22 de set de 2017

A prioridade da Pastoral Litúrgica na Paróquia

A Instrução Geral do Missal Romano, n. 313, pede que as celebrações não sejam improvisadas. Uma espécie de aviso para compreender que, na Liturgia, nada deve ser feito de improviso e, ainda mais, que a improvisação jamais deveria ter lugar em nossas comunidades. Improvisação indica desleixo, relaxamento. Se considerarmos que as celebrações são o espelho da comunidade, entende-se que celebrações improvisadas indicam comunidades desleixadas. Para evitar esse mal-estar, existe a necessidade de organização, espiritualidade e formação.

Em minhas andanças pelo Brasil, no tempo que ministrava cursos de Liturgia, encontrei padres, diáconos e leigos que colocavam resistência para implantar a Pastoral Litúrgica organizada na Paróquia. A realidade, infelizmente, era esta: existiam pessoas que não queriam, e faziam de tudo para impedir a organização da Pastoral Litúrgica na comunidade paroquial. Confesso que não consigo fazer uma avaliação profunda da realidade atual, mas espero que isso tenha mudado.

Eu publiquei pela Loyola, anos atrás, um livro chamado “Pastoral Litúrgica, uma proposta um caminho”. A editora tirou o livro de circulação e eu o republiquei em formato de ebook, que pode ser encontrado no meu site – www.liturgia.pro.br -. Outros autores também trabalharam este tema da organização da Pastoral Litúrgica Paroquial (PLP). A CNBB, inclusive lançou uma espécie de manual — “Guia Litúrgico-Pastoral” — no ano de 2006, com indicações claras da organização da PLP. Quer dizer, material existe.

A organização da Pastoral Litúrgica Paroquial não é um capricho próprio ou uma moda passageira na Igreja. A organização da Pastoral Litúrgica obedece a uma hierarquia organizacional que tem como cabeça o Vaticano, passa pelas Conferências Episcopais de cada país, passa pelas Igrejas particulares até chegar nas comunidades paroquiais. Este esquema está bem descrito na Sacrosanctum Concilium (Cf. SC 43-46). Por isso, não ter a Pastoral Litúrgica organizada é sinal de comunidade marcando passo há bom tempo.   

Em se tratando de PLP, sempre gosto de lembrar que quem trabalha com a Pastoral Litúrgica e, de modo particular, quem fará parte da Equipe Litúrgica, não terá muito tempo para atuar em outras pastorais, pois os trabalhos serão muitos: reuniões, formação, planejamento, celebrações especiais.... Quem entra na PLP deve estar preparado e consciente que terá muito trabalho pela frente.
Os aspectos que ressaltei neste primeiro momento têm o objetivo de mostrar, em linhas gerais, o contexto pastoral em que se está entrando. Considerar que se trata de uma Pastoral que se caracteriza como prioritária na Paróquia e que não se resume em listas de atividades — quem fará leituras, por exemplo — colada na parede da sacristia, como infelizmente ainda se vê em algumas paróquias. É preciso ter consciência que boa vontade é ótima e até necessária, mas não resolve os problemas. Para que a Pastoral Litúrgica Paroquial seja eficaz e proativa, há necessidade de pessoas que se disponham a fazer um caminho de formação, de estudos e de espiritualidade para não trocar os pés pelas mãos na condução das atividades da Liturgia Paroquial. Pessoas que sejam capazes de realizar um planejamento, por exemplo, para alcançar objetivos específicos da PLP de cada comunidade. Pessoas, principalmente, que amam a Liturgia e a entendem como culto de louvor e adoração a Deus e como caminho evangelizador da comunidade.
Serginho Valle
Setembro de 2017



15 de set de 2017

Ritos finais da Missa

Os ritos finais da Missa, como em todos os Sacramentos, são marcados pela brevidade. No caso da Missa, consta praticamente de um rito invocativo de bênção. Acrescente-se ainda um momento para as comunicações comunitárias e o envio.
Embora seja costume cantar um "canto final", como se diz, não se contempla nenhuma canção nas orientações da Instrução Geral do Missal Romano (IGMR). Depois do envio, os celebrantes são convidados a se retirarem da igreja. Direi uma palavra sobre o canto final, na conclusão deste artigo. 

Avisos paroquiais
            Os avisos paroquiais estão previstos na IGMR 166. O texto não fala de “avisos paroquiais”, como dizemos, mas “breves comunicações”. São comunicados breves, portanto, daquilo que deverá acontecer na comunidade.
            Comunicações breves e compreensíveis. Isto significa considerar o tema da comunicação, a data da realização, o horário e o local, quando isto for necessário. Outras comunicações, como aqueles de organização comunitária, obedece o mesmo critério de objetividade.
            Quanto ao momento das comunicações, este deve acontecer após a oração depois da comunhão. Isto significa que é a oração depois da comunhão que conclui o Rito da Comunhão e não os “avisos paroquiais”. O ideal, como já fazem algumas comunidades, que os “avisos paroquiais” sejam comunicados depois da bênção final.

Compromisso concreto 
Não consta nas IGMR nenhuma indicação de compromisso concreto. Quem acompanha minhas propostas celebrativas pelo site do Serviço de Animação Litúrgica – SAL (www.liturgia.pro.br)  – está acostumado com uma orientação de "compromisso concreto" depois da oração pós-comunhão.
Na prática, o compromisso concreto da celebração é proposto na homilia e pela homilia. Nada obsta, contudo, que depois da comunhão, depois de se comprometer com a proposta comungada na Mesa da Palavra, seja confirmado ou reproposto o compromisso que se assume concretamente em cada celebração. Um fundamento evangélico para tal finalidade encontra-se na conclusão da parábola do Bom Samaritano, quando o doutor da Lei responde quem foi o próximo do homem caído por terra; Jesus conclui dizendo: “vai e faça você o mesmo” (Lc 10,37). Este é o sentido que deveria ser dado, inclusive, a todo envio conclusivo da Missa: “vai e viva aquilo que você ouviu e comungou na celebração”. É o compromisso concreto presente em cada celebração para melhor viver o discipulado no cotidiano.
Em algumas celebrações, o compromisso concreto tem caráter pessoal, em outras tem caráter comunitário e, em algumas tem até mesmo caráter pastoral. Se uma Palavra, por exemplo, proclamar o cuidado para com doentes, o compromisso concreto poderá propor um incentivo à Pastoral da Saúde. 

Rito de bênção 
O rito de bênção é proposto pelo Missal em três modalidades: simples, oração sobre o povo e solene. 
A bênção simples é feita com a saudação do "Senhor esteja convosco", seguida da fórmula "abençoe-vos", com o padre traçando o Sinal da Cruz sobre a assembléia, e cada celebrante traça o Sinal da Cruz sobre seu corpo.
A bênção com a “oração sobre o povo” segue a mesma dinâmica, mas conta com a inclusão de uma invocação orante em favor dos celebrantes ou em favor da comunidade ou, ainda em favor da Igreja. Há uma riqueza de intenções muito grande nas “orações sobre o povo” que merecem ser exploradas pelos padres e pelas equipes de celebrações.
A bênção solene, além da invocação de  "o Senhor esteja convosco", é formulada com três invocações, das quais os celebrantes participam com um amém depois de cada intercessão. Segue-se depois o Sinal da Cruz traçado sobre os celebrantes.  Também neste caso, existe uma grande riqueza de intenções, como referido para as “orações sobre o povo”.
Pessoalmente, considero as fórmulas propostas pelo Missal muito ricas em conteúdo. Como nem sempre correspondem ao contexto celebrativo de cada Domingo, as mesmas podem ser criadas, inspirando-se na Palavra proclamada em cada celebração. Assim, se a Palavra leva a contextualizar a celebração comprometendo os celebrantes com o projeto do Reino, a invocação de bênção será realizada neste temário.  É preciso, contudo, manter-se fiel ao estilo próprio do Missal Romano para o rito de bênção e não fazer de cada invocação um pequeno discurso ou incluir invocações devocionais ou sentimentais.

Envio e conclusão
A conclusão da Missa acontece com uma fórmula de envio, feita pelo diácono, quando este estiver presente. Na ausência do diácono é o padre quem faz o envio com uma fórmula do Missal ou criada por ele próprio.
O envio poderá ser feito de modo simples, com a tradicional fórmula do "ite Missa est", traduzido para o português com "ide em paz, a Missa terminou".  O Missal propõe outras fórmulas de envio que merecem ser consideradas. Além destas fórmulas, como apenas dito, seria interessante que o padre ou o diácono crie uma fórmula de envio a partir do contexto celebrado, iluminando-se na Palavra da celebração. Vale o lembrete que, como dito para as fórmulas de bênção, não seja um breve discurso, mas uma frase no estilo litúrgico próprio do Missal.

Canto final
            Como adiantado acima, a IGMR não propõe um canto para acompanhar o final da Missa. A orientação para a conclusão da celebração propõe a bênção e o envio (IMGR 168-170). Conclui dizendo que após a bênção, o padre beija o altar e todos se retiram.
É equivocado, portanto, do ponto de vista litúrgico, aquele costume de alguns padres convidarem a cantar o canto final antes da bênção. Equivocado, primeiro, porque não existe “canto final” e, depois, porque a IGMR orienta a deixar a igreja sem cantar após o envio.  
Mas, o canto pode existir sim, como canto de acompanhamento da dissolvência da assembléia. Neste caso, trata-se de um canto relacionado à Palavra da celebração ou, até mesmo, que reforce o compromisso concreto, proposto na homilia, por exemplo. Em algumas celebrações, como aquelas de memória ou de festa, canta-se uma canção relativa à memória ou festa litúrgica.

Nossa Senhora, santos e santas
            Muitas comunidades introduziram a oração da Ave Maria ou uma antífona mariana, como a “Salve Regina” (Salve Rainha) ou outra antífona conhecida. Isso ganhou mais peso com o dado devocional de Papa Francisco após a Missa, de rezar aos pés da imagem de Nossa Senhora.  
            Nada contra esta prática, desde que se considere que a mesma aconteça depois da bênção final. A questão é teológica-litúrgica. Na celebração litúrgica a Igreja dirige suas preces, louvores e adoração unicamente ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. Não dirige a Nossa Senhora e nem aos santos e santas. Por isso, seja observado este princípio (inclusive na Oração dos fiéis) e preste-se homenagem a Nossa Senhora (ou a algum santo ou santa) depois da bênção final.


Conclusão
            Esta conclusão diz respeito a todos os artigos de cada uma das partes da Missa a partir do processo comunicativo litúrgico-celebrativo publicados aqui no blogger. Isso significa que meu ponto de vista tem a proposta de ajudar a comunicar-se de modo litúrgico e celebrativo. Reconheço que o tema não é muito aprofundado, como proposto aqui no blogger, uma vez que optei por textos simples e breves, como é próprio da linguagem do blogger. Mas, que isso sirva de motivação para aprofundamentos em estudos e debates promovidos pela Pastoral Litúrgica de cada comunidade.
Serginho Valle
Setembro de 2017


8 de set de 2017

Oração depois da comunhão

Os ritos da comunhão Eucarística são concluídos com a oração depois da comunhão —collecta post-communionem —. É próprio da Liturgia, que uma coleta conclua um rito. 
O rito conclusivo da Comunhão é muito simples: depois do silêncio ou de uma canção pós-comunhão, o padre coloca-se de pé e convida a assembléia para rezar em silêncio com o tradicional convite: “oremos”. Faz um breve momento de silêncio e proclama a oração depois da comunhão. 
Com uma estrutura que respeita o esquema da “Oração Coleta” própria da Liturgia, o conteúdo desta oração faz referência direta ao Sacramento da Eucaristia comungado pelos celebrantes. São coletas, portanto, marcadas pela Teologia da Eucaristia e pelos efeitos da Eucaristia na vida pessoal de cada celebrante como também na vida de toda comunidade. 
Outra característica diz respeito ao fato de serem orações suplicantes. Regra geral, as coletas invocam o Pai, algumas fazem memória breve de algum aspecto da Eucaristia (mas nem sempre isso se verifica nas coletas depois da comunhão) e são concluídas com uma súplica para que a Eucaristia produza efeito divino na vida do comungante ou da comunidade, repetindo. O conteúdo da súplica, em síntese, intercede a graça de transformar em vida aquilo que foi celebrado e comungado na Eucaristia.  
Exemplo de uma coleta pós-comunhão: 30º Domingo do Tempo Comum:

Ó Deus, que os vossos sacramentos produzam em nós o que significam, a fim de que um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos. PCNS.

Como elucidado, a coleta proposta como exemplo é dirigida a Deus e, sem fazer memória de algum atributo divino, intercede o efeito do Sacramento da Eucaristia na vida e a garantia de participar um dia da eternidade.

Do ponto de vista comunicativo, só para lembrar, em se tratando de Oração Coleta, esta é presidencial, o que significa que a participação da assembléia é silenciosa, até sua conclusão, quando participa com o amém. É o padre que preside a Eucaristia quem dirige a oração a Deus em nome dos celebrantes. 
Outra anotação, a coleta depois da comunhão não é proclamada do altar, mas da cadeira presidencial.

Temas relevantes 
No meu trabalho de propor propostas celebrativas pelo Serviço de Animação Litúrgica (SAL — www.liturgia.pro.br ), durante praticamente um ano, analisei brevemente as Orações Coletas das Missas Dominicais, de solenidades e festas. Destas, apoiado em pesquisas de especialistas no assunto, destaco alguns temas das “post-communionem”.

- Eucaristia é alimento que fortalece, recria, cura e salva.
- Eucaristia é penhor da Aliança eterna que conduz ao encontro definitivo de Deus.
- Os benefícios de participar da Eucaristia, indicados na coleta depois da Comunhão contemplam viver de modo que agrade a Deus, aprender a desejar os bens eternos, tornar-se participantes da Salvação alcançada por Cristo, presente na Eucaristia,
- A Eucaristia fortalece na luta contra o mal, força para permanecer em Deus.
- Em algumas orações aparece também o tema do serviço, o tema da unidade e da paz promovido pela Comunhão Eucarística.
- Um tema muito forte é a da unidade e a intimidade a Jesus  Cristo.
- Algumas coletas contemplam também o tema de inserção no mundo para transformá-lo a partir do Evangelho.

Serginho Valle

Agosto de 2017

31 de ago de 2017

Liturgia e projeto divino

O Reino de Deus, que tanto ouvimos falar no Evangelho, é o projeto divino para a terra e para toda humanidade. Na expressão “Reino de Deus” encontra-se a realização do Mistério Pascal de Jesus Cristo, é lógico, mas algumas particularidades que se fazem presentes nas celebrações do mês de setembro de 2017, do 22º Domingo do Tempo Comum – A ao 25º Domingo do Tempo Comum – A. Quatro celebrações com quatro elementos importantes interagentes, para que o Reino de Deus, para que o projeto divino seja cultivado na terra.

Discípulos para realizar o projeto divino
Inicialmente, não se pode esquecer que o projeto é divino, é de Deus, mas acontece na terra. E, pelo fato de acontecer na terra, de acontecer no meio do mundo, este conta com a nossa colaboração. Para que esta colaboração seja eficaz e promotora de resultados, a primeira coisa a se considerar é a qualidade de quem atua neste projeto. Tal qualidade é formatada no caminho do discipulado, proposto no 22DTC-A.
A Liturgia tem uma função importantíssima: todos os Domingos, cada celebração propõe o caminho do discipulado e indica como cultivar o projeto do Reino de Deus. Nossa ajuda, nossa colaboração no cultivo do Reino depende da condição de ser discípulos e discípulas do Evangelho. É por meio do discipulado do Evangelho que, a exemplo de Jesus, fazemos a vontade do Pai em tudo e, assim, o projeto divino cresce entre nós.
A primazia e a prioridade do projeto divino para a terra e, especialmente, para a humanidade tem seu enfoque central na Liturgia do 22DTC-A. Nada está acima do projeto divino e tudo que realizamos como discípulos e discípulas tem em vista o crescimento do Reino de Deus, realizando a vontade de Deus. O seguimento de Jesus comporta também a aceitação da vontade divina, mesmo que esta apresente dificuldade de compreender o sucesso existencial. Quem se coloca contra o projeto divino é considerado Satanás, diz Jesus. Satanás é quem faz oposição ao projeto divino. Disto, a necessidade de ser tão somente discípulo e discípula, seguidores de Jesus, realizadores do projeto de Deus onde se vive.

Não dever nada a ninguém, a não ser o amor fraterno!
O discipulado promove uma atitude fundamental no cultivo e na construção do projeto divino do Reino de Deus: a fraternidade. O 23DTC-A trata a fraternidade pelo viés da “correção fraterna”.

À primeira vista, a correção fraterna é um tema difícil, mas compreensível se iluminado pela luz da fraternidade evangélica, considerando que o pecado destrói a vida de quem o pratica. A destruição de uma vida, no contexto do projeto divino, pode ser avaliada como uma falência do próprio projeto, uma vez que o Reino de Deus tem em vista a vida plena a ser vivida em cada homem e mulher. Por isso, se alguém se desvia do caminho que conduz ao discipulado e toma o caminho do pecado, este precisa ser reconduzido ao caminho do Evangelho para que o projeto divino não conheça uma falência. Eis o motivo da correção fraterna.

Entende-se que Jesus não pede que sejamos juízes de nossos irmãos e irmãs, acusadores de seus pecados e erros. Pede que sejamos fraternos. A correção fraterna, proposta no 23DTC-A, não tem a finalidade de punir, mas de reconciliar quem pecou para que volte à comunidade para poder atuar na construção do Reino de Deus vivendo a vida de modo pleno, no caminho da graça.

Junto a este tema da “correctio fraterna”, de modo íntimo e profundo, encontra-se o tema do perdão, celebrado na Palavra do 24DTC-A. “Quantas vezes perdoar quem nos ofendeu?”, interroga Pedro. Sem o perdão não existe correção fraterna, sem o perdão não existe fraternidade e sem fraternidade, o projeto divino não tem resultado e nem incidência na vida pessoal e social. À pergunta quantificada feita por Pedro, colocando o perdão numa escala de zero a sete, a resposta de Jesus é dada de modo qualificado a partir da bondade e do amor divinos. Jesus ensina que o modo de tratar quem nos ofendeu não se encontra no tamanho da ofensa, mas no tamanho da misericórdia divina. E, em se tratando de misericórdia divina, sabemos que esta é ilimitada. Assim deve ser o procedimento com quem nos ofendeu: oferecendo o perdão sem limites. Assim procede o discípulo e discípula do Evangelho.


O Reino de Deus e a vinha do mundo
Se a condição para trabalhar de modo profícuo e qualificado no projeto divino encontra-se no discipulado, a gratuidade é o coração (e está no coração) de quem se disponibiliza a contribuir com o crescimento do projeto divino.

Quando se trabalha de modo gratuito e sem esperar algum tipo de recompensa financeira, por exemplo, ou algum tipo de reconhecimento elogioso, então pouco importa se somos da primeira hora, enfrentando todo o calor do dia, ou se alguém da última hora recebe o mesmo salário que recebemos (25DTC-A). A Liturgia do 25DTC-A ensina aos celebrantes — tratados neste Domingo como trabalhadores da vinha — que o mal-estar causado pelos trabalhadores da primeira hora, dos primeiros momentos da formação da comunidade, não tem sentido diante dos critérios divinos. O convite para se trabalhar na vinha do Senhor não se pauta na meritocracia, mas na disponibilidade gratuita de quem se dispõe trabalhar para cultivar o Reino de Deus.

Serginho Valle

Agosto de 2017

25 de ago de 2017

Silenciar ou cantar depois da comunhão?

A IGMR 88 faz as duas propostas: silenciar e cantar. Por isso pode-se silenciar depois da comunhão como é possível cantar uma canção após a comunhão.  

Terminada a distribuição da Comunhão, ser for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio. Se desejar, toda a assembléia pode entoar ainda um salmo ou outro canto de louvor ou hino. (IGMR 88)


Silenciar 
O silêncio depois da comunhão é algo inerente ao rito da comunhão. Concluída a partilha da Comunhão Eucarística, naturalmente o rito celebrativo conduz ao silêncio. Isso pode acontecer por motivos devocionais ou por razão de algum outro movimento interior, na ordem da espiritualidade ou da mística. Não vem ao caso a motivação, mas aquela intuição que ao receber Jesus sacramentado se é levado a silenciar. É a escolha intuitiva da melhor parte, como fez Maria, quando visitada por Jesus, em sua casa (Lc 10,38-42).
Desde antes da reforma da Liturgia (1963) havia o costume de silenciar depois da comunhão para agradecer a "visita de Jesus Eucarístico" no coração do comungante, como diziam os antigos manuais orientando como agir depois da Comunhão. Recordo o meu tempo de seminário que, depois da Missa, o padre celebrante voltava à capela para fazer ação de graças em silêncio. Era depois da Missa, mas finalidade é a mesma: reservar um tempo de silêncio para agradecer pela Eucaristia. 
A mesma característica de agradecimento pela participação na Comunhão Eucarística e pela celebração em geral, continua. Mas, acrescento a peculiaridade de ser também momento para oração silenciosa. Trata-se daquela oração, na qual o celebrante silencia para acolher o que celebrou na Eucaristia. Quer dizer, para acolher em modo de oração silenciosa o que comungou na Mesa da Palavra e na Mesa da Comunhão.
Desta forma, considero que o momento pós-comunhão é mais propicio ao silêncio que a se cantar uma canção. E, aqui, vale o que a Liturgia entende, no seu aspecto comunicativo, por silenciar: sem mensagens, sem orações devocionais e sem fundo musical. A canção, depois da comunhão, tem sempre o caráter de ser facultativa, mas o silêncio, embora não obrigatório, traz consigo um caráter de necessidade.

Canto pós-comunhão 
Como mencionado, existe a possibilidade de se cantar uma canção depois da comunhão. Muitos a denominam de "canto de ação de graças". Outros alegam ser desnecessário uma canção de ação de graças, uma vez que toda Eucaristia já é ação de graças. Os dois lados têm razão e, quando dois têm razão, enquanto não compreenderem que estão certos, continuaram em suas teimosias estéreis.
De minha parte não considero problema cantar a ação de graças para agradecer o momento celebrativo da Eucaristia. Este, portanto, pode ser considerado um motivo para um canto depois da comunhão: cantar uma ação de graças para dar graças pela grande ação de graças que é a Eucaristia. Refiro-me a um canto de agradecimento.
Ainda na linha de agradecimento, pode-se entender também a escolha de uma canção de louvor. Não se trata se um canto de louvor ou de adoração Eucarístico, mas de louvar a presença divina na Eucaristia, seja na Palavra como no Sacramento. Neste caso cabe bem a iniciativa de se cantar um refrão orante. 
Outra proposta para o canto depois da comunhão é unir a Comunhão Eucarística a um compromisso concreto anunciado na Palavra, refletido na homilia e assumido na Mesa da Comunhão. O compromisso concreto, neste caso, será expresso numa canção. Assim, por exemplo, se a Palavra anuncia o respeito pela dignidade da vida do pobre, do oprimido, o canto depois da Comunhão poderá cantar o compromisso de ser misericordiosamente fraterno e solidário para com o pobre. Isso é melhor compreendido quando a celebração é contextualizada num único (no máximo dois) enfoque a partir da Palavra proclamada na celebração.

Modo de cantar e característica 
Quanto ao modo de cantar esta canção não se pode esquecer que o contexto é envolvido pelo silêncio contemplativo. Isto significa que o modo de cantar e interpretar a canção sejam de acordo com o momento; o momento da pós-comunhão. Não tem sentido, por exemplo, bater palmas neste momento, nem mesmo cantar a plenos pulmões. Cantar sim para favorecer o louvor, o agradecimento, o compromisso; para favorecer, inclusive, o silenciamento interior.
Ainda sobre o modo de cantar, pode-se considerar o canto solo, embora a orientação da IGMR 88 seja pelo canto assemblear. No caso de um canto solo, canta-se a canção com a arte de quem favorece a meditação ou a prece ou o compromisso. Não é momento para se apresentar como cantor ou cantora, mas para artisticamente favorecer a reflexão e a oração interior através da arte interpretativa musical. Mas, dependendo da canção, o ideal é que seja cantada por toda a assembléia. Isto acontece com cantos de louvor, de agradecimento, de comprometimento, por exemplo. 
Ainda quanto ao modo de cantar, este tem a ver também sobre a execução dos instrumentos. Não é momento para usar bateria ou outros instrumentos de percussão. Um teclado bem tocado ou um violão de base é o ideal. 
O bom senso faz entender que não cabe, no momento depois da comunhão, homenagens cantadas para alguém presente na assembléia, como se vê no dia das mães, dos pais, aniversário do padre... A canção depois da comunhão tem relação direta com a Eucaristia celebrada e comungada. As homenagens poderão ser feitas depois da Oração pós-comunhão.
Não esquecer que uma característica desta canção, por fim, está na brevidade. Considere-se que a celebração já está no final e adicionamentos de ritos feitos com canções, avisos, mensagens são antipáticos nessa hora. Por isso, uma canção breve é sempre a escolha mais acertada.

Silêncio depois da comunhão 
            Iniciei falando do silêncio e vou terminar com o silêncio considerando dois aspectos.
O primeiro aspecto diz respeito ao silêncio pessoal. É o silêncio feito por cada comungante, quando entra na sua intimidade para rezar silenciosamente. É um momento muito pessoal de ação de graças, de pedidos pessoais, de oferecimento. Nem todos conseguem aproveitar bem este momento, alguns por não saber como fazer, outros por não terem oportunidade para tal porque o padre e a equipe de celebração não permitem. São aqueles padres e aquelas equipes que, mal termina a distribuição da Eucaristia já fazem a Oração depois da Comunhão. Tem algumas equipes de celebração que adotaram o mau gosto de ler mensagens ou orações ou de sempre cantar depois da comunhão. Assim, o celebrante não tem chance de pessoalmente silenciar. Não se pode esquecer que o silêncio tem a preferência depois da comunhão.
O segundo modo de silenciar é o silêncio celebrativo. Este acontece quando toda a assembléia silencia. É o silêncio marcado pelo respeito por quem está em oração, sem fundos musicais, sem solo de violão, sem o ruído de músicos afinando ou cutucando seus instrumentos. Tudo silencia porque o rito depois da comunhão se caracteriza como silencioso.
Serginho Valle 
Agosto de 2017 



18 de ago de 2017

Canção para a comunhão

A IGMR 86 propõe que se cante uma canção durante a distribuição da Eucaristia, denominado como "canto de comunhão". É a canção que acompanha o rito da distribuição da Eucaristia. Uma canção que, dado o momento ritual e celebrativo, do ponto de vista comunicativo, assume características de canção processional. Uma canção para acompanhar a procissão que conduz os celebrantes até a Mesa Eucarística. 
Tal característica de canção processional pode ser manifestada na poesia da canção e ou no ritmo da mesma. Temos vários exemplos de canções no nosso repertório litúrgico brasileiro que atendem a tais critérios. Mas, é importante anotar que esse não é o único critério para a escolha da canção. 
Um critério importante, que considero de suma importância na escolha da canção, é a dimensão teológica da Eucaristia. O rito da partilha da comunhão, o momento de fazer comunhão com Deus, na fraternidade de um povo que caminha ao encontro da Mesa onde se distribui a Vida Divina, precisa ser levado em consideração. Por isso, não se canta uma canção dedicada a Nossa Senhora ou a um santo, por exemplo, durante a comunhão. Escolhe-se cantar uma canção que cante a Eucaristia em suas várias dimensões ou matizes teológicos.
Outro critério interessante a se considerar é a vida cristã enquanto compromisso de vida, compromisso com o discipulado que é assumido e reconfirmado no momento da comunhão Eucarística. Neste caso, leva-se em conta escolher canções que cantam, por exemplo, a fraternidade, a reconciliação, a missão, o caminho do discipulado...
Ainda outra fonte, pouca usada no Brasil, é a salmodia. A Liturgia indica vários salmos para o momento da Comunhão e, seria muito bom se isso fosse colocado em prática. O modo de salmodiar pode ser com melodias tradicionais ou modernas. A escolha do salmo a ser cantado no momento da comunhão poderia inspirar-se na antífona de comunhão. A este propósito, de salmodiar durante o rito da Comunhão, a IGMR 87 orienta: Para o canto da comunhão pode-se tomar a antífona do Gradual romano, com ou sem o salmo, a antífona com o salmo do Gradual Simples ou outro canto adequado, aprovado pela Conferência dos Bispos. O canto é executado só pelo grupo dos cantores ou pelo grupo dos cantores ou cantor com o povo.


Fontes inspiradoras  
            Depois de considerar o conteúdo das canções, alguma proposta para se inspirar na escolha das canções: as fontes inspiradoras. A principal fonte inspiradora na escolha da canção para o canto da Comunhão, sem dúvida alguma, é a Palavra proclamada na Missa, principalmente o Evangelho. Normalmente, minha orientação para a escolha da canção para a comunhão é a partir da Liturgia da Palavra. Assim, aquilo que é proclamado na Palavra é cantado no rito da distribuição da Eucaristia. Este é um aspecto importante porque favorece a relação existente entre a Palavra e a Eucaristia comungada. É um modo de ajudar os celebrantes a perceberem que estão comungando também o projeto de vida proposto na Palavra.
Claro que para isso é preciso haver sintonia entre o que foi proclamado na Mesa da Palavra e a canção que se canta na Mesa da Eucaristia. Assim, por exemplo, se a Palavra proclama a misericórdia, a canção canta a misericórdia. Se a Palavra proclama a justiça, as poesias das canções cantadas na comunhão cantam a justiça. 
Muitos liturgistas brasileiros incentivam cantar o rito da comunhão com os, hoje, conhecidos refrões orantes. Aprecio muito esta proposta. O modo de cantar os refrões orantes favorece que o rito da comunhão torne-se mais orante. Um bom Ministério de Música canta o refrão orante com calma e em tom oracional para conduzir os celebrantes na mesma experiência de cantar de modo orante o rito da comunhão. 
Como mencionado acima, outra fonte inspiradora é a escolha de um salmo, a partir da antífona de comunhão. Claro que a antífona de comunhão e, até mesmo, a Oração depois da Comunhão, podem servir como fonte inspiradora na escolha do canto da comunhão.

Ritmo da canção da comunhão 
Por ser um momento ritual de profunda intimidade com o divino, o ritmo que melhor se adapta é o mais lento. Não é boa escolha cantar canções de comunhão com ritmos acelerados e, muito menos, batendo palma ou fazendo gesto. Penso que a procissão ritual até a Mesa da Comunhão deverá ser feito com calma e envolvido numa canção que possa favorecer o silêncio interior.

Altura do som 
Outro elemento que gostaria de chamar atenção é quanto a altura do som. Regra geral, o som na celebração Eucarística nunca deverá ser alto para não se tornar barulhento. Som alto nas celebrações é, simplesmente, irritante e demonstração de pouca sensibilidade litúrgica-celebrativa. Ainda mais irritante é cantar alto no momento da comunhão. 
A comunhão é um rito marcado pela procissão de quem caminha em clima de recolhimento e, não poucas vezes, em muitos contextos celebrativos, como aqueles quaresmais, por exemplo, caminha-se envolvido pelo silêncio. A música não pode ser o elemento perturbador nem do recolhimento e, menos ainda, ser invasora do contexto silencioso. A função musical é aquela de favorecer o recolhimento e o contexto silencioso. E, um modo para isso acontecer é afinando adequadamente a altura dos instrumentos e da voz para o contexto celebrativo-litúrgico.
Serginho Valle 
Agosto 2017 


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