26 de abr de 2017

Oração Eucarística 5 – comunicação gestual

Como em todos os ritos litúrgicos, a Oração Eucarística também conta com expressões corporais, feita com gestos e com posições do corpo. Expressões comunicativas para favorecer quem preside a Oração Eucarística e, ao mesmo tempo, mensagem para quem dela participa através do silêncio e, igualmente, participante da comunicação gestual. Isto significa que, no processo comunicativo da gestualidade, o presidente da celebração poderá estar comunicando-se de modo orante ou, poderá promover ruídos, quando os gestos perdem a força comunicativa por se tornarem mecânicos.
A maior parte dos gestos, na Oração Eucarística, é realizada pelo presidente da celebração. Todos são gestos orantes, como estar em pé, levantar os braços, inclinar-se   bater no peito (Oração Eucarística 1), fazer genuflexão, apresentar e elevar ofertorialmente o Corpo e Sangue do Senhor... Deste ponto de vista, o proclamador da Oração Eucarística reza com palavras e com gestos; com gestos que correspondem às palavras e significados simbólicos, de onde a necessidade do conhecimento da gestualidade litúrgica para uma boa e eficiente comunicação litúrgica e celebrativa.


De pé  
Iniciemos com a posição gestual de estar de pé, tanto da parte de quem preside como dos demais celebrantes. É o gesto mais utilizado na comunicação celebrativa e conta com um significado muito rico, especialmente aplicado à Oração Eucarística.
O sentido e o significado de estar de pé inspiram-se no livro do Apocalipse, onde se lê: “Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: A salvação é obra de nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro.” (Ap 7,9-10).
O texto indica que os celebrantes participam da mesma adoração prestada ao Cordeiro vitorioso, com a diferença de os santos e santas estarem diante do trono do Cordeiro e de nós, aqui na terra, estarmos diante do mesmo Cordeiro, mas de modo sacramental. Também nós fomos revestidos com a veste branca, no dia do Batismo, o que nos dá o direito de adorar o Cordeiro Pascal de pé e, juntamente com toda a Igreja, aquela gloriosa (que está no céu) e Igreja militante (nós na terra), cantar a santidade do Cordeiro vitorioso.
Além disso, esse texto do Apocalipse descreve a posição natural de quem é ressuscitado em Jesus Cristo e recebeu a veste branca da filiação divina. Diz o texto do Apocalipse  que eles estavam de pé, diante do Cordeiro, em adoração. O estar de pé é, portanto, posição adorante, de onde ser estranho ao contexto celebrativo da Oração Eucarística, ficar ajoelhado durante toda a Oração Eucarística, embora tal possibilidade esteja prevista na IGMR 43 onde isso for costume.


Ajoelhar-se 
O gesto de ajoelhar-se, realizado pelos celebrantes, no momento da consagração aparece, na História da Liturgia Roma por volta do século XII, num tempo em que a Eucaristia passou a ser considerada mais do ponto de vista devocional que memorial celebrativo do Mistério Pascal de Jesus Cristo. Foi um tempo histórico, no qual havia preocupação exagerada em ver o "milagre Eucarístico" e não tanto em celebrar a Eucaristia como alimento para a vida humana, em Cristo.
Foi nesta época, também, que se introduziu o toque da sineta para avisar o momento de se ajoelhar diante do Santíssimo. Introduziu-se igualmente a apresentação dos dons consagrados para serem adorados pelos celebrantes. Nenhum destes gestos existe na Liturgia Eucarística Oriental.
A reforma litúrgica (1963) cogitou e procurou reformular a gestualidade do ajoelhar-se com a proposta de se ficar de pé no decorrer de toda a Oração Eucarística, mas se preferiu continuar com o ajoelhar-se, de acordo com as tradições de quase todos os povos da terra. A já citada IGMR 43 estabelece que as Conferências Episcopais determinem a posição de ajoelhar durante a Oração Eucarística, de acordo com a índole de cada povo.


Braços abertos
Dos gestos presidenciais, o mais utilizado é a oração de braços abertos, um gesto orante, vindo do modo hebreu de rezar e, presente na Liturgia Romana e igualmente naquela Oriental.
A Oração Eucarística é proclamada, da parte do padre que a preside, na sua maior parte, com os braços abertos, em posição orante. Já tive oportunidade de mencionar em outro texto que o gesto orante dos braços abertos tem o belo significado de se apresentar totalmente livre, aberto e disponível diante de Deus.
Quanto ao gesto orante, na tradição litúrgica, este não se caracteriza como oferente, ou seja, com as mãos estendidas para o alto, em posição de quem oferece alguma coisa, mas com os braços erguidos ao longo do corpo e com as mãos espalmadas para frente, deixando o peito aberto diante de Deus. Mas, o fato de rezar com as mãos abertas em atitude orante não significa nenhum desvio litúrgico. Estou apenas ressaltando a postura tradicional orante com os braços abertos.


Imposição das mãos 
A imposição das mãos é o gesto típico da invocação do Espírito Santo, caracterizado no meio teológico litúrgico como gesto epiclético. O padre impõe as mãos acompanhado de uma oração invocativa ao Espírito Santo, para que Deus envie seu Espírito divino e consagre o pão e o vinho em Corpo e Sangue do Senhor.  


Apresentação do Corpo e Sangue do Senhor
Um dos gestos mais característicos da Oração Eucarística é a apresentação do Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor aos celebrantes. Uma prática, como mencionado indiretamente no item sobre “ajoelhar-se”, introduzida na Liturgia Eucarística a partir do século XII, fruto de um crescente devocionalismo para com a Eucaristia.
Já comentado em outra oportunidade, a IGMR 179 orienta a apresentar o Sacramento à assembléia e não ostentar. O mesmo se lê na rubrica 91 da Oração Eucarística I: “Hostiam consacratam ostendit populo”, traduzido pela CNBB: “mostra ao povo a Hóstia consagrada”. As rubricas propõe a apresentação simples e não se contempla o erguer, o elevar o Pão e o Vinho consagrados, ou girando-o para todos os lados da igreja e, menos ainda, o que pode ser qualificado como exagero, caminhar pela igreja com o Corpo e Sangue do Senhor. A adoração ao Santíssimo, na Eucaristia, é silenciosa em todos os sentidos, inclusive na gestualidade. A elevação do Pão e do Vinho consagrados são considerados somente para o gesto ofertorial, no “Per ipsum” como orientado pela rubrica 100 do Missal Romano.


Genuflexão 
A genuflexão é um gesto presidencial, feito depois da consagração do pão e do vinho. Já dediquei uma reflexão sobre este gesto tratando da “homenagem ao Sacramento”. Na prática consta de um gesto de adoração diante do Senhor sacramentado, verdadeiramente presente no Pão e no Vinho Eucaristizados, consagrados, pela presença e pela ação do Espírito Santo.


Inclinar-se
            A inclinação tem dois aspectos. O primeiro deles é contextualizado no mesmo sentido e significado da genuflexão. Isto é visível nas concelebrações: depois da consagração do Pão e do Vinho, quem preside a Oração Eucarística faz genuflexão e os demais concelebrantes fazem inclinação profunda, aquela inclinação feita com o corpo e não somente com a cabeça.
            O segundo aspecto encontra-se no gesto de inclinar-se prescrito na Oração Eucarística I, mas não nas demais Orações Eucarísticas. A inclinação acontece no “supplices te rogamus” — “nós vos suplicamos” —. A rubrica 96 instrui o presidente a unir as mãos e inclinar-se para suplicar que a oferta da Igreja — o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo — seja levada até a presença de Deus Pai. Uma inclinação orante, podemos dizer.


Sinal da Cruz sobre si mesmo
            Nesta mesma parte da Oração Eucarística I, no “supplices te rogamus”, quem preside a Oração Eucarística conclui este momento, erguendo-se da inclinação traçando o Sinal da Cruz sobre si mesmo dizendo “sejamos repletos de todas as graças e bênçãos do céu”. Um gesto que foi mantido pela reforma da Liturgia (1963) com o sentido de que a participação na Eucaristia, comungando a Eucaristia, como diz o texto, é fonte da bênção e da graça da Salvação.


Bater no peito
            Outro gesto da Oração Eucarística I, contemplado na rubrica 98, é o gesto de bater-se no peito. Acontece no momento do “nobis quoque peccatoribus” — “e a todos nós pecadores” —. É um gesto de humildade e de reconhecimento de ser pecador diante de Deus e diante de todos os celebrantes.


Gesto ofertorial  
Outro gesto da Oração Eucarística, este na conclusão da mesma, é o gesto ofertorial, quando o padre toma o Pão e o Vinho consagrados — Corpo e Sangue do Senhor — e, como orienta a rubrica 100 (elevans) eleva, ergue e oferta os dons da Igreja ao Pai. É a oferta do sacrifício da Igreja. É a Igreja ofertando ao Pai o próprio Corpo e Sangue de Jesus Cristo, ao que a assembléia participa com o grande e solene amém. 
O rito que comumente se chama de “ofertório”, na Liturgia, é designado como “preparação e apresentação das oferendas”. Ora, isso ajuda-nos a compreender que o verdadeiro ofertório da Missa acontece na conclusão da Oração Eucarística, quando, então sim, a oferta da Igreja, isto é, o próprio Jesus Cristo é oferecido ao Pai, dizendo “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém”
Sergio Valle
2017



12 de abr de 2017

Ministério da ornamentação no Tríduo Pascal

O Ministério da Ornamentação tem muito trabalho na semana santa. Não só devido ao aumento das celebrações, mas também porque cada celebração exige um cuidado especial e um esmero apurado na preparação e sistematização do espaço celebrativo para cada celebração do Tríduo Pascal em particular. Afinal, trata-se do momento culminante da Liturgia: a celebração anual do Mistério Pascal de Jesus Cristo.
            Minha intenção é chamar atenção para alguns elementos da preparação do espaço celebrativo do Tríduo Pascal em cada celebração.

Quinta feira santa 
A celebração pascal inicia-se na quinta-feira Santa com a celebração da Missa "in Coena Domini". É a celebração da Ceia do Senhor com um contexto que celebra a Instituição da Eucaristia, o Mandamento Novo e o Ministério sacerdotal. 
Existem alguns arranjos e símbolos contextuais tradicionais para esta celebração, considerando os símbolos Eucarísticos do pão e do vinho, juntamente com o símbolo do lava-pés, indicando o serviço e a fraternidade.
Claro que tais símbolos não podem ser considerados fixos. Sempre existe a possibilidade de colocar a criatividade em ação e criar uma nova simbologia para expressar a Eucaristia relacionada ao amor e ao serviço cristão. 
Outra atividade do ministério da ornamentação, na Quinta-feira Santa, é a preparação da capela da reposição,  onde o Santíssimo é colocado para a adoração dos fiéis após a conclusão da Missa. A capela da reposição é preparada, preferencialmente, fora da igreja, e sistematizada para ser uma capela de adoração; preparada exclusivamente para adorar o Senhor no Sacramento da Eucaristia. Isto significa ceia um espaço acolhedor e propicio para a oração adorante e silenciosa.

Sexta-feira Santa 
O espaço celebrativo da Sexta-feira Santa é o espaço mais despojado que existe nos contextos celebrativos da Liturgia cristã católica. Um espaço feito de silêncio total para que a celebração aconteça totalmente envolvida no silêncio, como é próprio da celebração da Sexta-feira Santa. 
O espaço conta com o altar, o ambão e a credencia desnudados, isto é, sem nenhuma toalha ou algum véu sobre estes móveis. A celebração, igualmente, não contém nenhuma flor, nem folhagem e nenhum tipo de símbolo especial, exceto o maior e único símbolo da Sexta-feira Santa: A Cruz de Jesus Cristo. Cruz que não se encontra diante dos celebrantes no início da celebração, uma vez que a mesma entrará solenemente para o rito da adoração da Cruz.

Sábado santo  
Diferentemente do espaço da sexta-feira Santa, caracterizado pelo despojamento total, o espaço da Vigília Pascal  prima por ser a celebração mais rica em simbologia de toda a Liturgia cristã católica. Sendo rica simbolicamente, entende-se que a mesma ocupe diferentes espaços celebrativos.
Muitos seriam os símbolos a considerar na Vigília Pascal. Dado a finalidade da minha reflexão em primar pela brevidade, vou distinguir apenas quatro.

Fogo novo
O primeiro símbolo é o fogo novo.  Um símbolo que gosto de definir como “vivo”. Preparado fora da igreja, o fogo novo tem a finalidade de simbolizar a luz da Ressurreição de Jesus na terra envolvida pela escuridão da noite. Por isso, deve ser vistoso e não pode, em hipótese alguma, ser substituído por um “foguinho” feito num fogareiro ou num latão, mais com a finalidade prática de acender o Círio Pascal e ter brasas para o turibulo, que realmente significar o esplendor luminoso da Ressurreição de Jesus iluminando a terra. Não há necessidade de se preparar uma “fogueira de São João”, mas um símbolo que seja digno naquilo que simboliza: a exuberante luz da Ressurreição de Jesus que acende a escuridão da terra, envolvida em trevas.

Círio Pascal
            Outro símbolo, o mais conhecido de todos, é o Círio Pascal. Não se trata, apenas, de uma “vela grande”, uma vez que simboliza a “coluna luminosa” que, vitoriosamente, é erguida qual troféu vencedor da vida sobre a morte. Uma coluna luminosa que vai à frente do povo, iluminando o caminho da vida nova que vem da Ressurreição de Jesus, e conduz o mesmo povo para o interior da nova Jerusalém, simbolizada no espaço celebrativo da igreja.
            É uma coluna de cera, como definido no canto do “Exultet” com a finalidade de ser consumido no decorrer de todo o Ano Litúrgico, especialmente nas celebrações sacramentais. É o símbolo da Páscoa, da passagem de Jesus que se doa (se consome pascoalmente) especialmente nas celebrações sacramentais.
            Diante de tão rica simbolização e riqueza de significados, é simplesmente inconcebível que o mesmo seja substituído por imitações grotescas, como aquelas feitas de canos de pvc. A riqueza simbólica do Círio Pascal, enquanto sacramento da Ressurreição de Jesus, merece que o mesmo seja digno, bonito, vistoso e verdadeiro.

Água
            O terceiro símbolo que destaco é a água. A simbologia Bíblica da água tem merecido longos comentários em livros e em teses de doutorado. É, liturgicamente falando, um símbolo importante e, enquanto tal, merece destaque.
            A água simboliza o Espírito Santo que purifica quem nela é banhado no Batismo e, igualmente, indica a renovação da vida, como simbolizado nas águas do dilúvio, e na passagem (Páscoa) para a liberdade, como na passagem do Mar Vermelho. As referências da simbologia Bíblica são muitas, de onde a necessidade e a importância de ser tratada como um símbolo importante na Vigília Pascal.
            É valorizada no local onde será disposta, de preferência no presbitério, do lado oposto à Mesa da Palavra, sobre um suporte devidamente preparado, e colocada num vaso ou num jarro grande, bonito e transparente.

Flores
            Por fim, um quarto elemento a ser destacado: as flores. Na Vigília Pascal, as flores não são apenas enfeites para tornar o espaço celebrativo mais bonito, embora cumpram também esta função. As flores estão no espaço celebrativo da Vigília Pascal também como símbolo da natureza em festa. Toda a criação é renovada com e através da Ressurreição de Jesus e são as flores (em algumas comunidades também frutos e frutas da terra) que representam este renascer da criação. Isto está ligado também ao fato de a Páscoa ser celebrada, no hemisfério norte, durante a Primavera, quando a natureza se renova e floresce.
            Diante disso, um belo e exuberante arranjo de flores deveria estar no presbitério, ou ser ali colocado na procissão ofertorial, na preparação do altar, como representante digno da criação que é renovada pela Ressurreição de Jesus.
Serginho Valle
2017


10 de abr de 2017

Catequese litúrgica - Semana Santa e Tríduo Pascal

No calendário do Ano Litúrgico, na conclusão do Tempo Quaresmal, celebra a Semana Santa e dá início ao Tempo Pascal. Um tempo que propõe uma espiritualidade riquíssima, considerando que a celebração da Páscoa é o centro, o ápice e a fonte de todo o Ano Litúrgico e toda a atividade da Igreja. 

Domingo de Ramos e dias feriais da Semana Santa
O início da Semana Santa acontece com a Procissão de Ramos e com a celebração da Eucaristia, na qual se lê a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o motivo, pelo qual o Domingo de Ramos é também conhecido como Domingo da Paixão. Um Domingo com a característica de ser uma espécie de sala de ingresso para se adentrar na Semana Santa, composta dos seguintes elementos: o acolhimento de Jesus com ramos e palmas, celebrando-o como Cristo Rei; em seguida, a realização da Salvação divina no trono da Cruz e no gesto sacerdotal de ofertar a própria vida para a remissão dos pecados; para a Salvação da humanidade.
Desta forma, o Domingo de Ramos é convite para contemplar a Cruz de Jesus Cristo como trono do amor divino, mas também como local do sofrimento de milhares de pessoas, em toda a terra, violentados nas mais diferentes formas de cruzes, presentes na sociedade atual. Na contemplação da Cruz de Jesus, podemos considerar a figura humana de um abandonado, que é o Filho de Deus, para compreender a grandeza do amor divino para com a humanidade.

Celebrações feriais da Semana Santa
As celebrações feriais da Semana Santa, aquelas celebrações que acontecem nos dias da semana, de segunda a quarta-feira, mais especificamente, fazem memória dos últimos dias de Jesus, com destaque especial para a traição de Judas Iscariotes. Na pessoa de Judas se concentra uma humanidade negadora da proposta divina, que se apega ao ídolo do dinheiro, capaz de vender e matar até mesmo o Deus salvador.
Além dessas celebrações, inclua-se também a celebração da Quinta-feira Santa, na parte da manhã, na qual se celebra a Missa Crismal. Uma celebração solene — belíssima pela riqueza simbólica que contém — na qual se realiza a bênção dos Santos Óleos — dos Catecúmenos, dos Enfermos — e, preste-se atenção ao termo, a consagração (não apenas uma bênção) do Santo Crisma, Óleo Crismal, sacramento do Espírito Santo. A celebração da Quinta-feira Santa, na parte da manhã, é uma celebração que reúne festivamente toda Igreja particular (diocese), do bispo com seu presbitério, seu diaconato, os religiosos e todos os fiéis leigos. Nesta Missa os sacerdotes renovam suas promessas sacerdotais, uma vez que a Quinta-feira Santa é o verdadeiro “Dia do Padre”.

Tríduo Pascal
Depois, inicia-se o Tríduo Pascal com a Missa vespertina denominada “In Coena Domini” (Missa da Ceia do Senhor). Uma celebração que faz memória da Instituição da Eucaristia, do serviço de Jesus Cristo, simbolizado no gesto do lava-pés, e na entrega do Mandamento Novo aos discípulos e discípulas do Evangelho.
Do ponto de vista Teológico, a Última Ceia é antecipação do que o Senhor realizaria na Cruz. Por isso, gosto de dizer que em vez de se chamar de “Última Ceia”, bem que poderia ser denominada como “Primeira Ceia”, uma vez que Jesus realiza, pela primeira vez, de modo sacramental, isto é, com os símbolos sacramentais do pão e do vinho, a mesma entrega do seu Corpo e Sangue para nos salvar. Se a Cruz é o altar da entrega definitiva de Jesus, o altar da Eucaristia é, sacramentalmente falando, o próprio Jesus entregando-se na Cruz para remissão dos pecados. Assim, entende-se que a celebração da Quinta-feira Santa é a oferta da vida de Jesus no altar da Eucaristia.
A celebração da Quinta-feira Santa não se conclui com a bênção final, como nas demais celebrações Eucarísticas. Passa, assim, uma mensagem de algo inacabado, necessitado de continuidade. E, de fato a continuidade acontece com a celebração da Sexta-feira Santa, realizada às 15hs00 que, segundo os relatos evangélicos, é a hora da morte de Jesus. Também este horário é simbólico; é sacramental. No meio da tarde, a vida social e vida pessoal param e todos se dirigem à igreja da comunidade para celebrar a Morte e a Paixão de Nosso Senhor.
A celebração da Sexta-feira Santa caracteriza-se como uma celebração totalmente silenciosa. Quase nenhuma canção e total ausência de instrumentos musicais. Quando cantar, não se cantar a plenos pulmões, mas se canta de modo aquietado, não para sofrer, mas para respeitar o momento supremo do Filho de Deus que morre para nos salvar. Uma celebração para silenciar respeitosamente diante do grande Mistério que é a Morte de Jesus, na Cruz. Também esta é uma celebração que se conclui sem a bênção final. Também este final é indicativo de uma celebração inacabada, porque deverá continuar no dia seguinte, na noite da grande e solene Vigília Pascal.

Vigília Pascal
O Tríduo Pascal é concluído com a Vigília Pascal, a mais importante, a mais solene, a mais rica de todas as Vigílias da Igreja. Riqueza de conteúdo espiritual e riqueza de ritos litúrgicos. É a celebração de chegada, digamos assim, da Igreja, que celebra sua Páscoa em três momentos — na Quinta-feira Santa, na Sexta-feira Santa e no Sábado Santo —. Três celebrações distintas, mas que formam uma única celebração, celebrando um único e grande Mistério: a Páscoa de Jesus Cristo.
Em continuidade a celebração de Sexta-feira Santa, que se conclui no mais profundo silêncio, a Vigília Pascal inicia-se silenciosamente, ao redor do Fogo Novo, fora da igreja. É símbolo de uma comunidade que se reúne à luz da Páscoa de Jesus Cristo que, na escuridão da noite, ilumina o mundo com uma nova luz. É a Igreja que caminha guiada pela nova luz — a Luz de Cristo — como assembléia para o interior da igreja, onde ouvirá solenemente o grande “Exultet”, a grande proclamação da Páscoa. Na Vigília Pascal, temos uma Igreja que se coloca em escuta da História da Salvação, numa longa e bem organizada Liturgia da Palavra, até explodir de alegria, cantando o solene e tradicional “Allelluia Paschalis”, acompanhado por todos os instrumentos e pelo repicar de sinos e sinetas. Depois, a renovação das promessas batismais e a Eucaristia, onde nos alimentamos com a Vida Nova da Páscoa de Jesus Cristo.
Serginho Valle

2017

7 de abr de 2017

Símbolo contextual para o Domingo de Ramos

Recordo como defino aquilo que denomino de "símbolo contextual": trata-se daquele símbolo que é feito para um determinado contexto celebrativo ou para um determinado tempo litúrgico, como é o caso da Semana Santa. É uma atividade do Ministério da Ornamentação que exige reflexão e conhecimento do contexto celebrativo para criar um símbolo contextual digno e relevante em sua mensagem comunicativa em uma celebração especifica. Um bom exemplo disso é a celebração do Domingo de Ramos.
            A celebração do Domingo de Ramos reúne dois contextos diferentes, mas concordes entre si. No primeiro contexto, a entrada de Jesus em Jerusalém e, no segundo contexto, a Eucaristia com a leitura da Paixão de Jesus. Dois contextos que definem igualmente duas terminologias para este Domingo: Domingo de Ramos e Domingo da Paixão. 
Domingo de Ramos presente na primeira parte da celebração, na qual o Evangelho dos ritos iniciais e da procissão descreve Jesus entrando em Jerusalém e sendo aclamado pelo povo com ramos nas mãos. Já, o Domingo da Paixão é assim denominado porque se lê a Paixão de Jesus na Liturgia da Palavra da Missa. 
Dois contextos bem definidos, que podem ser simbolizados contextualmente com dois símbolos próprios, ou, simbolizados por um único “símbolo contextual.” 
Um símbolo contextual poderá ser preparado no local onde acontecem os ritos iniciais, que normalmente é fora da igreja. A simbolização, neste caso, poderá ser feita com ramos e fitas vermelhas, por exemplo.
No segundo momento, a celebração Eucarística que acontece dentro da igreja, este poderá contar com um símbolo contextual realizado com ramos em volta de uma Cruz. Ou ainda, com ramos trabalhados artisticamente, formando uma grande Cruz. A criatividade do Ministério da Ornamentação deverá ser livre para exercer seu trabalho com uma vasta possibilidade de criar um belo e expressivo símbolo contextual, considerando os dois contextos celebrativos deste Domingo seja separadamente seja conjuntamente.
Serginho Valle
2017 


5 de abr de 2017

Oração Eucarística 4 - O silêncio

A proposta de reflexão, como em outros artigos, ilumina-se no contexto processual da comunicação litúrgica, no momento da Oração Eucarística. Neste contexto comunicativo da Oração Eucarística, o silêncio é elemento fundante (que dá fundamento) sobre o qual acontece a Oração Eucarística. Considero isso com dois elementos: um teológico e outro comunicativo. 

Silêncio na Teologia Litúrgica
Do ponto de vista da Teologia Litúrgica todo momento e todo espaço silencioso, no decorrer da celebração litúrgica, é momento e manifestação do Espírito Santo. O rito da imposição das mãos, na Ordenação Sacerdotal, por exemplo, é realizado no mais completo silêncio. O mesmo silêncio é prescrito na invocação do Espírito Santo em todos os sacramentos. O mesmo princípio, com efeito, é válido para a Oração Eucarística. O Espírito Santo é silencioso, como caracterizado em um de seus símbolos: o sopro divino. O mesmo sopro, que não se ouve, mas que silenciosamente nos toca e o sentimos, como descrito no Evangelho proclamado no dia de Pentecostes, quando Jesus entra no cenáculo e sopra para, silenciosamente, colocar o seu Espírito Divino na vida dos Apóstolos (Jo 20,19-23).
Neste sentido, entende-se que Oração Eucarística é, basicamente, um momento epiclético. Este termo teológico-litúrgico tem a ver com “epiclesis”, palavra de origem grega que significa invocação. No conjunto da Oração Eucarística, a Igreja invoca o Espírito Santo para consagrar e transformar os dons do pão e do vinho em Corpo e Sangue do Senhor. Isto significa que não existe Consagração Eucarística sem a invocação e sem a ação do Espírito Santo. Mas, este não é um momento isolado; tal invocação acontece no conjunto de toda a Oração Eucarística. Toda Oração Eucarística, em resumo, é epiclética; é uma grande invocação ao Pai para que envie o Espírito Santo e consagre os dons da Igreja. 
E mais. Existe uma segunda epiclesis, depois da Consagração, invocando a unidade da Igreja e de todos os cristãos, pois a unidade da Igreja de Jesus Cristo é obra do Espírito divino, que a Igreja assim reconhece e por isso o invoca. 

Elemento comunicativo  
O outro elemento desta reflexão  é o processo comunicativo. Ora, em decorrência do que se disse do ponto de vista teológico, deduz-se que a proclamação da Oração Eucarística aconteça em silencio, ou seja, a Palavra da Igreja, que é também Palavra de Jesus Cristo, pronunciada no silencio da assembléia como momento de ação de graças - Eucaristia - e invocação ao Espírito Santo no mais completo silêncio. 
Recordo-me do questionamento de alguns liturgistas quando, no Brasil, se começou a introduzir as aclamações durante a Oração Eucarística. Não poucos consideravam as aclamações uma espécie de intromissão no silencio da Oração Eucarística. Os defensores, argumentando a necessidade de dinamizar a Oração Eucarística com aclamações, em vista de maior participação, venceram. Estamos diante da dificuldade de entender o silenciar e os silêncios celebrativos como modo de participar ativamente da celebração.
Mas, não considero este um caso muito grave. A intromissão de músicos que ficam dedilhando fundos musicais, isto sim é uma intromissão indevida que deveria ser retirada, onde é feita. Durante a Oração Eucarística predomina o silêncio. Especialmente, como força de expressão reforçativa, o silêncio deverá ser total na Consagração das oferendas. Simplesmente, qualquer fundo musical, qualquer tipo de oração ou de homenagem ao Sacramento, como acenado em outro artigo, torna-se  e é indevida, vista como intromissão no silêncio que é sacramento do Espírito Santo. Ou seja, não se trata de orientação ou rubrica, mas de realidade celebrativa.
Oração Eucarística é momento para silenciar, não por alguma imposição rubrical, mas porque o momento é tão divino e tão sagrado que tudo precisa calar-se, seja na assembléia como no coração de cada celebrante. 
Serginho Valle 
2017 


31 de mar de 2017

“Velatio” das imagens

A tradição de velar as imagens, na Quaresma, a partir do 5º Domingo da Quaresma, mas especificamente, vem de longa data. Os historiados litúrgicos falam de uma tradição que remonta ao século IX. Consiste em cobrir as imagens com um pano roxo e, o crucifixo, com um pano branco, antes de iniciar a Semana Santa. Hoje, não existe obrigatoriedade, mas o Diretório Litúrgico continua propondo a “velatio” das imagens a partir do 5º Domingo da Quaresma. 
O contexto, no qual nasceu a “velatio”, retornando ao século IX, era marcado pela devoção aos santos e santas de maneira muito intensa, superando inclusive a atenção para com a Eucaristia. Por isso, buscando na “velatio” um recurso didático, a Igreja pretendia chamar atenção para a centralidade da Páscoa cobrindo as imagens. 
Por que no 5º Domingo da Quaresma? De acordo com uma antiga tradição da Teologia Quaresmal, no 5º Domingo da Quaresma iniciava-se aquilo que é considerado “Tempo da Paixão”, marcada por uma atenção especial nos preparativos da Semana Santa, quando se celebra a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.
Depois da Reforma Litúrgica (1963), a maior parte das comunidades abandonou o costume da “velatio”, talvez devido a uma interpretação indevida no uso deste e de outros sinais que favoreciam a participação do povo no tempo litúrgico. Uma retomada deste costume veio com a Carta Circular “Paschalis Sollemnitatis” que, no seu parágrafo 26 diz o seguinte: “o uso de cobrir as cruzes e as imagens na igreja, desde o V domingo da Quaresma, pode ser conservado segundo a disposição da Conferência Episcopal. As cruzes permanecem cobertas até ao término da celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa; as imagens até ao início da Vigília Pascal.”
Outra prescrição semelhante a esta, ainda na “Paschalis Sollemnitatis”, no parágrafo 57 orienta como proceder a “velatio” na conclusão da Missa “n Coena Dmini”, na Quinta-feira Santa, com estas palavras: “concluída a Missa é desnudado o altar da celebração. Convém cobrir as cruzes da igreja com um véu de cor vermelha ou roxa, a não ser que já tenham sido veladas no sábado antes do V domingo da Quaresma. Não se podem acender velas ou lâmpadas diante das imagens dos santos.”

Duas considerações sobre a “velatio” em nossos dias
            A primeira consideração que faço a este costume litúrgico é considerar sua finalidade catequética: chamar atenção para a centralidade do Mistério Pascal que está para ser celebrado proximamente. Proximidade pelo fato de que a “velatio” acontece no 5o Domingo da Quaresma.  Ligado ao fator catequético, existe a disposição pedagógica, de estabelecer um sinal no contexto do espaço celebrativo como que avisando os celebrantes sobre a proximidade da Semana Santa, na qual se celebra o Mistério Pascal de Jesus Cristo. Este é um conceito que seria bom que o Ministério da Ornamentação tivesse presente.
            Minha segunda consideração sobre a “velatio” está no contexto da reflexão sobre a ornamentação do espaço celebrativo, daquilo que denomino de “símbolo contextual”.
Talvez a “velatio” não se enquadre no aspecto simbólico, porque do ponto de vista da semiologia está mais para sinal que para símbolo. Por isso, uma sinalização que anuncia a proximidade da Semana Santa. No conceito de “símbolo contextual” a “velatio” tem sim espaço para que o Ministério da Ornamentação proponha uma mensagem de atenção em vista da proximidade da Semana Santa.
Serginho Valle
2017



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