um sinal comunicando a comunhão entre os diferentes serviços, todos em função da mesma celebração. Ou seja, a própria disposição espacial da igreja comunica a mensagem de que a celebração Eucarística é ministerial e partilhada entre vários serviços, vários ministérios.
Serginho Valle
2016



19 de out de 2016

Evangelho na Missa

Depois de comentar sobre as leituras e o salmo responsorial, vamos considerar alguns aspectos do Evangelho, no contexto da Liturgia da Palavra da celebração Eucarística. 
O Evangelho é o ápice da Liturgia da Palavra em todas as celebrações litúrgicas, mas isto é demonstrado de modo mais evidente na celebração Eucarística.
Do ponto de vista celebrativo, toda a Liturgia da Palavra converge para o Evangelho e tudo, na Liturgia da Palavra, ilumina-se no  Evangelho. O Evangelho, portanto, está no centro da Liturgia da Palavra, iluminando a compreensão das leituras e do salmo responsorial. O Evangelho é a principal fonte inspiradora da homilia, da profissão de fé e da oração dos fiéis.  Além disso, num contexto mais amplo, o Evangelho ilumina e conduz celebração Eucarística como um todo.
Sendo o centro da Liturgia da Palavra, o Evangelho recebe todo respeito todas as honras e homenagens, através de diferentes ritos. Isto tem seu fundamento no fato que o Evangelho é uma forma de presença de Jesus Cristo na assembléia; ou seja, é próprio Jesus Cristo que proclama o Evangelho, que continua proclamando o Evangelho, na assembléia. Por isso, quando se proclama o Evangelho é Jesus presente que fala  em nosso hoje e na realidade da nossa comunidade e para a realidade da comunidade. 

Aclamação ao Evangelho 
Considerando o que se disse sobre a proclamação do Evangelho, entende-se que os ritos que preparam e que conclui o Evangelho são ritos aclamativos, de acolhida e de louvor a Jesus Cristo, presente no Evangelho. Sobre os ritos aclamativos dedicarei uma reflexão especial oportunamente. No momento, vale repetir tratar-se de ritos para aclamar o próprio Jesus que irá anunciar o Evangelho e, na aclamação pos proclamação do Evangelho, um rito para acolher, bendizer e  s comprometer com o que Jesus anunciou. 

Livro  do Evangelho: o Evangeliário
Sendo o momento mais importante e o ápice da Liturgia da Palavra, a simbologia que interage com a assembléia precisa estar a altura. É o caso do livro dos Evangelhos usado na Liturgia Eucarística: o Evangeliário. 
O Evangeliário é considerado o livro mais importante da Liturgia. Concordo com os colegas liturgistas que definem o Evangeliário como o “único livro litúrgico”, com direito de ser depositado sobre o altar, no mesmo local onde é depositado o Corpo e Sangue do Senhor, depois da consagração. Nossa Liturgia não usa a Bíblia em suas celebrações, nem da parte de quem proclama o Evangelho e nem da parte do povo, que participa da proclamação do Evangelho, ouvindo. A proclamação do Evangelho é um rito de escuta. Por isso é estranho acompanhar a proclamação do Evangelho lendo o texto num folhetinho ou em outros materiais ou até mesmo na Bíblia. No  momento da proclamação do Evangelho, todos os olhares e o próprio corpo se volta para o ambão e para o Evangeliário. Por isso, os folhetos deveriam ser colocados de lado e os datashows desligados. Olhares e ouvidos voltados para o ambão, de onde fala Jesus Cristo. Trata-se, repito, de um rito de escuta, simbolizado inclusive na posição do corpo voltada para o ambão.
Dada a importância do Evangeliário como único livro Litúrgico, este é tido na condição de sacramento, presença de Jesus. Por isso, ele é guardado com todo cuidado fora da Liturgia e, na celerbação, é colocado sobre o altar, é conduzido em procissão, incensado e beijado. 
Diante de tão grande símbolo não tem como não considerar ridículo o uso de folhetos para proclamar o Evangelho. Cresce o ridículo quando a desculpa é transferida para o conteúdo, de que o mesmo texto encontra-se tanto no Evangeliário como num folheto ou num livreto. Típico pensamento de quem não compreendeu o processo comunicativo litúrgico da proclamação do Evangelho e nem a riqueza simbólica do Evangeliário. 

Local da proclamação 
Sobre o local da proclamação, o ambão, já comentamos em, pelo menos, dois ou três artigos. Neste momento, basta acrescentar que, sendo o momento ápice da Liturgia da Palavra, o local da proclamação do Evangelho é o ambão, uma Mesa especial para acolher o Evangelho. O padre ou diácono não proclamam o Evangelho da cadeira presidencial e menos ainda do altar, porque o altar não a mesa da Palavra, mas Mesa da Eucaristia. 
Também o ambão é modificado no momento da proclamação do Evangelho. Se no momento da proclamação das leituras e do salmo responsorial, o ambão não recebe nenhum outro símbolo, no rito da proclamação do Evangelho, o ambão é ladeado por ministros, dois ao menos, segurando velas processionais (aquelas velas grandes em candelabros de procissão). Indicação visível de homenagem a Jesus anunciador da Boa Nova.  Ainda mais, é no ambão que o Evangeliário é incensado, um rito que dignifica a importância do momento celebrativo.

Proclamador do Evangelho 
Também o proclamador do Evangelho é especial: diácono ou padre. O leigo, a leiga, o seminarista, a freira... Ninguém recebeu a ordenação para proclamar o Evangelho. É o diácono ou o padre que proclamam agindo in persona  Christi. Trata-se de um conceito equivocado querer igualar funções rituais litúrgicas, atribuindo a proclamação do Evangelho a pessoas não ordenadas.

O Evangeliário fora da celebração 
O respeito para com o Evangeliário continua depois da celebração, como já referido de passagem. Ele não é guardado junto com os demais livros e como os demais livros, disposto lado a lado numa estante. O Evangeliário é conservado na sacristia com cuidados especiais, indicativo de todo respeito do qual é merecedor e daquilo que ele represente na celebração Eucarística.
Hoje, muitas comunidades latinas adotaram o belo costume da Liturgia Oriental de guardar o Evangeliário dentro de uma teca especialmente preparada para esta finalidade. Outras comunidades o colocam no armário central da sacristia exposto por uma portinha de vidro. Há os que o guardam envolvido num véu ou num pano especial. Tudo demonstrando o valor e o respeito para com o Evangeliário.
Serginho Valle
2016


14 de out de 2016

IGMR 292 – Ornamentação da igreja

A ornamentação da igreja deve visar mais a nobre simplicidade do que a pompa. Na escolha dessa ornamentação, cuide-se da autenticidade dos materiais e procure-se assegurar a educação dos fiéis e a dignidade de todo o local sagrado.

Depois de comentar sobre a presença da arte na formação do espaço celebrativo, a IGMR 292, nos moldes de um bilhete de recados, chama atenção para a qualidade da ornamentação da igreja. Indicativo que a igreja não é um salão vazio de sentido. Ao contrário, a ornamentação é mensagem, é Evangelho anunciado, além de ser um espaço acolhedor, que convide ao silêncio orante pelo recolhimento.
            É a segunda vez que IGMR menciona a qualidade da ornamentação da igreja. Anteriormente, na IGMR 288, dava indicações gerais sobre a ornamentação. Agora, na IGMR 292, aparecem alguns adjetivos que orientam sobe a qualidade da ornamentação. Não indica como fazer, mas que qualidades devem conter.

Nobre simplicidade
            A primeira qualidade da ornamentação das igrejas é proposta com a expressão “nobre simplicidade”, acompanhada com a proposta para evitar qualquer tipo de pompa. Por nobre simplicidade entende-se a beleza sem exagero, beleza que se manifesta através da simplicidade, do belo que encanta pela leveza e não pela exibição, que é a característica próprio de ornamentações pomposas. A ornamentação das igrejas não tem a função de impressionar, mas de acolher para silenciar diante de Deus e para celebrar o Mistério Pascal.
            Uma “nobre simplicidade” presente em tudo que se refere à ornamentação da igreja, a começar pelas linhas arquitetônicos do espaço celebrativo, passando pela beleza simples do altar, ambão, batistério, confessionário, etc... Tudo transmitindo a beleza através da simplicidade que favoreça o acolhimento e o sentir-se bem dentro de uma igreja.

Escolha dos materiais
            A Igreja sempre teve uma preocupação especial com o material usado nas igrejas, especialmente aqueles usados na ornamentação, quer dizer, no embelezamento do local onde se celebra o Mistério Pascal de Cristo. A IGMR 292 fala de “autenticidade”. Por isso, se o altar é de pedra, seja de pedra e não uma caixa vazia com quatro folhas de mármore imitando pedra; se alguma peça (altar ou ambão) for de madeira, seja de madeira e não um cimentício imitando madeira, por exemplo. Se o revestimento for de mármore, que seja mármore. Materiais autênticos.
            Esta indicação é extensiva para as ornamentações florais, que trataremos em outra oportunidade. Se for colocar flor seja flor natural e não de plástico. Se for colocar plantas, sejam plantas naturais e não de plástico ou de outro material. Se for usar frutas, que sejam naturais e não imitações. É um jeito de trazer a autenticidade da natureza para dentro da celebração e, também, de não celebrar com fingimentos.

Educação dos fiéis
            O último elemento da IGMR 292 refere-se à educação dos fiéis. Duas propostas interpretativas. A primeira, no sentido de educar os celebrantes a compreender a mensagem da ornamentação, da decoração da igreja. A boa e autentica ornamentação das igrejas é feita de sinais e símbolos da fé, de onde o espaço celebrativo ser uma catequese permanente, mas sempre como obra aberta, possibilitando a interpretação de novas mensagens. É importante oferecer um alfabeto litúrgico e artístico para a adequada e verdadeira leitura do espaço celebrativo.
            Um segundo aspecto da arte litúrgica presente na ornamentação das igrejas refere-se à curiosidade. Muitos são os turistas que entram em nossas igrejas para ver a igreja, tratando-a como um museu ou como uma simples obra arquitetônica. A educação seja no sentido de acolher os turistas, mas também ajudá-los a perceber que o mais importante é o que o diz a ornamentação e o motivo da arte que ornamenta a igreja: direcionar os olhos e o coração para Jesus Cristo.
Serginho Valle
2016


7 de out de 2016

IGMR 289 – A arte no espaço celebrativo

Por isso, a Igreja não cessa de solicitar a nobre contribuição das artes e admite as expressões artísticas de todos os povos e regiões. Ainda mais, assim como se esforça por conservar as obras e tesouros artísticos legados pelos séculos precedentes e, na medida do necessário, adaptá-las às novas necessidades, também procura promover formas novas que se adaptem à índole de cada época.
Portanto, nos programas propostos aos artistas, bem como na seleção de obras a serem admitidas na igreja, procure-se uma verdadeira qualidade artística, para que alimentem a fé e a piedade e correspondam ao seu verdadeiro significado e ao fim a que se destinam.

Sobre o espaço celebrativo, a IGMR 289 inicia convidando os artistas e todas as artes para participarem da organização e do embelezamento do espaço celebrativo. Convite feito especialmente a arquitetos, engenheiros, construtores, escultores, pintores. Todos, em forma de interdisciplinaridade, trabalhando para uma mesma finalidade: criar um espaço agradável, acolhedor e, principalmente celebrativo.
Engenheiros que não compreedem a dinâmica celebrativa tendem a construir um salão com um local elevado, em forma de palco, para dispor o altar e o ambão. O mesmo acontece com arquitetos que, por não conhecer as exigências celebrativas se descuidam dos vários espaços que as diferentes celebrações litúrgicas exigem, considerando que um espaço celebrativo não comporta somente a celebração Eucarística. Nestes casos, não poucas vezes, depois de construídas, se fazem necessárias adaptações, as vezes grotescas, boicotando a arte e a beleza do espaço celebrativo, como pede a IGMR 289.

Preservar e promover a arte
A reforma litúrgica orienta a preservar a arte litúrgica de outros tempos. Isto vale para as igrejas antigas, especificamente aquelas que são verdadeiros monumentos arquitetônicos. A orientação vale igualmente para altares, ambões e batistérios que primam pela beleza e pelo bom gosto da arte. Inclui-se nesta lista atenção especial para imagens e para pinturas, bem como as decorações com simbologias litúrgicas ou bíblicas.
Além disso, a Igreja pede que a arte que representa a cultura e a índole de cada povo seja expressa na arquitetura e no modo de representar o Mistério Pascal de Cristo que é celebrado na Eucaristia e nos demais sacramentos. Esta é uma recomendação, diga-se de passagem, que tem produzido um grande enriquecimento na arte litúrgica em termos de qualidade para os nossos tempos. Verifica-se isso em muitas de nossas igrejas brasileiras, mas salta aos olhos a arte litúrgica (diferente) em países africanos e asiáticos, com representações próprias daquelas regiões da terra.  

Três critérios
            A Igreja, como sabemos, quando trata de assuntos relacionados à Liturgia é muito criteriosa e cuidadosa. Não serve qualquer coisa e não admite que o espaço celebrativo seja feito de qualquer jeito. Além do critério da beleza, expresso pela arte, propõe ainda três critérios: alimentar a fé, promover a piedade e corresponder ao verdadeiro significado e ao fim a que se destinam.
            O primeiro critério considera a beleza da arte litúrgica como promotora da fé. Imagens ou figuras ou representações que não alimentam a fé não servem para a igreja enquanto local de culto e celebração do Mistério Pascal. Todo espaço celebrativo é convite para crescer na fé, por isso deve comunicar a fé e, como toda verdadeira obra de arte, deve ser uma “obra aberta”, no sentido de sempre se poder contemplar algo novo naquela obra. É um desafio digno de ser encarado por verdadeiros artistas e não por amadores.
            O segundo critério é a promoção da piedade. O ambiente formado pelo espaço litúrgico deve, principalmente e especialmente, ser um convite a silenciar, a rezar e a se calar diante do mistério. As antigas catedrais europeias, dependendo de cada época histórica, construíam grandes espaços para que, ao se adentrar ali, se fizesse a experiência da pequenez diante de Deus. O termo piedade, usado nesta IGMR 289, tem a ver com o sentimento religioso diante de Deus, ao se entrar no espaço celebrativo. Um espaço que não se aquieta somente nas celebrações, mas que convida a quem ali entrar a calar-se para contemplar, rezar e silenciar. O espaço celebrativo, quando bem feito, é um convite natural a silenciar. Conversas e falações dentro do local onde celebramos nossa fé são sintomas de que o espaço não está cumprindo bem sua função de cultivo à piedade.
            Por fim, o terceiro critério é corresponder o significado ao que se destina. Uma igreja é construída, em primeiríssimo lugar, para ser uma referência da fé onde se celebra o Mistério Pascal de Cristo. Não é um salão que se transforma em local celebrativo nos fins de semana e em centro comunitário nos demais dias da semana. Não discuto aqui a necessidade de muitas comunidades pobres, pois sei e conheço que também elas sonham por um local que seja somente igreja. Não se pode, a título de arrecadar fundos, transformar a igreja em sala de concertos ou coisas do gênero. As comunidades constroem suas igrejas com a finalidade de terem um local para rezar, para silenciar diante de Deus em qualquer hora do dia e onde, principalmente, celebram sua fé.
Serginho Valle
2016





5 de out de 2016

Salmo responsorial

O salmo que acompanha a 1ª leitura denomina-se salmo responsorial por ter a forma de responsório. Não se trata de “salmo resposta”, embora esta característica seja contemplada em documentos da Igreja. Anos atrás, havia a denominação de “salmo de meditação”, por entender que o mesmo tinha a função de meditar a Palavra ouvida, o que também é uma realidade. Outro nome dado ao salmo responsorial, este de antiquíssima tradição, é “gradual”. Termo que tinha a ver com espaço reservado ao salmista: no “gradus”, no degrau do presbitério, quando o salmo responsorial não era cantado no ambão, como hoje, mas num degrau do presbitério.

            Na Liturgia, o responsório, tradicionalmente, acompanha a proclamação de uma leitura Bíblica. Exemplo disso acontece na celebração da Liturgia das Horas quando, depois da proclamação da “leitura breve”, canta-se ou recita-se o “responsório breve”. Ainda na Liturgia das Horas, no Ofício das Leituras, depois da proclamação da leitura Bíblica e da leitura catequética, canta-se ou proclama-se um responsório. O mesmo princípio é aplicado ao salmo responsorial, na Missa e nas Liturgias da Palavra de todos os sacramentos.
            O responsório é ritualizado depois de um breve momento de silêncio, após a leitura proclamada. Este breve momento de silêncio quase nunca é respeitado em nossas celebrações Eucarísticas, infelizmente. Depois do momento silêncio, que tem a finalidade de interiorizar pessoalmente a Palavra ouvida, o salmista canta ou recita um salmo em tom de oração, com a participação da assembléia, que acontece através do responsório em forma de antífona. Assim, a participação dos celebrantes, na Liturgia da Palavra, acontece pelo ouvir a Palavra e cantando a antífona responsorial do salmo.
            A título de lembrança, alguns salmos responsoriais são também conhecidos como “salmos aleluiáticos”. Estes são cantados mais comumente nas Missas feriais; durante a semana. São salmos responsoriais que se servem do responso de “três aleluias” em vez de uma antífona. Quando se canta um “salmo aleluiático”, não há necessidade de se cantar o aleluia do rito aclamatório do Evangelho, pois o salmo aleluiático é considerado aclamação ao Evangelho.

Não substituir o salmo responsorial
            O salmo responsorial é parte integrante da Liturgia da Palavra. Isto significa que aquilo que a Palavra de Deus proclama, na 1ª leitura, transforma-se em oração com a mesma Palavra de Deus, uma vez que todo salmo é Palavra de Deus. Este é o motivo pelo qual o salmo responsorial não pode — não pode — ser substituído por uma canção, mesmo que esta tenha a ver com a leitura.
            A não substituição do salmo por uma canção parte do princípio magno da Liturgia da Palavra: que as leituras e o salmo responsorial jamais sejam substituídos por outras leituras ou canções, uma vez que nada é superior à Palavra de Deus. Tais mensagens ou canções podem usadas em outros momentos da Missa, mormente nos ritos finais ou na homilia, mas não para substituir a Palavra de Deus. Nenhuma canção, por mais bonita que seja, é digna de substituir um salmo responsorial.

Salmo responsorial cantado do ambão
            O local de onde se proclama o salmo responsorial é o ambão. Sobre este tema, remeto ao meu artigo intitulado “o salmista”, publicado neste blogger.
            As orientações da Igreja (OLM 20) preveem duas formas de cantar o salmo responsorial, sempre do ambão. A primeira, em forma responsorial, como estamos acostumados em nossas comunidades, com os celebrantes participando do responsório através da antífona. A outra é chama de “direta”, na qual se canta com a assembléia a antífona, depois o salmista canta todo o salmo, e se conclui com a assembléia cantando novamente a antífona.
Serginho Valle
2016
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