17 de nov de 2017

O trabalho da Equipe Litúrgica na comunidade

Disponibilidade de quem trabalha na Equipe LitúrgicaPrecisamos ser sinceros, desde o início: quem trabalha no ministério da Pastoral Litúrgica, de modo particular, quem se ocupa com Equipe Litúrgica, não pode ter muitos outros trabalhos pastorais na comunidade. Aliás, penso que não deveria ter nenhuma outra atividade pastoral para se dedicar exclusivamente à Pastoral Litúrgica.
         A Equipe Litúrgica envolve demais as pessoas. Vamos elencar alguns dados, numa lista que poderá ser bem mais extensa que esta que apresento, elencando as atividades dos membros da Equipe Litúrgica. Os principais trabalhos da Equipe Litúrgica são:

 Reuniões de planejamento       Quem atua na Equipe Litúrgica está quase sempre envolvido em reuniões de planejamentos. Ora são as reuniões de planejamento da formação litúrgica da comunidade, ora serão as reuniões de planejamento das celebrações do mês; tem também as celebrações especiais, além disso, as escolhas de canções para o mês... Como se vê, é um trabalho envolvente, que ocupa os membros da Equipe Litúrgica de tal modo que os mantêm ocupados o tempo todo.

 Encontros de avaliações       Uma vez que a Pastoral Litúrgica é uma pastoral que exige revisões periódicas, quem trabalha diretamente na Equipe Litúrgica precisa encontrar tempo para avaliar com sinceridade e com objetividade as celebrações, o encontro de formação que aconteceu, as canções que foram propostas pelo Ministério da Música, etc... Uma vez que de boas avaliações surgem melhorias para a Pastoral como um todo, as avaliações necessitam de muita atenção e carinho, isto significa avaliações bem feitas.       As boas avaliações surgem de uma metodologia que não se resume a criticar o que não saiu bem para chamar atenção e fazer correções, embora isso seja necessário. De boas avaliações surge a proposta de se estar em contínuo processo de aprendizagem em vista de uma criatividade frutuosa para o bem de todos que celebram a Liturgia na comunidade.

 Preparação de cursos e encontros       De tempos em tempos, a Equipe Litúrgica precisa preparar cursos e encontros. São cursos de fundamentação teológica, às vezes um retiro espiritual com algum ministério, como leitores, salmistas... Outras vezes são cursos de iniciação ou de aprofundamento teológico, cursos de técnicas para cantar bem, para ler, postura corporal, etc.      Como se sabe, preparar um curso envolve muitas pessoas e sempre é uma tarefa exigente. Uma boa formação litúrgica não se limita a encontrar palestrastes e passar um final de semana ouvindo palestras. A boa formação litúrgica, especialmente aquele dedicada a atividades celebrativas acontece, de preferência, com pequenos grupos de ministérios específicos (só com os músicos, por exemplo; só com o ministério da acolhida) e com a metodologia de workshop, que adota como método uma espécie de laboratório. Cursos, portanto, com finalidade de conhecimento teórico e prático.       Eis outro motivo a mais para que você perceba quão difícil é conciliar quem atua na Equipe Litúrgica com outra atividade pastoral.

 Preparar material - coordenar       Todos os meses a Equipe Litúrgica está envolvida com alguma atividade extra: festa do padroeiro, celebração penitencial, celebrações catequéticas e outras mais. Tudo isso exige preparação de material, coordenação, tempo para preparação. Dentro do princípio de jamais improvisar e nunca repetir, a Equipe Litúrgica vive em constante atividade criativa. Quando aparecem as celebrações de Tempos fortes do Ano Litúrgico (Natal e Páscoa) o volume de trabalho aumenta ainda mais. Além de preparar o material, a Equipe Litúrgica precisa passar todo esse material para as Equipes de Celebrações com as devidas orientações.

Depois de tudo isso....
            Depois de tudo isso, alguém que contestar que o pessoal da Equipe Liturgia fica somente com as celebrações da comunidade, e ainda considera isso muito pouco, não compreendeu ainda que a Equipe Litúrgica faz a Pastoral Litúrgica acontecer na comunidade para que as celebrações sejam vivas, atraentes e fonte de todas as atividades da Igreja (SC 10). Claro que sempre haverá alguém para reclamar, como mostra a experiência; a estes é preciso conceder o perdão e continuar a trabalhar.
            Toda essa minha reflexão poderá servir para pensar que um trabalho pastoral, qualquer que seja, a exemplo do que falamos para a Pastoral Litúrgica, necessita dedicação plena, para se evitar o que vemos hoje em nossas comunidades: ataca-se em todas a frentes, atira-se para todos os lados e nem sempre se alcança o que se propõe. Isso acontece, não pela falta de capacidade para o trabalho pastoral, mas porque uns poucos estão querendo, ou precisam, atuar em várias frentes pastorais. Será que isso acontece por falta de voluntariado ou descuido na formação e preparação de lideranças?
            Alguém poderá dizer que não estou confiando no Espírito Santo. Muito pelo contrário. Um antigo adágio teológico diz: “a graça supõe a natureza”. Isto quer dizer que Deus colabora com a graça, mas nos concede a graça da inteligência para nos organizarmos e termos objetivos claros a alcançar.
Serginho Valle
Novembro 2017

10 de nov de 2017

Motivos para organizar a Pastoral Litúrgica Paroquial

Num texto anterior, trabalhamos as dificuldades que podem surgir dentro da própria comunidade quanto a organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). Mas, como nenhuma comunidade pode estacionar no tempo, dando ouvidos a quem se contenta com a mesmice de sempre, é interessante considerar os motivos para se ter uma PLP organizada. 
Estruturação e organização da Pastoral Litúrgica na Igreja
           A organização da Pastoral Litúrgica nas comunidades, a PLP, em sentido amplo, é parte de uma organização maior. O que temos nas comunidades é uma organização de base, e na base, por assim dizer.
            O primeiro estágio dessa organização encontra-se em Roma, na Santa Sé, com a Sagrada Congregação para o Culto Divino. Depois, em nível de América Latina, o CELAM tem um departamento que se ocupa de Liturgia. No Brasil, existe a Dimensão Litúrgica da CNBB. Aproximando-nos um pouco mais das comunidades, cada Diocese deverá ter sua Equipe Litúrgica Diocesana e, em nível de Paróquia, cada comunidade paroquial terá uma Equipe Litúrgica Paroquial.
            Naquilo que atinge mais de perto as comunidades, a Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium sugere que a Equipe Litúrgica Diocesana seja dividida em três setores: a Liturgia enquanto comporta a formação e as orientações celebrativas; a Equipe Litúrgica Diocesana de Música, encarregada de tudo aquilo que se refere à arte musical da Diocese e a Equipe Litúrgica Diocesana da Arte Sacra que, mesmo podendo ser independente daquela, zela sobre as obras artísticas da Diocese, além de atuar como consultores, no momento da construção de igrejas e locais destinados ao culto divino. (Cf. SC 43-46). Dito isto, vamos considerar alguns motivos para a organização da PLP.


1 – A Liturgia é o cume das ações da Igreja
            O primeiro motivo diz respeito à importância da Liturgia para a Igreja. A este propósito, diz a Sacrosanctum Concilium: “Toda celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de seu corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja” (SC 7).
            Sendo assim, supõe-se que não se pode tratar a Liturgia como uma atividade dentre outras, na comunidade, mas como aquilo que é: “a mais importante dentre todas as ações da Igreja”. Não se trata de transformar tudo em liturgia, alertado pela SC 9, mas dar, sim, o devido valor como atividade primordial e fontal na vida da Igreja. Não se pode tratar a Liturgia de qualquer modo, uma vez que celebrar a Liturgia é sempre ato memorial, isto é, atualização da Salvação divina em nosso hoje.

2 – Presença de Cristo
            Outro motivo é a presença e a ação de Jesus Cristo nas ações litúrgicas. Jesus Cristo está presente nas atividades missionárias, catequéticas, caridosas que são realizadas em nossas comunidades, contudo, na Liturgia, Jesus Cristo age “in persona”; é ele quem anuncia o Evangelho, quem batiza, crisma, reparte a Eucaristia, reza e oferece o culto espiritual ao Pai (Cf. SC 7). Sendo assim, não se pode admitir que a Liturgia seja celebrada de qualquer jeito. Um motivo importantíssimo para que façamos bem e preparemos bem todas as ações litúrgicas da comunidade.

3 –Afluência do povo
            As celebrações litúrgicas, do ponto de vista pastoral, é um momento no qual o padre ou o responsável da comunidade (onde não há padre) tem o maior contato com o seu povo. Muitos dos celebrantes têm contato com o padre de vez em quando. Contudo, no momento da celebração, o padre tem um contato privilegiado com a maior parte do povo que lhe foi confiado. É importante e, diria mais, necessário, que o padre exerça com dignidade, com respeito e com competência as presidências litúrgicas a fim de ter um contato qualificado com seu povo.
            Junto a isso, considero aqueles “cristãos de ocasião”, que aparecem para algum ato especial na igreja e na comunidade: casamento, batizado, Missa de 7o dia... É a oportunidade do padre para conversar com essa gente e propor-lhes o caminho do discipulado nas estradas do Evangelho.
            Você concorda comigo que em tais circunstâncias não se pode fazer qualquer coisa e de qualquer modo. É preciso que seja feito bem feito, sem a sensação da improvisação de quem faz para descumprir-se de alguma tarefa da qual foi incubido. Para tal fim, a organização da PLP é imprescindível.

4 – Linguagem da celebração litúrgica
            Trago a linguagem litúrgica como quinto motivo para se organizar bem a Pastoral Litúrgica na comunidade. A razão é que nossa Liturgia é sóbria e breve, e para realizá-la assim, breve e sobriamente, é preciso preparação e, mais que simples distribuição de tarefas, necessita uma boa e acurada preparação. Em assim não se fazendo, entende-se que celebrações mal preparadas, ou não preparadas, tornam-se prolixas, transformadas em falação e cantorias.
            Como se vê, quanto mais simples for um processo comunicativo e, quanto mais conhecido é este processo de comunicação, como é o caso da Missa, mais necessária se faz uma boa preparação. Não se trata de arranjar uma novidade para cada Missa, ou para celebrações sacramentais, mas ter uma linha condutora que ajude os celebrantes a celebrar bem, de modo breve e sóbrio com a linguagem litúrgica.

5 – Improvisação é sinal de desleixo
            Como já escrevi no meu livro sobre a Pastoral Litúrgica, quando se percebe em uma celebração que ninguém sabe ao certo o que fazer, como fazer... a celebração já começa com rumores e, fácil deduzir, começa mal.
            Alguns padres têm a estranha ideia que tudo deve ser feito no improviso e que o Espírito Santo é que vai “soprando” as inspirações para cada momento. Eles esquecem que Deus é organizado e preparou por milhares de anos a vinda de Jesus ao mundo. Jesus mesmo preparou todo o processo do discipulado, até que veio o Espírito Santo para fazer a Igreja caminhar, no dia de Pentecostes. Ora, se isso é observável na História da Salvação, que celebramos na Liturgia, a improvisação é um contratestemunho que precisa ser evitado a todo custo. Celebração não se improvisa.

Cinco motivos para se favorecer e incentivar a criação de uma Pastoral Litúrgica Paroquial atuante e eficaz.  
Serginho Valle

Novembro de 2017

4 de nov de 2017

Catequese litúrgica: Liturgia e fim dos tempos

A Liturgia reserva as últimas celebrações do Ano Litúrgico para celebrar e refletir sobre o final dos tempos. Mesmo que a Palavra fala de momentos catastróficos, a linguagem é apocalíptica, e isso tem causado incompreensões e até mesmo temor. Uma aproximação equivocada, do senso comum, por relacionar a linguagem apocalíptica a acontecimentos trágicos, extremamente catastróficos e, por isso, destruidores.
Apocalipse é uma palavra de origem grega que significa “revelação”. Disso se conclui que a linguagem apocalíptica é uma linguagem reveladora, não no sentido de anunciar o futuro, mas de chamar atenção à vigilância de cada um para não perder a fé, a esperança e a alegria no momento que as seguranças da terra começarem a desaparecer. A Liturgia, portanto, em suas celebrações não anuncia o terror da destruição, mas celebra a força da esperança, apoiada na virtude da vigilância. Em nenhum momento, a Liturgia profetiza catástrofes, nas celebrações de fim de ano. Ao contrário, continua sendo profeta e promotora da esperança em Deus.
Mas, vamos colocar uma questão: — esta esperança pode diminuir ou até mesmo desaparecer devido à desconfiança pessoal? Sim! Disso se entende o empenho da Liturgia em manter a esperança através da vigilância. Vamos considerar como isso acontece a partir de algumas considerações de celebrações do Ano A.


A santidade como realização da vida
A santidade divina é a primeira proposta apocalíptica celebrada na Liturgia. É a celebração de uma revelação (um apocalipse) festiva e repleta de esperança: todo homem e mulher são chamados a participar da santidade divina. É a comunhão de todos os santos, que professamos no Credo da Igreja e celebrada na Solenidade de todos os santos e santas, em dia 1º novembro. Por motivos pastorais, aqui no Brasil, é transferida para o primeiro Domingo depois da data.
Minha reflexão considera a proposta pastoral pedagógica original do Ano Litúrgico. Neste caso, antes de celebrar a morte cristã, no dia seguinte (2 de novembro), a pedagogia litúrgica celebra o destino da vida: viver e participar da santidade divina. Antes de refletir sobre a morte, a Liturgia, pedagogicamente, mostra que somos destinados a ser santos e santas. A morte não é o fim de tudo, não é o fim da vida, mas é uma passagem para participar da vida plena que acontece na santidade divina, na comunhão de todos os santos e santas.
Por isso, as duas celebrações — de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos — do ponto de vista pedagógico, estão próximas porque indicam duas realidades da vida humana: a realidade da morte e a realidade do destino da vida humana. Entende-se que a celebração do dia 2 de novembro celebra a fé e a esperança na "comunhão dos santos", como professamos no Credo, sustentando-se na Palavra desta celebração que promete e garante a vida eterna para quem viver em Jesus Cisto. É um contexto celebrativo marcado essencialmente pela esperança e pela fé na vida eterna.
Além da fé e da esperança, existe também a já citada “comunhão dos santos”, pelo qual nós, como Igreja que vive na terra, intercedemos à Igreja que vive no céu, que acolha aqueles que partiram desta vida na esperança do repouso eterno. Existe esta “comunhão dos santos” que, em outras palavras, pode ser denominada, também, como “comunhão de batizados”, aqueles que foram lavados na água do Batismo e, por receberem a filiação divina, tornam-se santos e santas. A segunda dimensão é que os santos que vivem na terra (os batizados) intercedem para que os falecidos participem da santidade plena da vida divina. Isso não é feito somente no dia 2 de novembro, mas diariamente, em todas as Missas celebradas na Igreja.
A celebração dos santos e santas, para finalizar, não é, apenas, um convite para refletir sobre a santidade, mas principalmente entender a santidade como realização da vida humana, algo que nem a morte pode destruir, porque somos redimidos no Sangue do Cordeiro vitorioso e revestidos com a veste dos eleitos.


Vamos ao encontro do Senhor! Esperança e vigilância
No contexto apocalíptico que marca as celebrações da conclusão do Ano Litúrgico — apocalíptico como revelação do destino do homem — encontra-se também o convite da Liturgia para caminhar ao encontro do Senhor. Este caminhar ao encontro do Senhor acontece em duas estradas importantíssimas, do ponto de vista da espiritualidade cristã: a estrada da esperança, que é alimentada pela fé, e a estrada da vigilância, alimentada pela caridade, pelo amor. Isto se faz presente nas celebrações do 32DTC-A e 33DTC-A.
Dois enfoques ajudam a contextualizar a celebração do 32DTC-A. O primeiro convida a se deixar encontrar por Deus e acolher a Sabedoria divina na vida pessoal. Ao se dizer que o enfoque celebrativo do 32DTC-A consiste em se de deixar encontrar por Deus, a Liturgia está convidando a viver na vigilância, porque Deus é quem nos procura, vem ao nosso encontro, presente na expressão: “O noivo está chegando. Ide ao seu encontro”. Aqui está uma versão da linguagem apocalíptica: a Liturgia revelando um tempo especial que consiste na vinda do “noivo”, isto é, a 2ª vinda de Jesus Cristo. Por isso, não se pode ficar dormindo, é preciso viver na vigilância.
O segundo enfoque convida, justamente, a viver na vigilância com a alegria e com a expectativa de participar de um banquete de amor com Deus, pois nele está a fonte da vida plena. Vigilância, na proposta das celebrações de fim de Ano Litúrgico, não significa viver aprisionado, bloqueado ou atemorizado com os acontecimentos. Ao contrário disso, a proposta é viver como quem se prepara para uma festa. Como se sabe, pela experiência da vida, a preparação para uma festa, em si, gera uma expectativa de alegria. Vigilância cristã é um tempo alegre de quem se prepara para celebrar a festa da santidade divina, celebrar esta festa com o próprio Deus.  
O 33DTC-A apresenta ainda outra característica da vigilância cristã: a atividade cotidiana do trabalho. Vigilância cristã não é inatividade, mas “viver a vida” cotidiana trabalhando pelo pão diário para si e para os outros. A imagem simbólica dessa atitude vigilante está na 1ª leitura do 33DTC-A: o elogio à mulher que trabalha e administra sua casa para o bem de todos. Um modo de dizer que a vigilância cristã é uma atitude sábia de quem teme a Deus e se dedica diligentemente ao trabalho cotidiano. 
É pelo trabalho que os talentos são multiplicados, como diz o Evangelho do 33DTC-A. Talentos não no sentido do senso comum, de ter dotes especiais, mas talento no sentido evangélico, que significa a vida. Vigilante é aquele que produz mais talentos, isto é, produz mais vida. Não nascemos para enterrar a vida, como fez o servo inútil, mas para multiplicar a vida. Quem assim vive, vive vigilante e terá a recompensa final.


Honra e glória a Cristo Rei do Universo
O último elemento das celebrações de fim do Ano Litúrgico é a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo. É o coroamento final do discipulado. Quem caminhou com Jesus e nas estradas do Evangelho, no decorrer de todo um período de tempo — o Ano Litúrgico — no final se aproxima do trono divino para adorar, glorificar e louvar. O motivo disso: o reconhecimento que Jesus é o Senhor, o nosso Deus, aquele no qual vivemos, nos movemos e somos.
Voltamos, assim, ao início da nossa reflexão: a meta da vida humana consiste em se deixar encontrar por Deus. E, quando Deus nos encontra, propõe-nos o caminho de uma vida que se traduz em adoração, em louvor e em discipulado. Quem segue este caminho ouvirá, no encontro definitivo com o Senhor, Rei do Universo, o Pastor eterno: “vinde, benditos do meu Pai, para tomar posse do lugar que vos foi preparado”.

Serginho Valle
Outubro de 2017



27 de out de 2017

Algumas dificuldades da Pastoral Litúrgica Paroquial

Anos atrás, escrevi um livro chamado “Pastoral Litúrgica, uma proposta, um caminho” (Loyola/Dehonianos - 1998) que, graças a Deus, continua sendo estudado, refletido e debatido em muitas comunidades. Foram publicadas 4 edições e, recentemente, publiquei o livro em formato ebook, que pode ser adquirido no site do SAL — Serviço de Animação Litúrgica — www.liturgia.pro.br
Quando lancei o livro, muitas pessoas ficaram surpresas com a possibilidade da organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). De fato, como escutei várias vezes, “nossa Pastoral Litúrgica resume-se a uma lista de funções, pendurada no mural da sacristia”. Relato isso em meu livro. Hoje, em tempos tecnológicos, a PLP de muitas paróquias acontece pela distribuição de serviços num grupo de wattsup. Não faz sentido condenar alguém, porque, talvez, a falta de orientação fez perder a riqueza da Pastoral Litúrgica em favor da comunidade e de cada membro da comunidade. Mesmo, assim, gostaria de considerar, a título de avaliação, algumas críticas que ouvi, no tempo que ministrava cursos nas comunidades.

Pastoral do laço
            Descrevo essa prática da “Pastoral do laço” no meu livro com mais calma. Acontece naquelas comunidades que, faltando 10 a 15 minutos para começar a Missa, algumas pessoas da “Liturgia” entram na igreja para “laçar” comentaristas e leitores e, em momentos de desespero, laçar cantores.
Diante da proposta de uma Pastoral Litúrgica organizada, que valoriza o ministério do leitorato, os defensores da “pastoral do laço” reagem e rejeitam a PLP: “não é preciso; afinal, alguma vez faltou leitor ou comentarista na Missa? Se não faltou, para que mais um trabalho e mais reuniões na comunidade?”

“Prá que mudar se a missa começa e termina”
            Outra realidade que impede a organização da PLP vem dos acomodados da “Liturgia”. Têm como lema: “Prá que mudar?”. Prá que mudar se a missa começa e sempre chega ao final? Prá que mudar se o padre sozinho faz os batizados e não incomoda ninguém? Prá que mudar se os casamentos são tão cheios de flores e teatro emocionados e emocionantes?” Depois de tais considerações, arrematam um veredicto fatal: “está bom assim; pra que mudar!”
            O conselho desse pessoal é: “olha, não vamos procurar sarna para nos coçar; vamos continuar como está, pois está bom assim”. E podem continuar 10, 20 ou mais anos neste “marca passo”, quais eternos patinadores, sem sair do lugar.

“Tenho o lugar garantido”
            Outro grupo são aqueles que tem lugar garantido, cadeira cativa para fazer o comentário, as leituras, as preces e cantar na Missa. Normalmente, chegam em cima da hora, e vão direto para o microfone para fazer comentários e leituras e animar a música, sem preparação alguma. É a “Pastoral da cadeira cativa”. “Na Missa das 10hs – dizem – a 1ª leitura é sempre minha.”
            Esse pessoal também dificulta e impede criar a Pastoral Litúrgica na comunidade e argumentam: “isso de criar equipes de celebrações para cada missa, dá muito trabalho; vai ter que fazer reunião uma vez por mês; vai ter que preparar as celebrações... Do jeito que estamos fazendo, está bom”. E, por 10, 20 ou mais anos são sempre os mesmos leitores, o mesmo comentarista, os mesmos cantores cantando as mesmas canções. É a Liturgia é celebrada na mesmice até que vire museu.

“Na hora a gente vê”
            Muitas equipes de celebrações deixam tudo para a última hora. Não se preocupam em preparar leituras, comentários ou escolher as canções. Desculpam-se dizendo: “na hora a gente vê”. Quando é proposta uma caminhada de Pastoral Litúrgica, os músicos aconselham doutoralmente: “o povo gosta do jeito que nós cantamos na igreja e, se gostam, para que mudar?”
            Conheci com um grupo assim. Começaram como grupo de jovens, casaram-se, alguns já são avós e continuam cantando as mesmas músicas do seu tempo de grupo de jovens; continuam fazendo as mesmas procissões de oferendas do tempo de grupo de jovens e continuam achando que vivem há 25 anos atrás.

O folheto tem tudo
            Os mais radicais defensores do “deixa disso” apoiam-se nos folhetos como critério litúrgico para as celebrações. Os ditos cujos interrogam: “para que preparar, se o folheto traz tudo o que precisa ser feito?” Com estes é difícil argumentar. Julgam-se no direito de serem liturgicamente corretos, enquanto “leitores de folhetos” e não admitem que o folhetos podem servir para uma melhor preparação para as celebrações.

Concluindo
            Proponho alguns exemplos de dificuldades; talvez hajam mais relevantes. São dificuldades de emperram o caminho da comunidade porque a celebração Litúrgica, na comunidade, de indivíduos e grupos que consideram a Liturgia e as celebrações como uma função finalizada em si mesmas. Toda celebração tem um alcance maior que simplesmente realizar ritos, fazer leituras e cantar canções. Têm uma finalidade evangelizadora, por exemplo, tem uma finalidade pedagógica na formação do discipulado, tem uma finalidade testemunhal, tem uma importância imprescindível na formação da espiritualidade... Para se corresponder a tais finalidades, não se pode celebrar de qualquer modo, não se pode ter sempre os mesmos leitores como se fossem os únicos testemunhas da Palavra na comunidade; não se pode cantar as mesmas canções, pois cada celebração é cantada de modo diferente e pede canções diferentes.
            Na maior parte das comunidades sem uma PLP organizada percebe-se que as celebrações, especialmente (e infelizmente) da Missa, são atividades rituais de um determinado horário da comunidade. Isso é muito triste, porque reflete a imagem de comunidades paradas, sem iniciativas, sem propostas. O conceito que a Liturgia é cume e fonte de todas as atividades da Igreja (SC10) é verdadeiro e observável em comunidades com PLP dinâmicas e criativas. Comunidades que celebram bem são ativas, vivas e, principalmente criativas não só nas celebrações, mas em todas as atividades da comunidade. A celebração é apenas o espelho da comunidade.
Serginho Valle

Outubro 2017

20 de out de 2017

Pastoral Litúrgica e evangelização

Na prática, fazer pastoral é dinamizar a comunidade com as características do Bom Pastor (Jo 10). Características tais como: amar o povo, conhecer a comunidade, mostrar o caminho seguro, ser uma porta para que as pessoas acessem o redil do Evangelho e o transformem em fonte de vida. A finalidade de toda pastoral, em última análise, consiste em assumir o mesmo projeto de Jesus Bom Pastor: “eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Por isso, a Pastoral Litúrgica não tem, como finalidade primeira e principal, criar belas e atrativas celebrações, mas ser e propor em cada e em todas as celebrações o encontro com Jesus, a fonte da vida plena. Assim, entende-se o valor evangelizador através da Liturgia na formação de uma comunidade de discípulos e discípulas do Evangelho. 
Uma primeira dedução é não transformar a Equipe Litúrgica, que coordena a Pastoral Litúrgica Paroquial em — apenas — uma equipe de criatividade celebrativa. Digo “apenas”, porque a criatividade litúrgica é importante, e torna-se ainda mais importante à medida que entende seu trabalho não para fazer o que “o povo gosta”, mas, para conduzir a comunidade, qual Bom Pastor, nos caminhos do Reino de Deus, que é o caminho do discipulado. O critério principal da pastoral, em síntese, é favorecer o crescimento do discipulado e isso acontece numa comunidade evangelizada.

Lembrando a Palavra da Igreja
Em sua carta pastoral para o início de milênio, São João Paulo II, na “Novo Millenio Ineunte”, ao traçar um plano de pastoral para a Igreja nesta nova etapa da história, pede que toda atividade pastoral olhe para Jesus Cristo, para o seu modo de agir, para o seu modo de ser, para o seu modo de tratar o povo, para que nele se inspirem todas as atividades pastorais. Diz o Papa:

“Agora, já não é uma meta imediata que se apresenta diante de nós, mas o horizonte mais vasto e empenhativo da pastoral ordinária. No respeito das coordenadas universais e irrenunciáveis, é necessário fazer com que o único programa do Evangelho continue a penetrar, como sempre aconteceu, na história de cada realidade eclesial.” (Novo millenio ineunte, n. 29).

Interessante observar que o texto do Papa fala de “o único programa do Evangelho”. Quer dizer, a fonte de toda Pastoral é o Evangelho, ilumina-se no Evangelho e tem por finalidade evangelizar, isto é, colocar o Evangelho na vida das pessoas e nos relacionamentos sociais.  
Ora, isso é extremamente significativo para a Pastoral Litúrgica. Em todas as celebrações, a Igreja celebra o Evangelho, proclama o Evangelho, orienta (homilia) como viver o Evangelho no cotidiano da vida, introduz no caminho do Evangelho (Iniciação Cristã), perdoa quem se desvia do caminho do Evangelho (Penitência) e assim por diante. Nisto se fundamenta a criatividade litúrgica: em celebrar a presença de Jesus (SC 7), que é sempre presença evangelizadora. Ou seja, a Pastoral Litúrgica não tem a preocupação de fazer bem e fazer bonito para transformar as celebrações em espetáculos, mas em vista da evangelização.

Pastoral para o nosso tempo e nossa comunidade
A primeira parte do texto de São João Paulo II, na “Novo Millenio Ineunte”  faz referência ao empenho que a Igreja é chamada a fazer neste novo milênio. O ponto central do texto consiste em mostrar que a Pastoral, nas suas mais diferentes manifestações, tem uma única finalidade: fazer com que o Evangelho, os valores evangélicos, penetre cada mais no relacionamento humano, penetre na sociedade, penetre na comunidade. Para isso se orientam os programas e estratégias pastorais. Lembrando o texto: “é necessário fazer com que o único programa do Evangelho continue a penetrar, como sempre aconteceu, na história de cada realidade eclesial.” 
O programa pastoral, portanto, tem a mesma identidade do programa do Evangelho, mas com um detalhe que necessita atenção: penetre “na história de cada realidade eclesial”. Isso significa que cada comunidade anuncie, celebre e viva o Evangelho com os valores e com a linguagem própria da comunidade. Do ponto de vista Litúrgico: anunciado e celebrado com os valores e com a linguagem da comunidade.
Esta, reconheçamos, é a tarefa mais exigente e mais árdua da Pastoral Litúrgica. Estou falando de inculturação litúrgica, um desafio que nunca deixa sossegada uma Pastoral Litúrgica autêntica e dinâmica. Neste contexto, entende-se que o plano da Pastoral Litúrgica Paroquial precisa conhecer as ovelhas (“pelo nome”, diz Jesus), isto significa que a exigência leva a conhecer as necessidades espirituais, pessoais e sociais do povo da comunidade. Quando isso acontece, então sim, se pode dizer que a comunidade celebra a vida do povo. Eis o desafio da Pastoral Litúrgica. Um belo desafio, penso eu.
Serginho Valle

Outubro de 2017

13 de out de 2017

Oração, ação e formação na Pastoral Litúrgica

O texto de Ex 17,8-13 narra a luta do povo, comandada por Josué e sustentada pela oração de Moisés. Enquanto Moisés rezava de braços estendidos, o povo vencia os amalecitas; quando Moisés parava de rezar, o povo começava a ser derrotado. A luta foi vencida pela oração e pela ação. Gosto deste texto para ilustrar o trabalho da Pastoral Litúrgica na comunidade: oração e ação.
Isso significa que a Pastoral Litúrgica não atua somente no contexto oracional e nem somente no contexto ativo. Há a necessidade de que oração e ação sejam como duas rodas que levem a comunidade a bom termo deste trabalho.  Ou, dizendo de outro modo, e de modo mais privilegiado, a necessidade que a atividade da Pastoral Litúrgica seja sustentada pela oração. Uma apoiando a outro.
Este apoio mútuo é facilmente identificado no nosso texto Bíblico. Tanto Moisés como Josué foram convocados por Deus para servir o povo, mas missões diferentes: rezar e lutar. Eis uma boa imagem dos membros da Pastoral Litúrgica: ser, ao mesmo tempo, Moisés (orantes) e Josué (ativos). São duas rodas, como de uma bicicleta, que equilibra a Pastoral e faz caminhar em frente.
A experiência demonstra que uma Equipe litúrgica que concentra sua Pastoral unicamente na oração e em celebrações, facilmente cai no comodismo e na produção de celebrações sentimentalistas, para emocionar. Do outro lado, a Equipe Litúrgica que se concentra só na atividade, cai no ativismo e, neste caso, para mostrar trabalho enche as celebrações de pendulicários, transformando-as em teatro, em procissões e apresentações de símbolos e sinais, recheadas de canções e coreografias. Em ambos os casos, o desequilíbrio é notório. Por isso, para se evitar o desequilíbrio existe um terceiro elemento.
Sabemos que a graça da oração é garantida por Deus. Mas nosso empenho, nosso agir, precisa de um fundamento para que seja frutuoso. Tal fundamento encontra-se no estudo, na formação dos membros da Pastoral Litúrgica. Rezar para vencer a luta, como fazia Moisés, mas agir com inteligência e fundamentados na Teologia e na Espiritualidade Litúrgica. Sobre a Espiritualidade Litúrgica dedicarei um estudo, oportunamente. Para o momento, vamos nos ater somente na Formação Teológica.


Formação teológica na Pastoral Litúrgica
Sobre a formação dos membros da Equipe Litúrgica, aqueles que conduzem e coordenam a Pastoral Litúrgica na comunidade, a Igreja fala da importância e da necessidade da formação. Sobre isso, vários são os documentos que orientam sobre a formação litúrgica a quem atua na Pastoral Litúrgica da comunidade. Vou ficar com o que diz o Documento da CNBB, 43, n. 195, que define a formação como ampla e profunda.

“Tenha-se presente que a grande meta dessa formação ampla e profunda é preparar agentes para a aculturação e a inculturação da Liturgia, porque homens e mulheres que vivem as duas realidades, a sócio-cultural e a celebrativa, poderão facilitar a tarefa para os responsáveis por este processo.” 

As duas palavras, “aculturação” e “inculturação”, merecem destaque. Ambas querem dizer, basicamente, o seguinte: a necessidade de levar os elementos da cultura para dentro da celebração e de levar os elementos da Liturgia (os valores do Reino de Deus, o Mistério Pascal com sua força salvadora...), para dentro da cultura, onde vive a comunidade. Na prática, isto significa o empenho para colocar a vida social e cotidiana na celebração e, de outro lado, levar o que se celebra, os valores do Reino de Deus com todas suas dimensões, para o meio da vida. 
Esta tarefa, como se deduz, não é algo simples, exige conhecimento, formação do que seja Liturgia, compreensão clara do que é celebração litúrgica, conhecimento da linguagem litúrgica, da comunicação litúrgica e, igualmente, conhecimento da comunidade. Não basta, portanto, o conhecimento teórico da Liturgia, para que seja eficaz, do ponto de vista transformador; se faz necessário o conhecimento do contexto cultural comunitário onde é celebrada a Liturgia. Este é um grande trabalho e um trabalho multidisciplinar. Estudar a Liturgia e iluminá-la com as luzes de outras ciências.
Pela carência do conhecimento Litúrgico, por parte da Equipe Litúrgica, leva a correr o risco de transformar a Liturgia em cerimônias e as celebrações em shows ou teatrinhos. É a preocupação de “fazer bonito”, esquecendo que o mais importante é promover o encontro com Deus, com seu projeto divino e com o irmão. Só mesmo o estudo e a formação séria coloca a Equipe Litúrgica num caminho seguro e frutuoso.

Conclusão
Considerando tudo isso — mas tudo isso é apenas uma anotação em vista do que a Igreja propõe em termos de formação litúrgica a quem atua na Pastoral Litúrgica —volto ao que dizia em outra oportunidade: boa vontade ajuda, mas não favorece um empenho satisfatório e frutuoso em termos de Pastoral Litúrgica. Deduz-se, portanto, que é imprescindível que os membros da Pastoral Litúrgica, de modo especial a Equipe Litúrgica da comunidade, esteja “imbuída do espírito litúrgico”; conheça, de fato e com profundidade, o terreno onde é chamada a cultivar as sementes do Reino. Numa palavra: ESTUDAR, REZAR E AGIR.
Serginho Valle
Outubro de 2017


Postagens mais antigas → Página inicial