22 de fev de 2017

Oração Eucarística 1 = terminologia

A IGMR 78 define brevemente a Oração Eucarística como “centro e ápice de toda a celebração, prece de ação de graças e santificação”. Por isso, o primeiro elemento que consideramos ao tratar da Oração Eucarística é a sua qualidade de prece e, mais especificamente, oração de ação de graças e oração de santificação. Uma prece que santifica, pela ação do Espírito Santo, os dons do pão e do vinho.
Gosto de dizer que se trata do momento mais Eucarístico da Missa. Por isso, do ponto de vista comunicativo, como estou abordando as partes da Missa, é momento para silenciosamente adorar o Senhor com ação de graças, enquanto o Presidente da celebração faz Memória do Mistério Pascal de Cristo diante do Pai e diante da assembléia. 

Nomes para a Oração Eucarística
O primeiro e mais antigo nome é o mais simples. No início da Igreja, dizia-se simplesmente "EUCARISTIA", isto é, momento de dar graças diante de Deus sobre o pão e o vinho. O termo “Eucaristia” indica uma oração de louvor e de ação de graças ao Pai, realizada na Ceia do Senhor. Note-se que "Ceia do Senhor" é um dos primeiros nomes com os quais os cristãos designavam  o  que, hoje, chamamos de Missa. Assim, na "Ceia do Senhor", o momento de  ação de graças e de louvor ao Pai, era designado com o nome "Eucaristia". Termo que, com o passar do tempo, começou a designar toda a celebração.    
No mundo grego, o termo usado era "ANÁFORA", a qual continua sendo usado ainda hoje, principalmente em textos de Teologia Litúrgica e da literatura Litúrgica. Outro termo, ainda de origem grega, é “PROSFORA”. Um termo que praticamente é de pouquíssima utilização, considerado somente em alguns raros textos explicativos da Oração Eucarística.
Seja “anáfora” como “prosfora” o significado é o mesmo destacando o movimento para o alto, movimento de colocar o coração junto de Deus — “sursum corda”, diz o latim; “corações ao alto”, no nosso português. A “anáfora Eucarística”, portanto, significa o movimento de toda a assembléia litúrgica elevar louvores e ação de graças até junto de Deus, colocando o próprio coração (toda a vida e todo entendimento). Hoje, “anáfora” se tornou um termo técnico, entre os liturgistas, para designar a Oração Eucarística. 
Outros dois nomes usados, especialmente nas Liturgias Ocidentais, são “PREX”, de “prece”, de onde se encontrar o termo “prece Eucarística”. Um segundo nome, que pouco se vê, ao menos na literatura sul americana, é “ORATIO OBLATIONES” (oração sobre as oblatas, as oferendas), considerando que se trata de uma oração santificadora, oração consecratória, que realiza a consagração dos dons. Um terceiro termo que, na prática, designa somente a Oração Eucarística I, é o “CANON”, com o qual se diz “Canon Romano”.
Serginho Valle
2017


17 de fev de 2017

Ornamentação litúrgica: convite à meditação e contemplação

Ao considerar a ornamentação litúrgica faço referência a arranjos florais, símbolos contextuais e enfeites. São os elementos que compõem o espaço celebrativo, cada qual com sua função comunicativa de favorecer e dar qualidade em vista de uma melhor participação e compreensão de cada celebração Eucarística. 
Neste sentido, é importante considerar a qualificação dos membros do ministério da ornamentação, entre as quais aquela de ter, ao menos, noções gerais de harmonia estética, de composição simbólica, de noção do contexto espacial onde acontece o processo comunicativo da ornamentação litúrgica. Para isso, é interessante que a comunidade ofereça oportunidade de formação nesta área. Algumas pessoas têm bom gosto e boa vontade, mas nenhuma técnica, o que prejudica o resultado final ou pelo excesso de elementos no conjunto da ornamentação ou pela falta de elementos em vista de uma comunicação efetiva. 
O excesso de elementos deixa a ornamentação — seja o arranjo floral, seja um símbolo contextual, seja um enfeite — pesada e, por isso, antipática; em vez de promover admiração produz o ruído que deturpa ou desfavorece a mensagem. A falta de elementos numa ornamentação litúrgica passa a sensação de vazio, de algo incompleto e, também isso é promovedor de ruído. A harmonia não está, portanto, nem no excesso e nem na ausência, mas na quantidade justa. Ora isso nasce com os artistas, mas, como nem todos nascem artistas, precisam aprender a harmonizar para se comunicar através da comunicação ornamental.
Mesmo que a objetividade deva predominar, não se pode esquecer que toda obra simbólica é sempre uma “obra aberta”. A teoria da “obra aberta” não é minha; encontra-se em muitos livros na teoria semiótica de Umberto Eco. Dizer que se trata de uma “obra aberta”, significa que está exposta a diferentes interpretações. Por isso, a necessidade de que a mesma seja silenciosa aos olhos, sem a obrigação de exigir uma compreensão única de sua mensagem. É silenciosa aos olhos, isto é, capaz de produzir um efeito emocional em quem a contempla. Silenciosa e por isso, do ponto de vista simbólico, fértil em significados, rica em mensagens. 
Significa também dizer que toda “obra aberta” é convite à meditação e proposta de caminho contemplativo. Meditação e contemplação de que? Do Mistério celebrado em cada celebração Eucarística que se revela no seu contexto próprio, que é iluminada pela Palavra de cada Eucaristia. Isto significa entender que uma finalidade muito particular da ornamentação litúrgica é conduzir os celebrantes ao silencio, o local onde acontece a meditação e a contemplação. Não apenas o lado estético, de importância fundamental, mas a mensagem que se harmoniza também com o contexto celebrativo.
Para que isso seja realizável é preciso que os membros do Ministério da Ornamentação sejam participantes ativos da Equipe de Celebração, conheçam (pelo menos em traços gerais) a mensagem da homilia de cada Missa, saibam o que será cantado na celebração e os demais ritos que acontecerão. Numa palavra, o ministério da ornamentação não atua isoladamente, mas em conjunto e em comunhão com toda a Equipe de Celebração.
Serginho Valle
2017


10 de fev de 2017

Ornamentação litúrgica e mensagem visual

A ornamentação litúrgica está inserida no processo comunicativo litúrgico no contexto da mensagem visual. Enquanto tal, a arte lida com a arte de apresentar uma mensagem que seja atraente ou provocadora aos olhos com a finalidade de criar uma reação em quem a vê. A ornamentação litúrgica, em linhas breves, tem a finalidade de propor uma mensagem visual bela ou provocadora para cativar e para refletir. Não permanece, portanto, no esteticismo, embora prima por uma boa estética, mas ingressa no processo comunicativo da comunicação visual. Diante disto, o ministro da ornamentação deverá ter presente alguns elementos importantes e necessários para bem se comunicar no contexto da arte visual.        

Um primeiro elemento diz respeito a conceitos comunicativos da Liturgia, entre os quais ter presente que a celebração litúrgica não é um discurso, mas um percurso espiritual e místico iluminado pela Palavra de Deus própria de cada celebração. Neste sentido, a ornamentação litúrgica assume o papel de mensagem comunicante que favorece o percurso espiritual e místico realizado no percurso celebrativo. É a luz da Palavra, portanto, que acende a primeira inspiração de como fazer e propor uma mensagem visual, se através de um arranjo floral, se por meio de um símbolo contextual, se com um painel mais uma frase celebrativa, se a composição contará com vários elementos...
Outro elemento é compreender também que a Liturgia não é explicação, mas  experiência de encontro com Deus, numa celebração sacramental. Não se participa de uma celebração litúrgica para se falar de Deus, mas para se encontrar com Deus. E, para tal finalidade existe uma confluência de vários processos comunicativos — oral, gestual, musical, ornamental... — para facilitar e fazer com que tal experiência atinja a vida do modo mais profundo possível.
Estes dois elementos (mas existem muitos outros) servem para abrirmos nossa conversa quanto a compreensão da atividade do ministério da ornamentação, na Liturgia, como um processo comunicativo a serviço da celebração litúrgica em vista da participação plena e consciente dos celebrantes. Um serviço a ser realizado com humildade e em espírito de colaboração tendo em vista o favorecimento da comunicação litúrgica de cada celebração.
Serginho Valle 
2017 


8 de fev de 2017

Incensação das oferendas

A incensação das oferendas, do ponto de vista comunicativo, oferece ao rito da apresentação e preparação das oferendas uma mensagem de solenidade. Por isso, se a incensação não for possível em todas as celebrações, ao menos naquelas mais solenes e festivas e, em pelo menos, numa das Missas Dominicais, seria bom realizá-la 
A incensação sempre existiu nos mais diferentes cultos e cerimônias religiosos. Os historiadores da Liturgia anotam que a incensação passou a fazer parte da Liturgia cristã por volta do século IV, quando já não havia mais um grande risco de confusão com o paganismo. É um típico exemplo de aculturação ritual com um sentido novo, inspirando-se particularmente na Bíblia. Por isso, do ponto de vista litúrgico, seria equivocado considerar que o rito da incensação tenha origem no paganismo. Sim, é verdade que a incensação era usada em ritos pagãos, mas o fundamento para o uso da incensação na nossa Liturgia, encontra-se na Bíblia.  
Muitas são as passagens Bíblicas que se referem ao uso do incenso, especialmente no Antigo Testamento. É em tais passagens Bíblicas que encontramos o sentido da incensação nos ritos litúrgicos cristãos. É, portanto, nos mesmos textos que encontramos o significado do louvor, da ação de graças, da oração silenciosa e perfumada que sobe para o alto, até junto de Deus. Em Ex 30,7-9 está uma prescrição de queimar incenso continuamente diante do Senhor. Vários textos do Antigo Testamento fazem referência a esta prescrição. Mas, o sentido litúrgico do rito da incensação na preparação e apresentação das oferendas, está no Novo Testamento, no livro do Apocalipse. Ali, o incenso é apresentado como oferenda agradável diante de Deus porque oferecida pela santidade dos corações que adoram o Senhor (Ap 5,8), com uma referência clara ao Sl 141,2: “que minha oração suba à tua presença como incenso, a elevação das minhas mãos como sacrifício da tarde”.
Merece destaque especial a referência mais clara quanto ao sentido do uso do incenso na apresentação das oferendas, presente em Ap 8,3-4. Diz o texto: “E veio um outro anjo que se colocou perto do altar, com um turíbulo de ouro. Ele recebeu uma grande quantidade de incenso, para oferecê-lo com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo subia até Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos.” Um texto que mostra como a Igreja deseja que as oferendas apresentadas no altar sejam acolhidas por Deus: com a oração de todos os santos, aqueles que já vivem na glória e, nós, que oferecemos o sacrifício da Eucaristia. De onde a conclusão do rito com o convite reforçativo do “orate fratres” (orai, irmãos).
Do ponto de vista da comunicação litúrgica, como dito acima, a incensação comunica uma mensagem de solenidade à celebração. É um daqueles ritos que vem de uma tradição antiquíssima da Igreja, mas que não perde sua atualidade. Como a comunicação litúrgica lida com a arte de celebrar, a incensação é um rito que expressa a arte de uma celebração solene para comunicar aos celebrantes o respeito solene diante das oferendas apresentadas ao Pai sobre o altar.
Sempre do ponto de vista da comunicação litúrgica, o rito da incensação é cênico, isto significa que é realizado num contexto de comunicação gestual simbólica. De onde a necessidade de que seja feito cm arte e com classe. 

O rito da incensação
O rito da incensação consta da preparação do turibulo, colocando incenso sobre a brasa acesa. Depois de abençoado, o turiferário entrega o turíbulo ao presidente da celebração para que este incense primeiramente as oferendas, depois o altar, circulando ao redor do mesmo, concluindo com a incensação do padre  e da assembléia celebrante. Tanto o padre como a assembléia celebrante tornam-se oferentes, isto é, participantes e comungantes na oração dos santos, como diz o texto do Apocalipse citado acima. São perfumados pela oração da santidade da Igreja que já vive na glória celeste e pela santidade da Igreja reunida na oferenda do seu sacrifício de pão, vinho e água.
Serginho Valle 
2017 


6 de fev de 2017

Ablução

Rito presidencial da celebração Eucarística que, no final da Missa, depois da comunhão, lava os dedos durante a purificação do cálice. Se a ablução do cálice foi feita por um diácono ou acólito, ou ministro extraordinário da Eucaristia, o padre lavará seus dedos em outro recipiente, próprio para tal finalidade. A palavra é mais usada no plural – fazer abluções.
            A ablução é também usada para uma forma de Batismo, pela qual se derrama água sobre a cabeça daquele que está sendo batizado. Diferente é o Batismo por imersão, na qual a pessoa é mergulhada nas águas batismais. 

3 de fev de 2017

Símbolo contextual

Por símbolo contextual entendo aquele símbolo que é criado em função e inspirado no contexto de uma determinada celebração. Um símbolo com a finalidade de favorecer a participação celebrativa dos celebrantes. Assim, se o contexto celebrativo estiver iluminando pela luz da caridade, o símbolo favorecerá celebrar a Eucaristia iluminada pela luz da caridade cristã. Exemplo deste símbolo contextual é o que vemos muito comumente nas Missas de Primeira Comunhão, servindo-se do pão e do vinho, outro exemplo, é o simbolismo contextual nas Missas rituais do Sacramento da Confirmação e em outras celebrações.
A confecção do símbolo contextual é um trabalho a ser realizado pelo ministério da ornamentação. É o ministério da ornamentação que tem a responsabilidade de criar o símbolo contextual. Para isso, o ministério da ornamentação precisa conhecer o contexto celebrativo de cada Eucaristia. Isto deverá acontecer especialmente nas Missas Dominicais. Sobre este tema, iremos voltar num próximo artigo.
Como todo símbolo, também o símbolo contextual obedece aos critérios do processo comunicativo litúrgico. Um critério importante faz referência ao local onde o símbolo contextual é colocado. Nunca sobre o altar, mas próximo do mesmo, na lateral ou na frente do altar e, em certos casos numa lateral do presbitério. O mesmo diga-se a respeito do ambão. O símbolo contextual não é mais importante que o ambão, por isso não poderá encobrir; esconder o ambão.  O símbolo contextual não pode anular outros símbolos já presentes na igreja, especialmente quando se trata das Mesas Eucarísticas, aquela da Palavra e aquela da Eucaristia.
Outro critério comunicativo é quanto ao tamanho do símbolo contextual que, igualmente, deve obedecer aos critérios da proporcionalidade: de acordo com as dimensões da igreja confecciona-se o símbolo contextual, para que seja visível por todos. Em certos casos, para ser melhor visto e apreciado, o símbolo contextual pode ser preparado na porta da igreja; assim, os celebrantes poderão visualizá-lo de perto e nos detalhes. Depois, o mesmo será conduzido ao presbitério na procissão inicial ou no momento da homilia, se o padre for fazer alusão ao mesmo, ou, acompanhando a procissão das oferendas. 
            Um terceiro critério é a beleza. No que se refere aos padrões de comunicação litúrgica, beleza rima com simplicidade. Por isso, o símbolo, mesmo necessitado de indicações explicativas, sua simplicidade deve ser tal que deixe uma ou mais portas abertas para outras interpretações, que poderão acontecer no decorrer da celebração, da parte dos celebrantes.

Conceito de símbolo
Por se tratar de símbolo, lembramos que todo símbolo mantém relação direta com a vida e, no caso da comunicação litúrgica em contexto celebrativo, com a vida cristã e com o discipulado. Com este critério bem especifico, evita-se o risco do alegorismo, que é um modo forçado de propor uma interpretação ou um significado desvinculado da vida. Exemplo típico de alegorismo, escrito em livros litúrgicos da Idade Média, por exemplo, é dizer que as janelas da Igreja simbolizam a brisa do Espírito Santo que por ali passa. As janelas não exercem função simbólica na igreja. Em caso de alegorismo, portanto, o símbolo não é capaz de comunicar-se com espontaneidade, pois, em certos casos, pode necessitar de um malabarismo intelectual para propor uma interpretação.
Isto também indica que a confecção do símbolo não pode ser pensada de forma apressada, como teremos oportunidade de ponderar futuramente. A criação simbólica exige meditação, reflexão teológica, reflexão espiritual e oração. Não se cria um símbolo de modo aleatório, mas a partir de uma reflexão de quem se deixa iluminar pela Palavra, uma vez que o símbolo contextual é criado em sintonia com o contexto celebrativo de cada celebração. Ele faz parte do contexto celebrativo; não é uma peça avulsa. 
Serginho Valle
2017


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