24 de jan de 2017

Hallel

O hallel é cantado nas grandes festas que Israel celebra em suas Liturgias com sequências de seis salmos aleluiáticos, de onde a terminologia de “hallel”. Recebem tal denominação por iniciarem com “hallel”, palavra hebraica traduzida para o latim como “alleluia”. Estes são seis salmos: de Sl 113 a  Sl 118.
            A principal característica do “hallel” é a louvação e o agradecimento, ação de graças pelo que Deus realizou e realiza em favor do povo. Canta ainda ação de graças pela esperança futura de uma terra de paz e a promessa do Reino, sempre alimentada pela Palavra, no meio do povo.
            Do ponto de vista cultual o “hallel” é um convite incessante a elevar louvores e glorificações ao Senhor. A composição do hallel é de seis salmos festivos e alegres que, nas celebrações litúrgicas judaicas são cantados em alta voz por toda a assembléia litúrgica como parte do Shachrit — a Liturgia matutina — e depois do Shemoneh Esreh — as dezoito principais orações. São cantados também nas principais peregrinações celebrativas: Pessah, Shavout e Soukkot, além das celebrações do Hanoucca e do Rosh Hodesh. Nos dias atuais, o hallel é também recitado como ação de graças no Dia da Independência de Israel.

(Composição de SV)

20 de jan de 2017

Arranjos florais - ikebana

Do ponto de vista da comunicação litúrgica, os arranjos florais não se prestam unicamente a ser um elemento estético, mas se caracterizam pela simbologia, no contexto celebrativo. Com isto, estou dizendo que não se coloca um arranjo floral unicamente para deixar o espaço celebrativo mais bonito e acolhedor; também isto. Mas, em cada arranjo floral, feito símbolo, torna-se mensagem simbólica. Por isso, os arranjos florais, enquanto proposta de mensagem simbólica, na celebração litúrgica, aproximam-se da filosofia do ikebana, uma técnica japonesa que trata de modo artístico os arranjos florais, comunicando por meio deles uma mensagem de vida.
Não sugiro adotar somente a técnica do ikebana. No caso litúrgico, interessa  também o seu processo, o modo como o ikebana é construído para que se torne uma mensagem artisticamente bela e litúrgica. Quanto a isso, considere-se que o ikebana faz parte de um processo terapêutico ocupacional, que se inicia com uma meditação, com um silenciamento interior antes de se iniciar o processo da criação do arranjo floral. É a meditação que irá despertar a sensibilidade do artista para realizar a composição floral. O arranjo torna-se assim expressão daquilo que ele meditou.
Esta parte da técnica, este processo de silenciamento interior, tem tudo a ver com o ministério da ornamentação que, como disse em outros textos, não são meros enfeitadores de igreja, mas atores da celebração enquanto criadores de um espaço celebrativo digno da celebração sacramental. Do ponto de vista litúrgico, a meditação, antes de confeccionar o arranjo, acontece com a Palavra de cada celebração para criar o seu arranjo floral. Por isso, deduz-se que não é a estética do agente do ministério da ornamentação que determina o arranjo floral, mas a Palavra proclamada da celebração: as leituras, o salmo responsorial e principalmente o Evangelho.
Assim, cada arranjo não é uma peça estética com a única finalidade de ser admirada, mas pela sua beleza estética torna-se um fator favorecedor que contribui com o bom andamento da celebração, para sua melhor compreensão e participação.
O membro do ministério da ornamentação, portanto, não é um simples prático que sabe sistematizar flores num contexto de beleza floral, mas, acima disso, ele atua como um contemplativo da Palavra que, por meio de sua criatividade, expressa simbolicamente a mensagem da Palavra ou do Mistério celebrado nos arranjos florais. Isto é válido para todos as celebrações sacramentais.

Aprendizado 
Tratando-se de uma técnica, entende-se a necessidade do aprendizado, de didáticas, de cursos, de experiências, para aprender, para se ter a prática de como realizar todo o procedimento até a arte final.  
A experiência tem mostrado que quando esta técnica é adquirida, muitos agentes do ministério da ornamentação fazem desse serviço uma verdadeira terapia e, mais que isso, percebem um crescimento em sua espiritualidade pessoal e, igualmente, o crescimento espiritual dentro do grupo dos agentes do ministério da ornamentação. Realiza-se assim uma das finalidades do ministério litúrgico: promover o crescimento espiritual de quem se ocupa com algum ministério, colocando-se de modo sempre mais consciente a serviço da celebração litúrgica, a qual atualiza o Mistério Pascal de Jesus Cristo em nosso hoje.

Aprimoramento 
À medida que se vai tendo prática na confecção da ikebana litúrgico, o resultado fica cada vez melhor e o trabalho torna-se sempre mais agradável de ser realizado. Por isso, é interessante fotografar cada ikebana para manter uma comparação quando a mesma celebração litúrgica for realizada novamente. 
Serginho Valle 
2016. 


18 de jan de 2017

Preparação do altar

Antes de receber as oferendas, o altar é devidamente preparado com um rito muito simples, mas pleno de significado. O rito tem a finalidade de preparar o altar para receber as oferendas da Igreja e dos celebrantes: o pão, o vinho e a água. 
Para tal finalidade o corporal é estendido sobre o altar. Um rito realizado pelo diácono (cf. IGMR 94; 178) e, na ausência deste pelo próprio padre (cf. IGMR 214). Hoje, em algumas comunidades, o rito está sendo realizado por ministros, seminaristas e até coroinhas. A Bíblia atribui ao sacerdote que oferecerá o sacrifício a atividade de preparar o altar, como na sugestiva passagem de Elias confrontando-se com os sacerdotes de Baal (1Rs 18,30-39). No Evangelho é o próprio Jesus que prepara o pão e o vinho para entregar aos seus Apóstolos, na Última Ceia (Mt 26,17-30) e, depois, carrega sua Cruz (Jo 19,17), o altar onde oferecerá sua vida em sacrifício. Citações (de tantas outras) para lembrar que a preparação do altar não é um simples gesto funcional, mas um gesto sacramental e fundamentado biblicamente. Quando isto não é feito, troca-se a finalidade de dispor o altar, qual local preparado para as oferendas, por um gesto funcional e sem expressão. Destroem o significado do rito por torná-lo meramente funcional. Isso acontece, normalmente, por não se compreender ou não se conhecer o significado do rito.  O que dizer, então, quando o altar é preparado pelo sacristão antes da Missa?

Para valorizar  
Do ponto de vista comunicativo, que é a finalidade de nossas reflexões, um modo de valorizar o rito é realizando-o antes da procissão ofertorial. O diácono ou o padre recebe dos ministros ou dos coroinhas o corporal e o estende sobre o altar e depois desce até a nave para receber os dons oferecidos pela assembléia.  Assim se deveria proceder pelo menos nas Missas dominicais.
Em algumas celebrações especiais, como nas Missas de Primeira Comunhão, pode-se deixar o altar com uma toalha simples e prepará-lo de modo mais “completo”, digamos assim, estendendo uma toalha sobre o mesmo.
Outro modo de valorizar o rito da preparação do altar, além de estender o corporal, é colocando as velas nas laterais do altar e, no tempo permitido, colocar flores aos pés ou ao lado do altar. Tal atividade, esta sim, poderá ser feita por ministros, coroinhas ou outros celebrantes. Do ponto de vista comunicativo, indica a valorização do espaço que compõe o altar e a importância dos dons ali colocados. Depois que estiver preparado, então sim realizar a procissão ofertorial. Ou seja, comunica-se que o espaço está devidamente preparado para receber as oferendas. O costume de realizar ritos simultâneos, como preparar o altar durante a procissão ofertorial é um jeito de amontoar ritos e esconder o significado dos mesmos.
A preparação do altar é um rito simples, mas importante também para indicar a passagem de um espaço celebrativo para o outro espaço celebrativo. É a passagem da Mesa da Palavra para a Mesa Eucarística. Ora, isso acontece por meio da preparação da outra Mesa, a Mesa do Altar.
Nesta preparação além dos elementos já citados acima, coloca-se também o cálice sobre o altar, uma vez que o cálice não é levado na procissão das oferendas.  
Para concluir, apenas lembrar e reforçar que se trata de um rito simples, um rito de passagem de uma Mesa para outra, que marca igualmente a passagem de Liturgia para outra: da Liturgia da Palavra para a Liturgia Eucarística. Um rito simples que vale a pena ser valorizado para ressaltar e distinguir as duas Mesas que alimentam os celebrantes na celebração da Missa, aquela da Palavra e aquela Eucarística.
Serginho Valle
2017


28 de dez de 2016

Catequese litúrgica 2 = Liturgia e Epifania

Um tempo novo e um novo caminho se abre diante de nós no mês de Janeiro. Por isso, votos de feliz ano novo, abençoado e repleto das bênçãos divinas. Este é o primeiro sentimento que a Liturgia expressa quando celebra a Solenidade da Mãe de Deus, invocando na 1ª leitura a bênção divina para todo o povo, na certeza que somos necessitados desta bênção para iluminar nossos passos no decorrer de todo o novo ano.
A Palavra da Solenidade da Mãe de Deus, além da teologia e espiritualidade litúrgica da Maternidade Divina em Maria, considera também o contexto do Ano Novo, que se inicia com a intercessão pela paz no mundo inteiro. A bênção divina é a pessoa de Jesus Cristo presente na vida pessoal, na vida da comunidade e em toda a terra. O melhor modo de participar dessa bênção, diz São Paulo, é tornando-se filhos e filhas de Deus (2L da Solenidade da Mãe de Deus).

Tempo epifânico: adoração e conversão
Do ponto de vista da Teologia Litúrgica, as primeiras celebrações do Ano Litúrgico, depois do Advento, caracterizam-se como celebrações “epifânicas”. Isto em decorrência das celebrações natalinas, mas também presente no início da primeira parte do Tempo Comum.
A Epifania, do ponto de vista da Liturgia cristã, é a celebração da manifestação divina no mundo em Jesus Cristo. Deus que se manifesta em Jesus Cristo. — Para a Teologia Litúrgica Oriental, as celebrações litúrgicas são epifanias divinas, são manifestações da presença divina na terra em modo sacramental. — As celebrações que acontecem no início do Ano Litúrgico (que corresponde a dezembro e janeiro do mês civil) facilitam esta compreensão, porque nos ajudam a perceber como Deus se manifesta ao mundo, na pessoa de Jesus, o Verbo Encarnado, celebrado na Liturgia em sua dupla dimensão: memorial e compromisso de vida.
O primeiro momento (no mês de janeiro) encontra-se na Solenidade da Mãe de Jesus, quando a Sagrada Família manifesta (faz epifania) da glória divina deitada numa manjedoura aos pastores. Tal manifestação continua na Solenidade da Epifania propriamente dita, com a profissão de fé dos Reis Magos: “Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo!” Deus se manifesta como recém-nascido pobre e como luz que atrai todos os povos à adoração. Neste sentido, a Epifania não apenas vê, contempla, mas tem o compromisso de convidar a adorar o Deus único e verdadeiro. Consequentemente, o inverso disso consiste na necessidade de abandonar os ídolos e toda forma de idolatria antiga e atual. É a conversão existencial, representada nos Reis Magos que voltam por um caminho diferente depois de terem adorado o Menino Deus (Mt 2,12).

Vida iluminada pela luz divina: atraídos para Jesus
A Liturgia relacionada à Epifania divina demonstra que toda a humanidade pode ser iluminada com a luz divina, porque Jesus, o Filho de Deus, é a luz que veio para iluminar o mundo (Jo 1,8-13). Isto vem do simbolismo da “estrela guia” que conduziu os Magos até o presépio. Por isso, a Liturgia é Epifania enquanto conduz e acende a luz divina entre os celebrantes e os atrai para o encontro com Jesus. Esta é a definição da nova evangelização: evangelizar não é tanto explicar o Evangelho, mas promover o encontro com Jesus para fazer discípulos. Assim a Epifania é movimento evangelizador por atrair os celebrantes ao encontro com Jesus. Os Magos são o exemplo evangélico, neste sentido.
Também a celebração da Festa do Batismo do Senhor entra no contexto da Epifania, pela apresentação de Jesus, não feita pela sua família, como no presépio, mas feita pelo próprio Pai: “Eis meu Filho muito amado, escutai-o todos vós!” Jesus é manifestado (epifania) pelo Pai como seu Filho e como seu Servo.
A referência ao “Servo de Javé”, o escolhido especialmente por Deus para uma missão que o próprio Deus deveria realizar na terra, é Jesus. No contexto da Teologia da Epifania, a Liturgia não o apresenta somente como Filho de Deus, mas como “Servo de Deus”, o servidor de Deus, aquele que está entre nós para prestar um serviço a Deus em favor da humanidade. O Servo de Javé e sua missão, descritos por Isaias (Is 52,13-53,12), realiza-se plenamente em Jesus. O tema do “Servo de Javé” é celebrado pela Liturgia na Paixão do Senhor, de onde a Epifania ter uma ligação direta com o momento máximo do serviço que Jesus presta ao Pai em favor da humanidade.
Quanto aos celebrantes do Batismo epifânico de Jesus, estes recebem da celebração o compromisso concreto de viverem como filhos e filhas de Deus, como também, a exemplo de Jesus Cristo, o compromisso relacionado ao serviço. Em resumo, configurados a Jesus, no e pelo Batismo, o cristão assume a mesma dinâmica e a mesma proposta existencial do Mestre que veio não para ser servido, mas para servir (Mt 20,28).  


Epifania no início do Tempo Comum - A
A manifestação (epifania) de Jesus continua no início do Tempo Comum, no 2º Domingo do Tempo Comum – A (2DTC-A), mais precisamente, com a apresentação de Jesus pelo maior de todos os profetas, João Batista, que o manifesta (faz epifania) como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!
João é o terceiro personagem que “manifesta”, faz epifania da presença divina no mundo, na pessoa de Jesus. Primeiro foram José e Maria, depois o próprio Deus Pai e, agora, João Batista. Como de cada epifania se percebe uma atividade messiânica de Jesus, o mesmo acontece na epifania feita por João Batista, no início deste Tempo Comum: introduz Jesus na missão profética do Servo de Javé, aquele que tem a vocação de, pelo sacrifício, se tornar “cordeiro”, isto é, oferecer a própria vida como oferta pascal. A vocação profética do "Servo de Javé" realiza-se plenamente em Jesus Cristo, que trouxe para a terra e para toda a humanidade o projeto divino: o Reino de Deus. Um projeto a ser seguido por quem deseja morar com Jesus, isto é, tornar-se discípulo e discípula de Jesus (Evangelho do 2DTC-A). A consequência concreta, portanto, não é apenas conhecer Jesus como “Cordeiro de Deus”, mas entrar no discipulado.
A conclusão de todas estas celebrações epifânicas, realizadas no final do Tempo Natalino e início do Tempo Comum - A, retomam o tema da luz, que pode ser resumido na seguinte passagem Bíblica: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz!” (1L do 3DTC-A). É a profecia de Isaias que se realiza em Jesus, porque ele é a luz do mundo e trouxe o seu Evangelho para iluminar a terra com a luz divina. Novamente, o compromisso concreto do discipulado para não se viver nas trevas do mundo.
Do ponto de vista celebrativo, entende-se que todos que se fazem discípulos e discípulas de Jesus tornam-se iluminados e também iluminadores da luz divina, trazida por Jesus e seu Evangelho. É a dinâmica da evangelização: iluminar a terra com a luz do Evangelho. É pela evangelização, que o grande sonho humano coincide com o sonho divino de acender a luz do Evangelho para iluminar os corações de homens e mulheres tornando-os discípulos e discípulas. Isto tem seu início pela vivência das Bem-aventuranças, o coração do Evangelho, que é proclamada na última celebração Dominical de Janeiro (4DTC-A). Assim, depois da Epifania, depois de apresentar quem é Jesus, a Liturgia, pedagogicamente, inicia a formação dos celebrantes no discipulado.
Serginho Valle
2016


21 de dez de 2016

Catequese litúrgica 1 = O Natal é Epifania

O titulo afirmativo está correto: o Natal é Epifania. Embora nem sempre isto seja muito claro na Liturgia Ocidental, é mais evidente na Liturgia Oriental, onde o Natal, inclusive, é celebrado no dia 6 de janeiro, data na qual, nós na Liturgia Romana, celebramos a solenidade da Epifania. 

A nossa Liturgia Romana optou por diferentes celebrações epifânicas, no decorrer do Tempo do Natal, iniciando na véspera do dia 25 de dezembro até a festa do Batismo de Jesus, que conclui o Tempo Natalino. A rigor, a última celebração natalina, ou pelo menos ligada ao Natal, acontece no dia 2 de fevereiro, na Festa da Apresentação do Senhor ao Templo, quando Simeão canta o “Nunc dimitis”.
A opção da Liturgia Romana por celebrações epifânicas, além da celebração do Mistério Pascal nas celebrações natalinas, contém um elemento catequético a ser considerado. Seria melhor dizer pedagógico catequético. Em cada celebração existe uma catequese e uma pedagogia quanto ao modo como Deus se manifesta (epifania) e se faz presente como Emanuel, o Deus conosco, o Deus entre nós. Desta forma, entende-se que o Natal é uma Epifania, uma manifestação divina na história da humanidade. Como são “Epifanias” todas as celebrações que acontecem depois da celebração do Natal.
O modo como isso acontece, no contexto celebrativo do Natal, envolve vários acontecimentos que vão desde a Anunciação até o nascimento de Jesus, num presépio, em Belém. Deus se manifesta na gravidez da mulher, Maria. Deus que se manifesta como recém, nascido de uma mulher, da Virgem Maria. Deus que se manifesta como recém-nascido com um pai adotivo, José, se manifesta aos pastores que são conduzidos ao local do nascimento, atraídos por cantares e luzes angélicas (Lc 2,1-14).
Além disso, Deus se manifesta morando numa família humana (Sagrada Família), nascendo de uma mulher (Mãe de Deus, Maria), aos povos do mundo inteiro, representados nos Reis Magos (Epifania), no momento em que é batizado por João Batista (Batismo de Jesus).
O que mais chama atenção, do ponto de vista epifânico, é a escolha divina de se manifestar através da pobreza humana. Um modo que não corresponde às epifanias dos antigos reis e dos atuais líderes das nações: exibindo força e poder, revelando o medo oculto de serem atacados. Deus se manifesta, no Natal, de modo simples, pobre, vulnerável, desarmado, mostrando a coragem de se deixar tocar para se fazer mais próximo possível. 
Do ponto de vista catequético e pedagógico, o Natal manifesta, faz epifania, daquilo que a Teologia denomina como "kenosis": o despojamento da sua riqueza para assumir a pobreza humana. O Criador que se rebaixa para se fazer criatura e, deste modo, enriquecer-nos com a possibilidade de nos divinizar. Como diz Paulo, neste contexto da epifania divina no Natal: “de rico que era tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos por sua pobreza” (2Cor 8,9. Cf. Fl 2,6).
Serginho Valle 
2016. 


16 de dez de 2016

Procissão ofertorial

Concluída a Liturgia da Palavra, tem início a Liturgia Eucarística com os celebrantes participando da procissão ofertorial Eucarística. Vamos considerar três dimensões teológicas da procissão ofertorial. Num outro momento, consideraremos a dimensão ritual com seu processo comunicativo. As três dimensões teológicas que vamos considerar são a Eucarística e a fraterna e a simbólica.

Dimensão Eucarística da procissão ofertorial
Sim, Trata-se de uma procissão ofertorial Eucarística porque os celebrantes se dispõem a oferecer, eucaristicamente, isto é, como ação de graças, os frutos da terra e do trabalho humano, como reza a oração da apresentação das oferendas feita pelo sacerdote. É, portanto, um rito de quem se aproxima do altar com suas oferendas para agradecer a Deus o alimento que ele concede vida à humanidade. É uma procissão que testemunha o reconhecimento de que Deus abençoa a terra e o trabalho humano para alimentar a vida. 
Algumas canções do repertorio litúrgico ofertorial cantam esta dimensão de ação de graças, como por exemplo a canção "Bendito seja Deus Pai".  Diz a primeira estrofe: Bendito seja Deus Pai, do universo criador. Pelo pão que nós recebemos, foi de graça e com amor.”
Este contexto da dimensão ofertorial Eucarística, de ação de graças, ajuda-nos a entender a inadequação de alguns símbolos e sinais que se veem em algumas procissões ofertoriais. Exemplo típico desse fato é o costume de levar cartazes com frases ou pensamentos. Um dos critérios na escolha de sinais e símbolos ofertoriais tem a ver com agradecimento pelo dom da vida.
Isto tem também um alcance espiritual, que pode ser mencionado na monição que motiva a procissão ofertorial de cada Missa. O Evangelho de cada celebração como que determina quem é convidado a participar da procissão ofertorial de modo digno e quem precisa deixar sua oferta diante do altar para primeiro se reconciliar com irmão (Mt 5,24). Assim, se o Evangelho relatar a multiplicação dos pães, quem não partilha o pão com o faminto não é um convidado digno para estar na procissão ofertorial. A motivação de que todos precisam entrar na procissão ofertorial, mesmo se não irão colocar dinheiro no cesto, é um analgésico piedoso, especialmente para quem, espiritualmente falando, não é digno de ofertar algo no altar por estar em débito com o que pede o Evangelho.


Dimensão fraterna da procissão ofertorial
Outra dimensão da procissão ofertorial tem a ver com a fraternidade. Aqui estou falando da partilha fraterna. Esta está presente na coleta de bens realizada antes de levar os dons ao altar. A procissão ofertorial não oferece apenas os dons Eucarísticos — pão, vinho e água — mas oferece também dons para a partilha fraterna.
Em tempos que já vão longe, a coleta ofertorial fraterna acontecia colocando aos pés do altar mantimentos alimentares e vestuários. Respondia-se assim ao que Jesus dizia: "estive com fome e me destes de comer... Estive nu e me vestistes" (Mt 25,35-45). Aqueles mantimentos colocados ao pé do altar não eram para o padre, mas para os pobres, os prisioneiros, os  migrantes. Hoje em dia, temos um pálido resquício disso em algumas comunidades com as chamadas “campanhas do quilo”, cujos mantimentos deveriam ser levados ao altar no momento da procissão ofertorial e não depositando as espécies em cestas, no fundo da igreja. Quando assim é feito perde-se a chance de celebrar diante do Altar, no contexto celebrativo Eucarístico, a partilha fraterna. Mas, sempre é tempo de recuperar esse gesto e o seu profundo senso evangélico e evangelizador.
Com o passar da história, a partilha dos bens em espécie começou a ser substituída por dinheiro. A substituição aconteceu, a oferta é feita em dinheiro, mas a finalidade continua a mesma: aquele dinheiro levado na procissão ofertorial é uma coleta fraterna e não é para o padre e nem do padre; é para os pobres.  O padre já recebe sua espórtula pela celebração da Missa. Aquele dinheiro deveria ser destinado a comprar comida, roupas, remédios... para os pobres. O fundamento Bíblico é muito claro: se não partilhas a oferta Eucarística com os pobres, tua oferenda não tem valor (At 2,45; Pv 22,9). Com isso se entende que a oferta feita no altar também não tem nada a ver com a contribuição dizimista. Para isso existem outros momentos.  
Estranho é o sentido dado em algumas comunidades a se aproximar da cesta das ofertas e ali depositar “espiritualmente” uma oferenda da própria vida. É muito estranho porque a oferta, naquele momento, não é abstrata, mas é algo concreto para ajudar o pobre a ter o comer ou vestir.
                Entende-se assim que toda Eucaristia sempre mantêm um olhar fraterno para o pobre, os necessitados. Também esta dimensão fraterna da procissão ofertorial é cantada em algumas canções do nosso repertório litúrgico ofertorial. Lembro a canção "Daqui do meu lugar" que no refrão canta: Somos a Igreja do pão, do pão repartido e do abraço e da paz”. O mesmo tema encontramos na canção "Sabes, Senhor", que diz: Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar. Mas este pouco, queremos com os irmãos compartilhar.”

Dimensão simbólica
                Por fim, a dimensão simbólica. Esta se faz presente nos dons Eucarísticos do pão, vinho e água. Dons que, como é fácil entender, mantêm uma relação estreita com a vida. Este é, com já mencionado acima, o critério para ser levar outros elementos simbólicos na procissão ofertorial: manter uma relação estreita com a vida e, além disso, serem dons que conduzem os celebrantes a dar graças a Deus pela vida.
                Assim, escolher como símbolo uma cesta de alimentos para ser conduzido juntamente com os dons Eucarísticos é uma boa escolha. Mas, não é uma boa escolha, neste sentido, levar cartazes com nomes de pastorais ou com frases de efeito. Levar na procissão das ofertas ferramentas que representam os trabalhos de uma comunidade é uma escolha que remete a vida e mantêm vínculo com o pão e o vinho.
                Juntamente com os dons eucarísticos, pode-se levar também símbolos que remetem ao compromisso cristão. Assim, na proclamação do Evangelho do “sal da terra e luz do mundo” (5DTC-A), realizar uma procissão com pessoas levando uma vela batismal acesa para acompanhar os dons, remete ao compromisso de ofertar os dons da terra e do trabalho humano testemunhando o empenho de ser sal e luz na comunidade.
Serginho Valle

2016
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