23 de jun de 2017

Fractio panis et Agnus Dei

Fractio panis. Este foi um dos primeiros nomes com os quais era denominada a Eucaristia. Estamos falando do rito da "fração do pão". É um rito importante, do ponto de vista teológico, mas nem sempre valorizado como mereceria, no contexto ritual da celebração Eucarística.
Esta desvalorização do rito da "fração do pão" pode muito bem ser devido ao desconhecimento do significado do rito. Isso se evidencia quando o padre parte o pão enquanto a assembléia realiza o abraço da paz, por exemplo. Deixa assim, a intercessão do Cordeiro de Deus vazia, uma vez que o rito da Fração do pão é compreendido a partir do canto do Cordeiro de Deus. Em outras palavras, Cordeiro de Deus e Fração do pão formam um único rito. 
Além do exemplo citado, desconsidera-se, ou se desrespeita o rito quando este é realizado de modo apressado, quando o pão é partido em cima da patena, escondido, impossibilitando aos celebrantes de verem a fração do pão. Sendo gesto escondido, do ponto de vista comunicativo, o gesto perde seu sentido. Desconsidera-se o rito, igualmente, quando a fração do pão acontece no momento da Consagração do Pão, na Oração Eucarística. É o caso do padre que pretende dar realismo à Oração Eucarística e, ao dizer as palavras “partiu o pão”, de fato parte o pão. Neste caso dois são os ritos castigados ao mesmo tempo: a Consagração e a Fractio Panis. Uma clara indicação de duplo desconhecimento da função ritual da Oração Eucarística e da função ritual da fração do pão.

O sentido do rito 
A fração do Pão é um rito sacramental e, enquanto tal, fundamentado pela Bíblia e pela Teologia simbólica. Não se trata, portanto, de um gesto prático (qual fosse partir a grande hóstia para melhor ser ingerida), mas de um gesto, repito, sacramental.
O principal sentido Bíblico encontra-se na figura do Cordeiro, a vítima pascal imolada como oferenda a Deus e ao povo, como se lê no relato de Ex 12,1-14. Este relato da Ceia Pascal Judaica é figura daquilo que acontece com o verdadeiro Cordeiro, com a verdadeira vítima, que é Jesus Cristo, com as qualidades descritas por Isaias (Is 53,7) e, igualmente, como apresentado por João Batista (Jo 1,29).
Jesus é apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus, como a oferta sacrifical que o próprio Deus oferece para a Salvação da humanidade. O gesto sacrifical está presente na fração o Pão. É Corpo de Cristo que é repartido como sacramento da doação da vida divina e como alimento divino para a vida humana. 
O Cordeiro é o próprio Jesus oferecido sacrificalmente no altar, como fora oferecido na Cruz. Na Ceia Pascal judaica, que serve como figura, o cordeiro deveria ser sem defeito. Na Cruz e, sacramentalmente, no altar da Eucaristia, Jesus, Cordeiro de Deus, é a vítima pura, sem defeito, da qual nenhum de seus ossos foi quebrado. Como na Cruz, também o altar é o local onde a Igreja "sacrifica" a vítima pura, santa, imaculada — como proclama a Oração Eucarística I —, no sentido de oferecer ao Pai e aos celebrantes a vitima pura, um sacrifício santo e redentor. Tudo isso está representado no gesto ritual da fração do Pão. 
Diante de tal riqueza da Teologia Eucarística, realizar o rito fora do contexto ou de qualquer jeito é empobrecê-lo ou, é um infeliz modo de manifestar o desconhecimento do rito.

Commixtio  
O “gesto sacrifical” da fração do Pão é concluído com um rito chamado commixtio. Rito com o qual o padre coloca uma partícula da hóstia no cálice com o vinho sagrado. Um rito antiquíssimo que, nas origens expressa a comunhão com entre todas as igrejas. Isso acontecia do seguinte modo, na cidade de Roma: o Papa celebrava a Eucaristia e, no momento da fração do Pão reservava um pedaço do pão para ser enviado a cada uma das “estações” (comunidades) da cidade de Roma. O bispo da estação recebia a partícula da hóstia e a depositava no seu cálice com o Vinho consagrado para expressar a comunhão, na Eucaristia, com o Bispo de Roma. Sinal que em todas as igrejas e comunidades se celebra a única e mesma Eucaristia.
Mesmo diante da impossibilidade de, hoje, realizar um rito semelhante, a Igreja conservou o rito com um sentido novo, expresso na oração secreta que é recitada no momento que o padre deposita a partícula no Vinho consagrado: “Esta união do Corpo e do Sangue de Jesus, o Cristo e Senhor nosso, que vamos receber, nos sirva para a vida eterna”. Um gesto simbólico de comunhão que é espiritualizado para manifestar o Dogma Eucarístico da presença de Jesus no Pão e no Vinho consagrados.
Também a commixtio não pode ser feita de modo automatizado, mas realizado com devoção, com calma e em espírito de adoração.
Serginho Valle
2017


16 de jun de 2017

Formigamento na mão do músico

Você entra na igreja, pouco antes da Missa iniciar, e lá esta ele afinando o violão, dedilhando o teclado, batendo (de leve) na bateria. E aquele silêncio tão necessário antes do início da Missa é invadido por rumores. Muitos afinam seus instrumentos antes da Missa; tudo bem, mas que o façam na sacristia ou em outro local, mas fora da igreja. Alguns até o fazem, mas não aguentam o formigamento na mão e começam a tocar, mexer no microfone  e assim comprometem aquela concentração tão importante antes da Missa. Quando tudo deveria silenciar antes da Missa, o músico com formigamento na mão está irrequieto.
Depois, a coisa piora, quando o músico tem formigamento nas mãos. Ele não as controla. Vem o silêncio do ato penitencial, e ele fica dedilhando sua viola. Chega a Liturgia da Palavra, as leituras acontecendo, e o formigamento parece aumentar. Fica lá dedilhando seu violão. São inoportunos e atrapalham a celebração, a concentração e a oração. Não se tocam, mas tocam seu violão porque não estão na celebração, vivem com a mão no violão.
Já participei de celebrações com músicos dedilhando violão e ciscando no teclado durante a homilia. Numa delas, o padre parou a homilia e educadamente pediu que parasse. O músico, grosseiramente e ostensivamente, levantou-se e foi embora. Demonstrou que de educação entendia pouco. Não tinha compreendido ainda que é falta de educação atrapalhar a homilia com seus dedilhados, naquele momento, inoportunos.  
Chega o momento da Oração Eucarística e, lá está ele: a Missa silenciando e ele dedilhando seu violão. Alguns inventam fazer fundo musical no momento da consagração, quando tudo deveria ser silenciosamente quieto. O formigamento em sua mão o leva a ser invasivo até mesmo do silêncio celebrativo. 
Pois é, para não ser invasivo, ele deveria se tocar ou, se for o caso, tratar esse seu formigamento na mão para a celebração não atrapalhar.
Serginho Valle
2017


14 de jun de 2017

Liturgia e missão na messe do Senhor

É pela presença divina na Litrugia que somos convocados, na Liturgia e através da Liturgia, a dar continuidade à mesma missão de Jesus Cristo. Dar continuidade tendo o mesmo olhar de Jesus que, contemplando o tamanho da messe, convida a Igreja a não deixar de interceder por mais operários, porque a messe é grande e poucos são os operários (11DTC-A). É pelo acolhimento da missão evangelizadora de atuar na messe do Senhor que testemunhamos, no meio do mundo, que somos o Povo Santo de Deus. Povo que não vive de uma ideologia ou de um sonho, mas que é chamado a se empenhar a favor do projeto divino. Uma missão que, reconhecidamente, não é fácil, a ponto de inspirar temor e medo a quem se dispõe acolher o convite de Jesus.
Diante da possibilidade do medo, à medida que se conhece a pedagogia litúrgica, entende-se que a Liturgia não celebra ilusões; não esconde a agressividade do mundo, mas proclama pela Palavra que o mundo promove provações. Por isso, traz para suas celebrações a necessidade de crescer na confiança de quem conta com a presença divina no envio missionário e evangelizador. A Liturgia evidencia que o segredo do evangelizador está em confiar em Deus e não ter medo (12DTC-A). Não ter medo nem mesmo daqueles que podem matar o corpo. Não ter medo, como diz Jeremias, do poder dos exércitos que espalham mortes (1L do 12DTC-A). Ter confiança em todos os momentos, porque quem participa do Mistério celebrativo, enche-se da força divina, é envolvido pelo poder de Deus e é enviado a trabalhar na messe do Senhor.
Serginho Valle

2017

9 de jun de 2017

Oração e abraço da paz na Missa

Uma prece memorial, dirigida a Jesus Cristo, é o segundo rito da preparação para a Comunhão Eucarística. É o rito da paz, realizado com uma oração presidencial e concluída com o rito do gesto da partilha da paz e reconciliação.
Sendo oração presidencial, a prece pela paz é recitada somente pelo padre que preside a Eucaristia. A assembléia participa da prece em silêncio. Do ponto de vista comunicativo, isto tem sua função e importância. Algumas comunidades transformam os ritos preparatórios para a Comunhão Eucarística numa grande recitação de orações, começando pelo Pai nosso e concluindo no Cordeiro de Deus. Algumas comunidades nem mesmo respeitam a secreta da comunhão. Com o tempo isso torna-se automatizado e os celebrantes não se atentam para o que dizem, apenas vão recitando, transformando o rito que prepara a comunhão eucarística em falatório.
É considerando o processo ritual proposto pela Liturgia que se compreende o rito preparatório da Comunhão Eucarística como momento marcado por orações e pelo silêncio. Fora disso se deturpa o rito e se extravia a assembléia de sua finalidade.

Momento ritual da oração pela paz
Quanto ao momento ritual do abraço da paz, este tem sido motivo de várias considerações da parte dos liturgistas. Em tempos da história recente da Liturgia se pensou — e se pensa — em transferir o abraço da paz para antes da apresentação e preparação das  oferendas. Adotar-se-ia, neste caso, o mesmo momento ritual da Liturgia Ambrosiana. O motivo da troca está na passagem evangélica, na qual Jesus orienta a deixar a oferta diante do altar, se o oferente estiver necessitado de reconciliação fraterna (Mt 5,24). A oferta só é acolhida por Deus se o coração do oferente estiver em paz com o outro.
Mas, é este mesmo princípio evangélico de Mt 5,24 que fundamenta o rito da paz na nossa Liturgia Romana: a necessidade de estar reconciliado, estar em paz com todos, para se participar dignamente da Comunhão Eucarística. Existe, portanto, a necessidade de se estar em comunhão fraterna com todos para se comungar dignamente o Corpo e Sangue do Senhor. Neste sentido compreende-se que o rito da paz é essencialmente um rito de reconciliação. Comunga dignamente quem está reconciliado com Deus, consigo mesmo, isto é, estar em estado de graça, que é um estado de paz interior,  e com os irmãos e irmãs.
Hoje, o sentido reconciliador do abraço da paz nem sempre é considerado em algumas celebrações, principalmente quando transformam o rito da paz numa espécie de "recreio", onde se canta, bate-se palma, se abraça, se caminha pela igreja... Isto acontece entre os celebrantes e, também com alguns padres que abandonam o altar para andar pela igreja para distribuir abraços, beijos e cumprimentos. Além disso, existem os músicos desavisados, ou desconhecedores do sentido ritual do abraço da paz, que entoam canções falando de amigos, de amizades ou de uma “paz romanceada”. 

Música no abraço da paz?  
A segunda parte do rito da paz é celebrada com a partilha da paz, entre os celebrantes, por meio de um gesto fraterno. O gesto escolhido para partilhar a paz respeita os costumes de países e culturas. O Missal orienta que seja um gesto simples para não se perder o silêncio e o clima de oração próprios dos ritos preparatórios da comunhão. 
O rito do abraço da paz caracteriza-se pela atenção que se dedica a quem e com quem se está partilhando a paz. Não comporta, por este motivo, canções, aplausos, gestos de aceno a pessoas distantes ou coisas do gênero. O rito do abraço da paz realiza-se de modo sóbrio, simples e respeitoso de quem está diante de Jesus Cristo, presente na Eucaristia e, diante do outro.

Abraço da paz no final da Missa?
Alguns padres não realizam o abraço da paz no momento previsto e o transferem para o final da Missa, para antes ou depois da bênção final. É uma criatividade sem sentido litúrgico e desprovida de qualquer fundamentação Litúrgica-Teológica. Neste caso, não existe criatividade litúrgica, mas uma invenção pessoal.
Nada contra que se realizem despedidas no final da Missa entre os celebrantes desejando a paz, desejando uma boa semana repleta de paz e coisas do gênero. O que é estranho é transferir um rito, que é preparatório para a Comunhão Eucarística, para um momento ritual que cumpre a finalidade reconciliadora em preparação à Comunhão Eucarística. E assim se procedendo, não deixa de ser manifestação de um desconhecimento da finalidade do rito da paz e da sua fundamentação teológica.
Serginho Valle
2017


2 de jun de 2017

Agente do ministério da ornamentação

A título de reflexão breve, seguem  três características quanto da identidade do agente do ministério da ornamentação. Por ser breve, trata-se apenas de uma primeira proposta sobre três  qualidades de quem se ocupam com a ornamentação celebrativa. 

Mistagogo 
A primeira característica do agente do ministério da ornamentação é a de ser um mistagogo que com sua função catequética conduz seus catequizandos para dentro do Mistério que é celebrado em cada contexto celebrativo. Quem se ocupa do ministério da ornamentação torna-se um mistagogo, isto é, não aquele catequista de propõe os primeiros elementos da fé, mas aquele que favorece nos celebrantes um aprofundamento do Mistério celebrado em vista de uma participação ativa e consciente.
Como já disse em outras oportunidades, o agente no ministério da ornamentação não é um simples arranjador de flores ou criador de símbolos; é alguém que propõe uma catequese através da arte floral, pela criação de um símbolo ou de um enfeite contextual ou por uma ikebana. Isto significa que em cada peça proposta pelo agente do ministério da ornamentação deveria existir uma mensagem catequética. Não somente uma mensagem visual, portanto, do ponto de vista estético com sua função apreciativa, também esta, mas com a finalidade de favorecer nos celebrantes o ingresso no Mistério celebrado para compreenderem o que se está celebrando. 
Para isso, como é normal para todo mistagogo, o agente do ministério da ornamentação deve ter intimidade com a Palavra, com a Liturgia e com o processo comunicativo da celebração.  

Contemplativo 
Outra importante característica do agente do ministério da ornamentação é o cultivo da contemplação em sua vida; é chamado a tornar-se um contemplativo. Aprender a contemplar é próprio de todo artista e, como todo agente do ministério da ornamentação lida com arte, ele é convidado a entrar na escola da contemplação para aprender e se tornar um contemplativo. 
Aprender a contemplar a beleza na natureza,  contemplar obras de arte. Contemplar como exercício de quem se coloca silenciosamente diante do belo e permite que a beleza entre dentro de si. Quanto mais tiver a beleza dentro ai, fruto da contemplação, mais facilmente saberá tornar belo aquilo que realiza no ministério da ornamentação.  Quanto mais ler a beleza com as palavras da Sagrada Escritura, tanto melhor poderá exercer seu ministério.

Aguçar a percepção  
Uma terceira característica consiste em ser um observador e para isso, precisa treinar sua percepção. Tornar a percepção aguçada. Ser alguém que repara ao seu redor para encontrar inspiração. Isso é muito importante para ser criativo na simbolização, observando o simbolismo que nos rodeia por todos os lados.
Aprender  perceber a dinâmica proposta em símbolos e em tantas representações com os quais convivemos na sociedade. Perceber a disposição das cores, a organização estética das formas, como se harmonizam na composição e no dialogo estético para que torna um símbolo seja eloquente.  Não se trata de copiar, mas de inspirar-se. 
O agente do ministério da ornamentação está sempre vendo formas e cores e composições com os olhos do Evangelho. À medida que aprende a ler a celebração e o Evangelho irá se aprimorando em transformar cada contexto celebrativo num símbolo, num enfeite contextual ou no arranjo floral.
Serginho Valle 
2017 


27 de mai de 2017

Presença divina na Liturgia

Dentre as finalidades da Liturgia, uma delas é celebrar a presença divina entre nós. Celebramos esta presença em forma sacramental, mas é presença real, de Deus agindo entre nós e, nós, como Igreja, celebrando sua presença e sua Salvação em nosso meio.
            A celebração da presença divina entre nós acontece por obra do Espírito Santo. É o Espírito quem conduz a Liturgia, quem possibilita a presença divina entre nós. Isso livra a Igreja da possibilidade de considerar a Liturgia um ato mágico. Invés disso, garante que só existe possibilidade de atualização litúrgica, no sentido teológico Memorial, se houver presença e graças à presença do Espírito Santo no ato celebrativo. Neste sentido, toda celebração litúrgica é sempre momento epiclético, quer dizer, invocação do Espírito Santo para que Deus esteja entre nós, para que a presença divina esteja entre nós: “Ele está no meio de nós!”
            É pelo Espírito Santo que somos convocados e reunidos em nome de Jesus Cristo: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”. É o Espírito que age, é Deus que nos reúne no amor de Jesus Cristo, é a presença da Trindade envolvendo-nos em todo ato litúrgico. É diante da Trindade Santa que, pela Liturgia, homens e mulheres de toda a terra, são convidados a adoração, ao louvor e a ação de graças. Mas, é também obra do Espírito Santo, a convocação para sermos alimentados com o alimento Eucarístico e para sermos conduzidos pela Palavra proclamada em cada celebração litúrgica, nos caminhos e nos desertos da vida. A celebração litúrgica, portanto, promove a presença divina entre nós e, mais que isso, torna esta presença alimento e orientação para a vida.
A Liturgia evidencia, de modo muito claro, que quem se alimenta da Eucaristia, na Mesa da Palavra e na Mesa do Pão, encontra-se com Deus, alimenta-se de Deus e fortalece-se com a vida divina para o cotidiano de sua vida e de sua história. Quem se alimenta a Eucaristia encontra o sentido da vida, o motivo para o seu viver.
Serginho Valle

2017
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