18 de ago de 2017

Canção para a comunhão

A IGMR 86 propõe que se cante uma canção durante a distribuição da Eucaristia, denominado como "canto de comunhão". É a canção que acompanha o rito da distribuição da Eucaristia. Uma canção que, dado o momento ritual e celebrativo, do ponto de vista comunicativo, assume características de canção processional. Uma canção para acompanhar a procissão que conduz os celebrantes até a Mesa Eucarística. 
Tal característica de canção processional pode ser manifestada na poesia da canção e ou no ritmo da mesma. Temos vários exemplos de canções no nosso repertório litúrgico brasileiro que atendem a tais critérios. Mas, é importante anotar que esse não é o único critério para a escolha da canção. 
Um critério importante, que considero de suma importância na escolha da canção, é a dimensão teológica da Eucaristia. O rito da partilha da comunhão, o momento de fazer comunhão com Deus, na fraternidade de um povo que caminha ao encontro da Mesa onde se distribui a Vida Divina, precisa ser levado em consideração. Por isso, não se canta uma canção dedicada a Nossa Senhora ou a um santo, por exemplo, durante a comunhão. Escolhe-se cantar uma canção que cante a Eucaristia em suas várias dimensões ou matizes teológicos.
Outro critério interessante a se considerar é a vida cristã enquanto compromisso de vida, compromisso com o discipulado que é assumido e reconfirmado no momento da comunhão Eucarística. Neste caso, leva-se em conta escolher canções que cantam, por exemplo, a fraternidade, a reconciliação, a missão, o caminho do discipulado...
Ainda outra fonte, pouca usada no Brasil, é a salmodia. A Liturgia indica vários salmos para o momento da Comunhão e, seria muito bom se isso fosse colocado em prática. O modo de salmodiar pode ser com melodias tradicionais ou modernas. A escolha do salmo a ser cantado no momento da comunhão poderia inspirar-se na antífona de comunhão. A este propósito, de salmodiar durante o rito da Comunhão, a IGMR 87 orienta: Para o canto da comunhão pode-se tomar a antífona do Gradual romano, com ou sem o salmo, a antífona com o salmo do Gradual Simples ou outro canto adequado, aprovado pela Conferência dos Bispos. O canto é executado só pelo grupo dos cantores ou pelo grupo dos cantores ou cantor com o povo.


Fontes inspiradoras  
            Depois de considerar o conteúdo das canções, alguma proposta para se inspirar na escolha das canções: as fontes inspiradoras. A principal fonte inspiradora na escolha da canção para o canto da Comunhão, sem dúvida alguma, é a Palavra proclamada na Missa, principalmente o Evangelho. Normalmente, minha orientação para a escolha da canção para a comunhão é a partir da Liturgia da Palavra. Assim, aquilo que é proclamado na Palavra é cantado no rito da distribuição da Eucaristia. Este é um aspecto importante porque favorece a relação existente entre a Palavra e a Eucaristia comungada. É um modo de ajudar os celebrantes a perceberem que estão comungando também o projeto de vida proposto na Palavra.
Claro que para isso é preciso haver sintonia entre o que foi proclamado na Mesa da Palavra e a canção que se canta na Mesa da Eucaristia. Assim, por exemplo, se a Palavra proclama a misericórdia, a canção canta a misericórdia. Se a Palavra proclama a justiça, as poesias das canções cantadas na comunhão cantam a justiça. 
Muitos liturgistas brasileiros incentivam cantar o rito da comunhão com os, hoje, conhecidos refrões orantes. Aprecio muito esta proposta. O modo de cantar os refrões orantes favorece que o rito da comunhão torne-se mais orante. Um bom Ministério de Música canta o refrão orante com calma e em tom oracional para conduzir os celebrantes na mesma experiência de cantar de modo orante o rito da comunhão. 
Como mencionado acima, outra fonte inspiradora é a escolha de um salmo, a partir da antífona de comunhão. Claro que a antífona de comunhão e, até mesmo, a Oração depois da Comunhão, podem servir como fonte inspiradora na escolha do canto da comunhão.

Ritmo da canção da comunhão 
Por ser um momento ritual de profunda intimidade com o divino, o ritmo que melhor se adapta é o mais lento. Não é boa escolha cantar canções de comunhão com ritmos acelerados e, muito menos, batendo palma ou fazendo gesto. Penso que a procissão ritual até a Mesa da Comunhão deverá ser feito com calma e envolvido numa canção que possa favorecer o silêncio interior.

Altura do som 
Outro elemento que gostaria de chamar atenção é quanto a altura do som. Regra geral, o som na celebração Eucarística nunca deverá ser alto para não se tornar barulhento. Som alto nas celebrações é, simplesmente, irritante e demonstração de pouca sensibilidade litúrgica-celebrativa. Ainda mais irritante é cantar alto no momento da comunhão. 
A comunhão é um rito marcado pela procissão de quem caminha em clima de recolhimento e, não poucas vezes, em muitos contextos celebrativos, como aqueles quaresmais, por exemplo, caminha-se envolvido pelo silêncio. A música não pode ser o elemento perturbador nem do recolhimento e, menos ainda, ser invasora do contexto silencioso. A função musical é aquela de favorecer o recolhimento e o contexto silencioso. E, um modo para isso acontecer é afinando adequadamente a altura dos instrumentos e da voz para o contexto celebrativo-litúrgico.
Serginho Valle 
Agosto 2017 


9 de ago de 2017

Batismo

Do grego “baptizein”, com o significado de mergulhar-se, tomar banho, imergir dentro da água. No contexto da língua grega, o batismo era uma necessidade natural de higiene de lavar-se, tomar banho, limpar-se. No contexto religioso, tem o sentido de ablução. Todas as religiões têm ritos de ablução ou de purificação com água. Com João Batista, tal ato prevê um significado mais moral que ritual (Mt 3,6).  

Batismo cristão
Para ser eficaz, o Batismo deve ser obra divina de Cristo e do Espírito Santo (Jo 1,29). Desse modo, Jesus mergulhou — recebeu um Batismo — no abismo do mal e do sofrimento. Explicou a seus discípulos que precisava ser batizado e que se angustiava até que o mesmo se consumisse (Lc 12,50). Por sua Morte redentora, Jesus desceu (mergulhou)  na mansão dos mortos para reconduzir à superfície das águas todos que aceitam a Salvação. Se ele entrega sua vida é para retomá-la, para que a morte seja vencida e todos possam participar da sua plenitude (Jo 10,17; 1Cor 15,54).  
Para participar da vida de Jesus ressuscitado é preciso que os fiéis entrem participem, através do Batismo, no Mistério Pascal de Cristo (Rm 6,4). Batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,19), a pessoa é mergulhada na Trindade Santa pela ação do Espírito Santo (1Cor 12,13) e destinada a participar da glória eterna.  
O Sacramento do Batismo faz a pessoa renascer para a vida divina, a qual se desenvolverá pela prática do discipulado cristão, especialmente cultivado e nutrido pela Palavra, pelo Evangelho, pelos Sacramentos e pela vida litúrgica
O Batismo só é recebido uma vez, porque imprime caráter. Por isso, a Igreja católica aceita o Batismo realizado naquelas Igrejas evangélicas que  batizam validamente.  

Rito do Batismo 
O rito do Batismo consta de uma Liturgia com os elementos próprios da Liturgia Católica: ritos iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia Sacramental e ritos finais.  
O rito sacramental é celebrado com o derramamento da água, ou pelo mergulho na água, acompanhado com a fórmula “eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Em cada uma das pessoas da Santíssima Trindade acontece a imersão na água ou o derramamento da água na cabeça da pessoa batizada.  

Matéria do Batismo 
A matéria do sacramento do Batismo, isto é, aquilo com o qual se batiza, é água corrente.  

Ministro do Batismo 
Nos primeiros tempos da Igreja, somente o Bispo era considerado ministro deste sacramento. Depois, o ministério passou a todos os sacerdotes e, atualmente, qualquer pessoa, até mesmo um não católico ou não cristão, pode batizar validamente, desde que faça aquilo que a Igreja exige.  

Celebração do Batismo 
A celebração do Batismo, do ponto de vista litúrgico, caracteriza-se como celebração alegre e familiar. Celebra-se o renascer da vida pela participação da vida divina.  Isto é motivo de alegria principalmente no contexto familiar da pessoa que é batizada.
É familiar porque toda a família do batizado é convidada a se fazer presente e a participar ativamente de todos os momentos celebrativos.  
Do ponto de vista litúrgico, é uma das celebrações mais movimentadas e que mais se serve da simbologia litúrgica. Isto faz com que seja uma celebração bonita, festiva, participativa e especialmente alegre.  
Serginho Valle  
Agosto 2017.  


4 de ago de 2017

Distribuição da Eucaristia na Missa


Penso que a distribuição da Eucaristia, na Missa, poderia ser denominada e descrita como "partilha do Pão e do Vinho Eucaristizados"; o que de fato é. Na distribuição da Eucaristia acontece a partilha da vida divina, presente no Corpo e Sangue de Jesus, entre os celebrantes. 
Para melhor expressar a partilha da vida divina, o ideal seria que os celebrantes comungassem do Pão e do Vinho consagrados. Infelizmente, isso nem sempre é possível por vários motivos, que não vem ao caso considerá-los neste espaço. Fica apenas o incentivo para que, onde isso for possível, a Comunhão seja feita sob duas espécies, principalmente naquelas celebrações previstas pela Igreja.  

Comunhão na mão ou na boca?  
O Pão consagrado pode ser colocado na palma da mão ou na boca do comungante. Não existe certo ou errado, mas existem duas tradições. 
A segunda tradição, de comungar recebendo o Pão na boca, é a mais recente e foi motivada por uma Teologia Eucarística que, na prática, proibia a leigos e leigas tocar na Hóstia consagrada. É uma Teologia derivada de fonte devocionalista, como lemos na História da Liturgia, que separava e distanciava Jesus Eucarístico do contato pessoal. Não deixa de ser algo estranho, porque Jesus viveu sendo tocado e se deixando tocar. Respeito quem incentiva a comunhão na boca, mas convido a considerar as motivações de tal prática a partir da Teologia e da Tradição da celebração Eucarística. 
A primeira tradição, de receber a Eucaristia na palma da mão, é a mais antiga. Inicia-se na Última Ceia, quando Jesus parte o pão e o entrega, na mão de cada um dos comensais. Entrega o pão na mão e não o coloca na boca. Tal prática é também descrita em vários textos da Patrística com indicações de que se comungue acolhendo o Corpo de Cristo na palma da mão, apresentada ao sacerdote em formato de trono. Um dos mais belos testemunhos que vem da antiguidade sobre a comunhão nas mãos é a orientação de como comungar proposta por São Cirilo de Jerusalém (morreu em 381): “Quando te aproximares, não caminhes com as mãos estendidas ou os dedos separados, mas faze com a esquerda um trono para a direita, que está para receber o Rei; e logo, com a palma da mão, forma um recipiente; recolhe o corpo do Senhor, e dize: “Amém”. A seguir, santifica com todo o cuidado teus olhos pelo contato do Corpo Sagrado, e toma-o. Contudo cuida de que nada caia por terra, pois, o que caísse, tu o perderias como se fossem teus próprios membros. Responde-me: se alguém te houvesse dado ouro em pó, não o guardarias com todo o esmero e não tomarias cuidado para que não te caísse das mãos e para que nada se perdesse? Sendo assim, não deves com muito esmero cuidar de que não caia nem uma migalha daquilo que é mais preciso do que o ouro e as pedras preciosas?” (Catequese Mistagógica V 21 s).
Isso significa, de acordo com a antiga Tradição: apresentar a palma da mão direita estendida e sustentada pela mão esquerda. Nada de "pegar" o pão consagrado com dois dedos, em forma de pinça. Devido ao fato que, no início da Igreja, os textos fazerem referência da comunhão na mão, é que considero esta a forma tradicional, no sentido de pertencer à Tradição, com "T" maiúsculo, da Liturgia da Igreja; faz parte da Tradição Eucarística. Considere-se ainda o cuidado para que nada cai por terra.

Quem comunga primeiro 
O primeiro a comungar é aquele que preside a Eucaristia. Depois de comungar, ele distribui a Eucaristia aos ministros. O termo é distribuir, no sentido que o padre entrega o pão aos ministros que irão auxiliá-lo na distribuição Eucarística. Em outras palavras, o ministro não se “auto-comunga”, mas recebe a comunhão. Nem tampouco busca a Eucaristia no altar. Esta é dada pelo padre para ser distribuída aos celebrantes.
Esta prática não tem nada a ver com a ideia de que o altar é exclusividade do padre. Tem a ver, sim, em repetir o gesto de Jesus realizado na Última Ceia, de tomar o pão, repartir e entregar aos discípulos. O mesmo aconteceu na multiplicação dos pães: Jesus partiu e entregou aos discípulos para que estes o distribuíssem. Ou seja, a distribuição da Eucaristia não é um rito funcional — com a função de distribuir a Eucaristia —, é rito simbólico, sacramental e enquanto tal considera que também a distribuição da Eucaristia é presidida pelo padre que age “in persona Christi”. Os ministros comungam, recebendo a comunhão das mãos do padre e depois o auxiliam na distribuição do Pão da Vida aos celebrantes. .
Depois dos ministros, os celebrantes comungam. Os últimos a comungar são os músicos. Isto por um motivo muito simples: os músicos estão a serviço da assembléia. Eles comungam por último e, desse modo, favorecem o silêncio pós-comunhão, nem sempre respeitado porque os músicos não param de cantar.  
A este repeito, a IGMR 86 orienta de modo muito claro que, logo depois da apresentação e do convite para a Comunhão, “enquanto o padre recebe o Sacramento”, isto é, enquanto estiver comungando, inicia -se o canto de comunhão. Por isso, naquele momento, os músicos não devem estar na fila para comungar, mas cantando com a assembléia. 

De pé ou ajoelhado 
Houve um tempo que os fiéis recebiam a comunhão ajoelhados. Com a reforma litúrgica (1963), a orientação foi receber a comunhão estando de pé. Também esta, diz a história da Liturgia, era a prática normal. Em nossos tempos, a Igreja admite que os celebrantes recebam a Comunhão de joelhos ou de pé.
Não está errado comungar ajoelhado. A Igreja respeita quem considera que assim demonstra mais respeito para com a Eucaristia. Muitos dos que comungam ajoelhados apoiam-se em textos bíblicos, como este: "para que ao nome de Jesus todo joelho se sobre no céu e na terra" (Fl 2,10). É um texto adorante, que convida a adoração e reconhece que Jesus é o Senhor. Mas, o rito da Comunhão da Eucaristia é momento de adoração ou de ceia, na qual se sela um compromisso de vida com Jesus e com seu projeto de vida?  
O comungar de pé, aproximando-se da Eucaristia caminhando, tem um significado que merece ser considerado. 
Indica, primeiramente, ser participante do povo a caminho, do povo que caminha em busca do alimento divino. O povo a caminho é uma expressão bíblica de grande significado. É o Povo de Deus, o povo que acolhe a disposição de Jesus ao ver o povo caminhando na sua direção, como se lê no início do capítulo 6 de João e no decorrer de todo o texto joanino sobre o chamado “Discurso do Pão da Vida” (Jo 6).
Além do rito simbólico de caminhar para comungar, o estar de pé, na Liturgia, como já comentamos em outras oportunidades, simboliza a postura de quem é ressuscitado. Mas, o estar de pé tem ainda outra dimensão: aquele que recebe do Ressuscitado, presente no Pão Divino, e é enviado para viver o que está comungando. É, portanto, um rito dinâmico e não parado; um rito que faz a Comunhão com o projeto divino e, uma vez fortalecido pelo alimento Eucarístico, parte para testemunhar a vida nova. Tudo acontece muito rapidamente, mas o significado é rico e denso.

Nosso padre não distribui a comunhão 
Uma prática muito estranha tem aparecido em algumas comunidades: aquela do padre não distribuir a Eucaristia aos celebrantes. Ele comunga e senta na cadeira presidencial em uma típica atitude de recusar colocar-se a serviço dos celebrantes. É um gesto que nunca houve na Igreja, uma vez que todos os gestos e atitudes litúrgicas, especialmente aquelas Eucarísticas, são considerados a partir do serviço. Por isso, pensar em introduzi-lo seria negar algo central na Eucaristia: contexto de serviço, na qual foi instituída a Eucaristia, atitude que se ilumina no gesto do lava-pés e na entrega da vida de Jesus. Assim, entende-se que distribuir a Eucaristia não é privilégio para o padre, mas serviço que ele assumiu no dia da ordenação: o serviço de alimentar o seu povo com o Pão da vida.
Já ouvi de padres que não distribuem a Comunhão para demonstrar valorização aos leigos. A ideia é bonita, mas o momento e o local são impróprios. A valorização consiste em se colocar com os leigos a serviço dos celebrantes, a serviço da assembleia com o maior se todos os dons: a partilha da vida Eucarística. Aliás, nada representa tão bem a vocação sacerdotal como o gesto de servir partindo o Pão e distribuindo a Eucaristia entre seu povo.
Para finalizar, lembro de um antigo axioma litúrgico que diz: aquele que partilha o pão da Palavra é o mesmo que partilha o Pão da Eucaristia. No momento da distribuição Eucarística, portanto, o local do padre não é sentado passivamente na cadeira presidencial, mas agindo ativamente no meio dos celebrantes, em atitude de serviço, distribuindo o Pão Sagrado.
Serginho Valle
Agosto 2017



2 de ago de 2017

Convite para a Comunhão

Depois da secreta da comunhão, e isto significa após um momento de silêncio, o padre apresenta o Corpo do Senhor e convida os celebrantes a se aproximarem da Mesa Eucarística. 
É um rito muito simples, quase silencioso. O padre conclui a secreta da comunhão, faz a genuflexão diante do Santíssimo e o apresenta aos celebrantes com uma formula de convite para comungar a Eucaristia. Depois o padre comunga o Corpo e o Sangue do Senhor. 
O Missal Romano propõe seis formulas para o convite. A mais conhecida é: "Felizes os convidados para a Ceia do Senhor". Logo em seguida, o padre apresenta o Corpo de Cristo dizendo: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". Os celebrantes participam dizendo: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo"

Fórmulas Bíblicas
Facilmente percebido, trata-se de convites inspirados na Bíblia, especialmente no Evangelho e no Sl 34. Propostas que se inspiram na “Ceia do Senhor” (Mt 26,26-29; 1Cor 10,14-22 e outros textos); aclamação da assembléia inspira-se no encontro de Jesus com o centurião romano (Mt 8,8). As demais fórmulas contendo as expressões: “banquete nupcial do Senhor” (Mt 22,1-4); “luz do mundo” (Jo 8,12); “minha carne e meu sangue” (Jo 6,56); “bondade divina e refúgio no Senhor” (Sl 34,8); “pão vivo” (Jo 6,51). Todas os convites, como dito, de inspiração Bíblica e relacionados ao contexto Eucarístico.

Outras formulas para o convite  
As propostas dos convites no Missal indicam duas direções para a criatividade litúrgica em vista de compor outros convites. A primeira, que os convites tenham inspiração Bíblica, prevalentemente evangélica. Neste sentido, excluam-se convites de cunho emocional, como por exemplo: "vejam quem está aqui como prova de amor por nós." Não comporta igualmente monições, feitas em modo de reflexões, pedindo para fechar os olhos, abrir coração... O rito que convida para comungar a Eucaristia é um rito em forma de convite e, como é característico dos convites litúrgicos, são ritos breves, isto é, feito apenas por um convite e com um convite.
Quer dizer que é preciso, então, limitar-se às formulas do Missal? Diria que não, porque o Missal, de modo implícito, oferece uma pista para se criar outras fórmulas de convites. Isso significa, do ponto de vista litúrgico,  formular o convite para a comunhão inspirando-se no Evangelho do dia. Tal prática fundamenta-se na relação que a Mesa da Palavra mantém com a Mesa Eucarística. Aquilo que foi comungado na Palavra é comungado na Eucaristia. Um modo de estabelecer tal relação é evocando o Evangelho, transformando-o em convite para a Comunhão. 
Suponhamos que a celebração esteja proclamando o Evangelho do Bom Pastor. O convite poderá ser formulado com a palavra de Jesus: "eu sou o bom pastor". Ou se o Evangelho for a parábola do Pai Misericordioso. O convite poderá ser feito do seguinte modo: "na casa do meu pai tem comida em abundância"
Com criatividade litúrgica é possível unir facilmente a Mesa da Palavra com a Mesa da Comunhão através do convite para comungar o Pão e o Vinho Eucarísticos.
Serginho Valle 

Julho 2017  

28 de jul de 2017

Liturgia e vocação

Minha proposta é considerar as celebrações litúrgicas de agosto 2017 a partir do contexto vocacional, considerando que agosto é um daqueles meses temáticos instituídos pela CNBB, dedicado às vocações.
            Toda vocação, do ponto de vista de Bíblico, consiste basicamente em três movimentos: o chamado divino, o tempo da escuta e a resposta pessoal. Mesmo havendo casos em que a escuta pareça inexistente, sempre existe um momento para interrogar, como é o caso da vocação de Maria, a Mãe de Jesus. Ela foi chamada por Deus, escutou e questionou a proposta divina e, depois disso, deu sua resposta definitiva acolhendo o chamado. Este é um tema que mantém relação com a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
É um dado importante considerar estes três movimentos — chamado, escuta e resposta pessoal — para não se correr o risco de precipitação, em se querer responder de maneira apressada. Deus chama e dá um tempo para que a pessoa decida. Não existe, portanto, uma obrigação, mas sempre a liberdade de optar entre aceitar ou não aceitar. O papel da Liturgia, através das celebrações, é fazer memória das respostas vocacionais presente na Palavra que a Eucaristia propõe nos Domingos de agosto.

Como estes três momentos estão presentes nas celebrações do mês vocacional 2017

Chamado divino
            Existe um chamado vocacional, da parte de Jesus, ao escolher três de seus discípulos para que subissem com ele no Monte Tabor (Domingo da Transfiguração). É a dimensão do chamado como escolha pessoal, da parte de Deus e, de certo modo, escolha privilegiada. Nem todos são chamados, apenas alguns. Um chamado de destaque é aquele feito a Pedro, quando recebe a missão de ser “pedra”, fundamento da Igreja de Jesus Cristo (21DTC-A).
O chamado divino costuma ser com uma linguagem marcada pela serenidade. O exemplo está no modo como Deus entra em contato com Elias: não através de tempestades e trovões, mas pelo vento suave de uma brisa. É o que celebramos no 19DTC-A. Esta mesma experiência de chamado pela serenidade aconteceu na vocação de Maria Santíssima, na Anunciação.

Tempo da escuta
            O segundo movimento da experiência vocacional é o tempo da escuta. O cenário vocacional da Transfiguração sugere que este tempo necessita ser vivenciado na contemplação. É o vocacionado que sente o chamado, mas precisa distanciar-se do mundo, como fez Jesus com seus três discípulos, para silenciosamente contemplar e ouvir Deus falando com outros vocacionados: Abrão, Moisés e Elias. Escutar através da contemplação é um modo de não responder à vocação somente pelo entusiasmo, mas entendendo a necessidade de ter tempo para si antes de responder.
            Elias é o vocacionado que treme de medo e foge (19DTC-A). Mas Deus o busca e o toca com sua brisa suave. Elias é aquele vocacionado que (podemos dizer) tem medo do chamado divino e se esconde. Com esse tipo de vocacionado, Deus não se serve da força e nem de ameaças, mas o conforta e o fortalece com a ternura de uma brisa suave fazendo-se presente em seu coração. É a experiência mística pela qual todo vocacionado passa.
            Já fizemos referência ao tempo de escuta da Virgem Maria. Um tempo de escuta que representa aquele vocacionado que questiona Deus, que precisa de algumas explicações, que necessita de confirmações. Escuta, mas questiona. Toda experiência vocacional passa por um momento de questionamento.
            O terceiro exemplo está em Pedro. É chamado e o seu tempo de escuta dura três anos de convivência. É o vocacionado que convive por muito tempo com Jesus até ter a certeza que, de fato, é o Senhor que o chama (21DTC-A). A vocação de Pedro representa a necessidade de conhecer profundamente o chamado através da convivência com Jesus.

Resposta pessoal
            A vocação, por fim, é sempre resposta pessoal. Ninguém responde em meu lugar. Quando Jesus chama Pedro, Tiago e João para subir com ele a montanha, eles respondem com a sua presença com o seu corpo (Transfiguração). Quando Deus chama Maria para ser a Mãe de Jesus, ela responde com sua presença e com o seu corpo (Assunção). Quando Deus chama Elias, ele responde com sua presença (19DTC-A), o mesmo acontecendo com Pedro, ao ser instituído fundamento da Igreja de Jesus Cristo (21DTC-A). Não existe, em resumo, reposta vocacional que não envolva a pessoa fisicamente.


Dúvida e medo da resposta vocacional
            A dúvida e o medo fazem companhia na vida do vocacionado e são, por assim dizer, normais na dinâmica vocacional do chamado – escuta – resposta pessoal. Verificamos isso nos personagens com os quais celebraremos a Liturgia, neste mês de agosto 2017.
            Na vocação da Virgem Maria, o evangelista relata que ela ficou assustada e foi acalmada pelo anjo: “não temas Maria!”. Já fiz referência ao medo de Elias, que foge da cidade para se esconder de Deus. Tem ainda o medo de Pedro, ao ser chamado para caminhar sobre a água (21DTC-A).
            O elemento “dúvida”, no afundamento de Pedro, é um dado interessante no processo vocacional, não pela dúvida em si, mas por aquilo que se contrapõe à dúvida: a fé como confiança. Confiar em responder afirmativamente, porque se Deus chama, ele sempre estenderá a mão para que a pessoa não se afunde no medo.  
Serginho Valle

Agosto 2017

15 de jul de 2017

Secreta da comunhão

A oração “secreta” dos ritos preparatórios para a Comunhão Eucarística obedece a mesma função, a mesma finalidade e a mesma dinâmica das outras orações secretas já avaliadas aqui no blogger. Trata-se de uma oração silenciosa feita exclusivamente pelo padre. O Missal Romano propõe duas fórmulas para a secreta antes da comunhão.

Conteúdo oracional
            A primeira secreta é dirigida a Jesus Cristo, reconhecendo que ele é o Filho do Deus vivo, aquele que realizou plenamente a vontade do Pai. O texto faz uma breve anàmnesis (memorial), que se conclui reconhecendo que toda a ação salvadora de Jesus Cristo, em favor da humanidade, foi realizada juntamente com o Espírito Santo. Quer dizer, o Espírito divino age e colabora na ação salvadora de Jesus Cristo. Faz-se memória, em outras palavras, da Salvação como obra Trinitária.
A segunda parte desta primeira secreta apresenta, sempre em forma memorial, o modo como Jesus oferece a Salvação divina à humanidade e como ele a realizou através da sua morte, na Cruz. Esta é tratada como árvore que produz frutos de vida nova.
Por fim, a parte conclusiva é aquela intercessora, suplicando o perdão dos pecados, o livramento do mal e da maldade e a graça de, “pela comunhão do vosso Corpo e pelo vosso Sangue”, ser capaz de viver sempre fazendo a vontade divina, a exemplo do próprio Jesus que viveu fazendo a vontade do Pai.
A segunda fórmula da secreta antes da comunhão é mais breve e tem uma linguagem mais objetiva, toda formatada num contexto suplicante. Dirige-se a Jesus Cristo, presente no Sacramento Eucarístico, diante dos olhos do padre, portanto, intercedendo que a Eucaristia — Corpo e Sangue do Senhor — não seja motivo de condenação, mas sustento e remédio para a vida. É uma dimensão que pode ser relacionada com a missão sacerdotal, enquanto sustento para a vida e caminhada do sacerdote em sua atividade evangelizadora, pela qual anuncia a Salvação divina.

Comunicação litúrgica
            Do ponto de vista da comunicação litúrgica, o rito da secreta antes da comunhão é realizado pelo padre com a participação e a sustentação orante silenciosa dos celebrantes. É um rito silencioso e cumpre a função de fazer uma pausa silenciosa antes de se aproximar da Mesa Eucarística. Por isso, a realização deste rito por toda a assembléia rompe o propósito de silenciar antes da comunhão e introduz a “falação”.
            Por que somente o padre? Do ponto de vista espiritual, o padre reconhece-se beneficiado da graça de alimentar sua vida pessoal e sacerdotal (que deve ser uma unidade) e intercede o dom da santidade, isto é, a participação na vida divina. Claro que isso é compatível igualmente para os celebrantes, mas no caso específico, o padre como que refaz sua vocação, ele que recebeu a Ordenação para alimentar o povo com a mesma vida divina que tem em suas mãos, no Pão e no Vinho Eucaristizados. A esse momento, os celebrantes se unem com a oração pessoal silenciosa, preparando-se para a comunhão Eucarística.
Serginho Valle

2017
Postagens mais antigas → Página inicial