2 de dez de 2016

Ministério da ornamentação

Na Pastoral Litúrgica, o ministério da ornamentação é formado por pessoas que se ocupam com a ornamentação da igreja para as celebrações. O ministro da ornamentação distingue -se do enfeitador de igrejas, como aqueles que enfeitam a igreja para casamentos, enchendo a igreja de flores, folhagens, panos e espelhos... por motivos financeiros. O ministro da ornamentação é alguém preparado liturgicamente para prestar um serviço gratuito e generoso à celebração e, consequentemente, aos celebrantes, naquilo que favorece o bom desenvolvimento e facilita a comunicação na celebração litúrgica. Por isso, a necessidade de conhecer o processo comunicativo da celebração litúrgica, sua teologia e a especificidade de cada celebração. 
O ministério da ornamentação não se limita somente à ornamentação do espaço celebrativo da Missa, se bem que será sobre isso que iremos tratar neste e em outros textos sobre este tema. A atividade do ministério da ornamentação diz respeito a todos os sacramentos, inclusive às celebrações matrimoniais. Estas deveriam ficar a encargo de quem faz parte da Pastoral Litúrgica da comunidade e não de floriculturistas que, em sua grande parte, demonstram conhecer pouco ou quase nada da Teologia celebrativa matrimonial e nem de Liturgia. Disto são provas algumas ornamentações que em nada contribuem para uma celebração liturgicamente cristã.
Mas, sobre isso falaremos em outra oportunidade nosso assunto, agora, é a ornamentação para celebração Eucarística e, mais especificamente, o ministério da ornamentação em uma comunidade paroquial.

Ornamentação celebrativa  
Quando alguém se dispõe a trabalhar com a ornamentação, na Liturgia, precisa ter em mente que seu trabalho, como dito acima, não tem a finalidade de enfeitar a igreja, mas de favorecer a participação dos celebrantes na celebração. Isso significa que a pessoa se coloca a serviço da celebração e dos celebrantes. De onde a necessidade de ter presente que seu trabalho não tem, em primeiro lugar, finalidade estética — embora esta seja essencial — mas sim celebrativa. Podemos falar de estética a serviço da celebração. Quando falo que a principal finalidade encontra-se na celebração, entendo que o resultado final, esteticamente bonito, é um trabalho feito para favorecer a participação visual da celebração, no contexto espacial celebrativo. O ministério da ornamentação age no campo da comunicação visual e espacial. Dois temas que também trataremos mais adiante.

Conhecer o espaço celebrativo 
Elemento importante que diz respeito ao ministério da ornamentação é o conhecimento do espaço celebrativo e sua função no processo litúrgico da celebração. Isso tem a ver também com o "mobiliário" da celebração, especialmente os locais onde a celebração acontece: altar, ambão, cadeira presidencial, espaço reservado aos ministros... Todos esses espaços já estão contemplados aqui no meu blogger e podem ser facilmente consultados.
O conhecimento do espaço celebrativo se faz necessário para não correr o risco do arranjo ou de um símbolo ser colocado em locais indevidos. O mesmo vale para o tamanho e o volume, do arranjo ou do símbolo, para não esconder o local onde a celebração acontece e, pior que isso, esconder o ministro que preside ou que participa de algum rito. 
Tais considerações ajudam a compreender que o arranjo é índice, quer dizer, indicativo para valorização de um espaço; para dar destaque ao espaço celebrativo. O arranjo não é mais importante que o altar, mas ali está para valorizar o altar e mostrar sua importância. Não é mais importante que o ambão, mas favorece a valorização do ambão e da Palavra ali proclamada. Qualquer ornamentação que invada ou prejudique o espaço celebrativo está mal feita, mesmo sendo, esteticamente falando, uma obra de arte. 

Não só arranjos florais 
Para concluir, um lembrete. O ministério da ornamentação não se ocupa somente com arranjos florais, como já dei a entender em alguns tópicos no decorrer do meu texto. Ocupa-se também da criação de símbolos e sinais que, eventualmente, são usados na celebração. Sobre este assunto, a criação da simbologia celebrativa também trataremos neste espaço oportunamente.
Serginho Valle 
2016 



30 de nov de 2016

Oração dos fiéis

A oração dos fiéis é um rito orante que conclui a Liturgia da Palavra. Como em todo rito, no contexto celebrativo da Liturgia da Palavra, a Oração dos fiéis é presidida e pelo padre e proclamada por um ou vários intercessores. Repetindo, sendo processo normal da Liturgia da Palavra, a oração dos fiéis é prece, composta de várias intenções (pedidos) proclamada diante de Deus e diante da comunidade. Não é, portanto, recitada em conjunto.
O padre exerce seu ministério presidencial na Oração dos fiéis pela monição inicial, formulada em forma de convite. E, depois da proclamação das preces, ele a conclui com uma oração que, dada as circunstâncias, deveria ter a estrutura das orações coletas: invocação ao Pai ou ao Filho, memorial breve, súplica e conclusão doxológica simples. O diácono, quando presente, exerce seu ministério anunciando as intenções de cada prece que será proclamada. Mais uma vez, é importante entender que a Oração dos fiéis, por ser proclamativa não é recitada por toda a assembleia, mesmo que esta seja dividida em dois coros. É um dado importante, pois se corre o risco de transformar a Missa em recitação de formulas, com muita falação e pouco espaço para a oração, até mesmo quando o momento é orante. 
As intenções são proclamadas por um ou vários ministros intercessores, dependendo das circunstâncias contextuais de cada celebração. Ou ainda, dependendo da estrutura da prece. Isto acontece, por exemplo, em súplicas que se inspiram numa frase bíblica ou quando se anuncia a intenção antes da prece.  

Estrutura da oração dos fiéis 
A oração dos fiéis compõe-se de uma monição em forma de convite, feita pelo padre. Seguem-se as intenções, que normalmente são em número de cinco. Depois, a oração é concluída com a oração do padre, em forma de estrutura de coleta, como dito acima. 
Como toda monição, esta da oração dos fiéis, é feita de modo breve, inspirando-se na Palavra proclamada ou mesmo em algum pensamento da homilia que merece destaque especial em função de motivar o convite para a oração dos fiéis. 
As intenções também são breves e podem ser formuladas em forma de súplicas simples, como por exemplo: “rezemos pela Igreja e pelos nossos pastores”. Pode também ser formulada em forma de prece: “concedei, Senhor, paz a toda a Igreja e sabedoria aos nossos pastores”. Outra possibilidade é inspirar a intenção numa frase bíblica de cada uma das leituras ou, inspirar a prece numa necessidade particular, como por exemplo: “rezemos pelas pessoas que sofrem o drama da enchente”. 
A oração conclusiva é presidencial. Pessoalmente não considero litúrgico concluir o rito da oração dos fiéis com “orações temáticas”, como por exemplo, da Campanha da Fraternidade ou uma oração vocacional por ser o Domingo dedicado às vocações. Da mesma forma, uma vez que as preces são dirigidas ao Pai ou a Jesus Cristo, não tem sentido concluí-las com uma Ave Maria ou com alguma oração devocional dirigida a algum santo ou santa.  
A participação da assembléia acontece com um refrão, que tem o formato intercessor responsorial. Este pode ser recitado ou cantado. Existe ainda a possibilidade de um refrão diferente para cada prece. Mas, para este segundo modo se realizar é necessário que todos tenham acesso ao refrão.

Processo comunicativo 
O processo comunicativo no rito da oração dos fiéis é bem simples e já foi explanado no decorrer deste comentário. O convite é feito pelo padre, da cadeira presidencial, e as preces são proclamadas pelo intercessor ou intercessores do ambão
São proclamadas do ambão, e não de uma estante qualquer e nem mesmo do meio da assembléia, com pessoas “gritando” as preces para serem ouvidas. São proclamadas do ambão porque fazem parte da Liturgia da Palavra; além disso porque é a Palavra de cada Missa que motiva as intenções, no contexto existencial onde acontece a celebração. Em certo sentido, as preces dos fiéis é uma forma de resposta à Palavra de Deus, da parte de quem intercede a ajuda divina para poder corresponder com a vida à Palavra proclamada. Por isso, as preces podem estar sintonizadas com cada uma das leituras e com o salmo responsorial, mais uma ou duas preces pelas necessidades da comunidade. 
Ainda dentro do processo comunicativo, a título de lembrança, as preces podem ser cantadas. Hoje, existem várias melodias para esta finalidade. Trata-se de um modelo comunicativo que pode ser adotado em celebrações solenes e festivas da comunidade.  
Serginho Valle 
2016 


25 de nov de 2016

Credo

"Credo in unum Deum"... canta solenemente a Profissão de Fé em Latim, depois do silêncio pós-homilia. Este silêncio que muito pouco se observa em nossas celebrações, diga-se de passagem, considerando que muitos padres concluem sua homilia convidando os celebrantes a recitarem a Profissão de Fé. Não existe uma orientação quanto ao procedimento do rito que conclui a homilia, mas se pode deduzir um movimento ritual razoável a partir do ponto de vista comunicativo. Este movimento ritual, ao meu ver, poderia ser exercido da seguinte forma: silêncio pós-homilia, breve monição para contextualizar a proclamação da Profissão de Fé (Creio) e proclamação da Profissão de Fé, recitada ou cantada.
            Minha proposta ritual contempla, portanto, uma monição motivacional diferente para cada Missa. Monição que se apoia na Palavra e na atualização da mesma, realizada na homilia. Assim, se o contexto da Liturgia da Palavra for sobre a misericórdia divina, a monição do Credo, o motivo pelo qual professamos a fé naquela celebração, iluminar-se-á no compromisso para se viver a fé de modo misericordioso. Isto evita o risco de deixar o Credo meio solto no meio da Liturgia da Palavra.
Gostaria de lembrar que minha proposta não é nova e nem invenção pessoal. Na História da Missa, o Credo era recitado logo após o Evangelho justamente para mostrar a adesão através da fé proclamada no Evangelho. Isso significa que o celebrante crê no Evangelho, isto é, assume como verdadeiro e faz adesão de fé à Palavra proclamada, com os artigos da fé propostos pela Igreja. Além disso, nas Missas Pontificais (presididas pelo Pontífice), especialmente nas viagens apostólicas, o bispo local motiva a Profissão de Fé a partir do Evangelho.

Anotações da História

O Credo (creio) foi introduzido nas Missas dominicais no ano de 810, por Carlo Magno, Rei da França, determinando que o mesmo fosse cantado solenemente depois do Evangelho. Uma determinação que vigorava mais nas celebrações da Liturgia Galicana, celebrada na França. Somente no século XI, o Imperador Henrique III convenceu o Papa Bento VIII a introduzir definitivamente o Credo na Liturgia Romana depois do Evangelho Mesmo cedendo ao pedido de Henrique III, Papa Bento VIII fez questão de ressaltar que “a Liturgia Romana não recitava o Credo por não ter sido contaminada pela heresia”. Mas, o Papa cede em vista da instrução dos fiéis em recordar semanalmente os princípios da fé cristã até decorá-los.
Muitos autores comentam, com base na resposta de Bento VIII, que uma das finalidades da introdução do Credo na Missa é nitidamente catequética. De fato, o Credo não é uma fórmula oracional, em senso estrito, mas um elenco dos pontos mais importantes da fé proclamada pela Igreja Católica. Acrescento que sua proclamação seja catequética também pela finalidade pedagógica de fazer com que os artigos de fé da Igreja sejam memorizados a ponto de tanto repetir todos os católicos os conheçam de memória.

Compromisso com a fé
Outra função do Credo é a renovação da fé, professada no Batismo, a qual compromete os batizados a viverem no discipulado de Jesus Cristo. Renovar no sentido de “tornar novo”. A renovação do conhecimento dos dogmas da fé, neste sentido, tem caráter de atualização do compromisso Batismal em cada celebração Eucarística. Cada Missa, portanto, renova os compromissos batismais, motivo pelo qual reitero a importância da monição (que é sempre breve) para sintonizar o compromisso batismal com o Evangelho proclamado naquela Missa.

Rito do Credo
A Liturgia Eucarística propõe dois modos de realizar este rito: recitado ou cantado. Existe uma terceira forma, usada em algumas Missas, cujo contexto podem ser descritos como especiais, como celebrado nas Missas Rituais, seja do Batismo, da Crisma, do Matrimônio, da Unção dos Enfermos. O mesmo pode acontecer nas Missas de 1ª Comunhão. Neste caso, a terceira fórmula de realizar o rito do Credo é dialogado, feito de perguntas pelo padre e a afirmação em forma de "creio" confirmada pelos celebrantes.
Não é permitida pela legislação litúrgica o uso de formas abreviadas do Credo, contendo somente três ou quatro artigos de fé. Muito menos são permitidas formas estranhas à formula canônica do Credo dos Apóstolos ou aquele Nicenoconstantinopolitano.
Serginho Valle
2016  


Diálogo horizontal na comunicação litúrgica

“Sendo a celebração da Missa, por sua natureza, de índole “comunitária”, assumem grande importância os diálogos entre o sacerdote e os fiéis reunidos, bem como as aclamações, pois não constituem apenas sinais externos da celebração comum, mas promovem e realizam a comunhão entre o sacerdote e o povo” (IGMR 34)

O presente texto da IGMR 34 encontra-se no capitulo II,o qual chama atenção para os diferentes elementos da Missa. No presente artigo, trata-se de um elemento de caráter comunicativo, pelo qual acontece uma participação ativa e efetiva no processo da comunicação Litúrgica.

Do ponto de vista comunicativo, estamos com um modelo de comunicação horizontal, pelo qual, o Presidente da celebração é motivado a dialogar com os celebrantes em vista da promoção de uma comunhão “entre o sacerdote e o povo”. Uma evidência clara que a Igreja não entende a celebração (em todos os Sacramentos) como monólogo, mas como diálogo. Não somente este diálogo horizontal, que é contemplado neste IGMR 34, como também o diálogo vertical, aquele que se realiza entre Deus e os celebrantes. Quanto a isso, a SC 33 faz referência ao diálogo que acontece na Liturgia da Palavra entre Deus que anuncia sua Palavra e os celebrantes que respondem com o acolhimento silencioso e com aclamações, como é o caso do salmo responsorial, a aclamação ao Evangelho e as preces dos fiéis.

O diálogo horizontal, com o qual nos ocupamos neste breve texto, também contém elementos do diálogo vertical, como por exemplo, na estrutura comunicativa prefacial, que abre a Oração Eucarística e se conclui com o convite para se dar graças ao Senhor e nosso Deus, tendo no solene canto do “Sanctus” o seu momento alto, mas em estrutura de comunicação vertical, quer dizer, dos celebrantes para com Deus.

Um diálogo que acontece em forma de oração suplicante é aquele do rito penitencial, com uma interação daquele que preside e apresenta as orações ao Pai, em nome da assembléia, e dos celebrantes que como que endossam a súplica do perdão.

Muitos outros aspectos desse elemento da comunicação litúrgica de diálogo horizontal poderiam ser considerados, mas não é o caso, uma vez que o presente texto trata apenas de uma breve consideração sobre a IGMR 34. Por isso, concluo lembrando que a celebração da Missa é basicamente fundamentada no processo comunicativo dialógico. Até mesmo na Oração Eucarística, quando o padre proclama a anáfora sozinho, ele está em diálogo com Deus, apoiado pelo silêncio ORANTE da assembléia, que confirma o louvor da Igreja, com o mais solene de todos os “améns” da Missa, no final do “por Cristo, com Cristo e em Cristo”.

Descuidar-se do processo comunicativo dialógico na celebração litúrgica pode-se correr o risco de impedir a participação e prejudicar o caráter comunitário da celebração, como destacado na IGMR 34.

Serginho Valle

18 de nov de 2016

IGMR 295 – o tamanho do presbitério

O presbitério é o lugar, onde se encontra localizado o altar, é proclamada a Palavra de Deus, e o sacerdote, o diácono e os demais ministros exercem o seu ministério. Convém que se distinga do todo da igreja por alguma elevação, ou por especial estrutura e ornato. Seja bastante amplo para que a celebração da Eucaristia se desenrole comodamente e possa ser vista por todos.

Do ponto de vista da comunicação litúrgica, o olhar com o qual estamos lendo alguns parágrafos da Instrução Geral do Missal Romano, este IGMR 295 é a descrição de onde parte o diálogo comunicativo da celebração litúrgica. Embora a comunicação litúrgica seja dialógica, o ponto emissor (podemos falar assim) encontra-se no presbitério, de se comunica a Palavra de Deus (ambão), onde se prepara, oferece, consagra e se partilha o Sacrifício Eucarístico, de onde os ministros exercem seu serviço a Deus e aos celebrantes.
Inicialmente, a IGMR 295 trata da estrutura do espaço e conclui orientando para que seja espaçoso, condição indispensável para a celebração desenvolver-se de modo satisfatório. De fato, espaços apertados, restringem, quando não impedem o processo comunicativo da celebração. Não se pode dizer que existe uma procissão, mesmo em caráter ritual, dando dois passos porque o ambão e o altar estão quase grudados. Por isso, vale a pena considerar esta IGMR 295 não apenas como conclusiva da primeira parte dos parágrafos que trataram do espaço celebrativo, mas como diretiva quanto ao espaço adequado para comunicar-se liturgicamente no espaço celebrativo do presbitério. 
Esta amplidão do presbitério é  útil quando se pensa na introdução de sinais e símbolos em momentos de celebrações especiais, como na festa do padroeira, por exemplo. Quando se pensa na realização de ritos que exigem movimentos ou alguma coreografia e, até mesmo, quando da necessidade de se criar espaços simbólicos maiores, como é o caso de um presépio, no Tempo de Natal por exemplo. 
O presbitério, portanto, não é um local para encher com folhagens e flores como se fosse um quintal. Quanto a isso, oriento-me com uma indicação do saudoso Cláudio Pastro. Dizia ele que o espaço do presbitério é bonito por si mesmo, sem a necessidade de colocar folhagens, flores e imagens para enfeita-lo.

Serginho Valle
2016


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