29 de jul de 2016

Comunicação litúrgica corporal: sentado – IGMR 43b

Sentem-se durante as leituras antes do Evangelho e durante o salmo responsorial; durante a homilia e durante a preparação das oferendas; e, se for conveniente, enquanto se observa o silêncio sagrado após a Comunhão. (IGMR 43b).


            O segundo parágrafo da Instrução Geral do Missal Romano (IGMR 43b) relata uma disposição prática para os ritos das leituras antes do Evangelho — 1ª leitura, 2ª leitura e salmo responsorial —, homilia, preparação das oferendas e para a oração silenciosa depois da comunhão. Como dito, trata-se de uma orientação prática orientando os celebrantes a participar desses ritos, sentado. Também este gesto tem uma proposta comunicativa no contexto da comunicação litúrgica, presente na Missa, do ponto de vista corporal. É o comunicar-se celebrativamente com o corpo.

Sentado: atitude de escuta e acolhimento
            Sentar-se é uma atitude comunicativa de escuta, no processo comunicativo interpessoal do ocidente. Em nossas sociedades existe o hábito de sentar-se no exercício do processo comunicativo de conversar, trocar ideias, ouvir e falar com o outro. Em situações formais, o sentar-se indica atitude de escuta e disposição para falar. A mesma proposta encontra-se presente na atitude corporal do sentar, no decorrer da Liturgia da Palavra. Os celebrantes sentam para ouvir a Palavra de Deus e sentam para ouvir a proposta vivencial desta mesma Palavra, na homilia. Do ponto de vista comunicativo, o sentar-se indica uma atitude de escuta e, enquanto tal, de acolhimento.
            O estranho desta atitude de escuta e acolhimento, na maior parte das celebrações Eucarísticas, está no fato dos celebrantes terem livretos ou folhetos nas mãos, durante a proclamação das leituras. Não deixa de ser uma contradição comunicacional: sentar-se para acolher e ouvir a Palavra que é proclamada com a atitude de celebrantes voltados para si mesmos, cada qual de cabeça baixa, lendo individualmente o seu folheto. Enquanto o verbo “proclamar a Palavra” indica que a comunicação é para que todos ouçam o que se proclama, olhando o proclamador, a atitude dos ouvintes torna-se individualizada, cada um lendo seu folhetinho descartável. É um processo comunicativo interrompido de um proclamador da Palavra que não encontra feedback dos olhares e da atenção para com aquilo que lê. É uma espécie de desprezo para com a Palavra e com o leitor, exagerando um pouco.

Sentar-se para silenciar e rezar
            Outra indicação da IGMR 43b considera a posição de estar sentado como apta para silenciar e rezar silenciosamente depois da comunhão. A mesma posição de silenciar, mas para meditar é proposta para depois da homilia. Ambas são muito pouco observadas, pelo que constato. O que mais observo é o padre fazer da conclusão de sua homilia a monição para a Profissão de Fé e, tão logo se termina a partilha da Comunhão Eucarística, o padre reza a coleta pos communio, impossibilitando, em ambos os casos, a proposta da IGMR 43b do silêncio meditativo e orante.
            A tradição ocidental da oração, principalmente no meio popular, é de se colocar de joelhos. Muitos catequistas da 1ª comunhão orientam as crianças a ficarem ajoelhados depois de comungarem, enquanto que a IGMR 43b orienta a sentar. Considera-se que o ajoelhar-se nem sempre é a melhor posição, pois quando o corpo começa a pesar, pelo estar ajoelhado, perde-se a concentração na oração. Quanto mais confortável estiver o corpo, melhor será a disposição para rezar. Por isso, a orientação para ficar sentado depois da comunhão é a posição litúrgica proposta pela IGMR 43b.
            Colocar-se sentado — silenciosamente sentado, acrescentemos — para rezar tem a ver com a posição comunicacional de quem se dispõe a falar e ouvir também na oração. Aqui, diga-se de passagem, existe a necessidade de ajudar os celebrantes a aprender a rezar silenciosamente. Isto é, sem dizer palavras nem mesmo em seus pensamentos, mas de silenciosamente deixar o Espírito Santo falar e rezar em seus corações, considerando o que diz Paulo, que é o Espírito que reza em nós (Rm 8,26). É a necessidade do silenciamento para o Espírito agir. A postura de ficar sentado para rezar, portanto, tem em vista a finalidade prática de favorecer o conforto corporal em vista da qualidade da concentração e do silenciamento, seja fazendo-se ouvinte da Palavra ou orante silencioso.
Serginho Valle
2016


27 de jul de 2016

Aspersão na Missa

A aspersão é um rito litúrgico, presente comumente nas celebrações de bênçãos, inclusive em celebrações de Sacramentos, como no Matrimônio e na Unção dos Enfermos, em consagrações de igrejas, altares, cadeiras presidenciais e ambão; em celebrações de funerais e nos ritos iniciais da missa. É sobre a aspersão na Missa que tratamos neste momento. Quanto a aspersão na Missa, considero importante distinguir dois tipos de aspersão: a memorial e a penitencial. 
A aspersão memorial acontece nos ritos iniciais com a finalidade de recordar o Batismo e os compromissos batismais. É ritualizada de modo solene e festivo na Vigília Pascal, no decorrer dos Domingos do Tempo Pascal, na Missa do Batismo do Senhor e nas Missas rituais de Batismo ou ainda, nas Missas (ou celebrações da Palavra) que celebram a renovação das promessas batismais, quando estas precedem a Primeira Comunhão. Nestes casos, entende-se que não se trata de um ato penitencial em si, por isso, pode se dispensar a fórmula de absolvição que conclui os atos penitenciais nas celebrações Eucarísticas. Trata-se, sim, da realização dos ritos iniciais com um modo diferente, ou seja, com uma “aspersão memorial”.
A aspersão penitencial, nos ritos iniciais, como diz o nome, acontece como suplica penitencial acompanhado do gesto de aspergir água sobre os celebrantes no momento do ato penitencial. É um rito realizado mais particularmente no tempo da Quaresma e do Advento. Diferentemente do que proposto acima, por se tratar de um ato penitencial com aspersão, pode-se realizar a absolvição conclusiva do rito penitencial, na Missa.
O que ajuda a caracterizar a aspersão memorial da penitencial, além do contexto celebrativo próprio do tempo, é a canção que normalmente acompanha o rito. Digo normalmente, porque o rito pode ser realizado em completo silêncio ou acompanhado com um fundo musical. Se a canção caracteriza o rito memorial e penitencial, esta terá uma poesia penitencial ou referente ao Batismo. É comum escolher salmos tematizados na penitência ou na consagração batismal. Hoje, temos canções em forma de mantra (“refrão orante”), como o conhecido refrão orante "Banhados em Cristo".

Realização do rito
Quanto a realização do rito, este se compõe de aspergir água (não necessariamente água benta) sobre o povo com um asperges ou com ramos de folhagens. É interessante que a aspersão não seja feita à distância, quer dizer, o padre aspergindo somente aqueles que se encontram no presbitério, os ministros que atuam ministerialmente no decorrer da celebração. Todos os celebrantes devem participar da aspersão, fazer com que a água os atinja de algum modo. Para isso, o padre e alguns ministros, se distribuem pela igreja aspergindo água sobre os celebrantes, acompanhados de uma canção.

Nota histórica
            Antes da reforma Litúrgica (1963), o rito da aspersão era conhecido, em latim, como “asperges-me”, e era um rito obrigatório, segundo o cerimonial dos bispos (não o atual), nas catedrais, aos Domingos, antes da Missa Solene cantada. O rito consistia na tríplice aspersão, com água benta, feita no altar, no celebrante, nos padres presentes e sobre a assembléia. Durante o rito cantava-se a antífona latina: “Asperges-me hyssopo et mundabor” (Sl 50). No Tempo Pascal, a antífona cantada era: “Vidi aquam”.
            As fontes históricas anotam que a aspersão era praticada na Liturgia Galicana (França) desde o século IX, de onde espalhou-se para toda a Liturgia Latina. Muitos historiados litúrgicos consideram que a aspersão é uma substituição da purificação das mãos que os fiéis faziam antes da Missa.
Serginho Valle
2016


23 de jul de 2016

Comunicação litúrgica corporal: de pé - IGMR 43

Os fiéis permaneçam de pé, do início do canto da entrada, ou enquanto o sacerdote se aproxima do altar, até a oração do dia inclusive; ao canto do Aleluia antes do Evangelho; durante a proclamação do Evangelho; durante a profissão de fé e a oração universal; e do convite Orai, irmãos antes da oração sobre as oferendas até o fim da Missa, exceto nas partes citadas em seguida. (IGMR 43a)

            Depois de uma breve introdução sobre a importância e a necessidade dos gestos e posturas corporais, no decorrer da celebração Eucarística (IGMR 42), a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) passa detalhar a organização dos gestos e posturas corporais, na Missa, a começar pelo estar de pé. Os momentos de ficar de pé estão detalhados no texto que reproduzimos acima da primeira parte da IGMR 43.  Em nossa proposta de ler a IGMR a partir da comunicação litúrgica, o permanecer de pé tem um simbolismo com uma finalidade comunicacional, enquanto é um modo de participação ativa dos celebrantes.

Gesto orante
            O estar de pé é uma atitude orante, especialmente presente nas orações coletas — colecta, super oblata e pos communio —, na oração dos fiéis e em outras partes da Missa, como nos ritos que preparam a Comunhão Eucarística e na maior parte da proclamação da Oração Eucarística. É assim que os celebrantes rezam o Pai nosso, por exemplo, de pé e, como acontece entre nós, de braços estendidos para o alto. É assim que os celebrantes participam, rezando de pé, ouvindo silenciosamente a Oração Eucarística, ou cantando o rito do glória. São exemplos de uma atitude orante com a qual os celebrantes participam ativamente da celebração Eucarística. Arriscaria dizer que assumir outra posição, ficar ajoelhado em toda a Oração Eucarística, por exemplo, é um modo de se esquivar de participar ativamente da celebração como assembléia, preferindo assumir uma posição individualizada.
            A atitude orante do estar de pé encontra-se em várias pinturas e mosaicos antigos, como a famosa “Nossa Senhora Orante”, que se apresenta de pé diante de Deus, com as mãos e os braços abertos, apresentando seu coração livre e puro diante de Deus. É a mesma atitude, estar de pé, adotada pelo presidente da celebração em todos os momentos orantes; de pé e com os braços estendidos, exceto nas “orações secretas”, quando fica de mãos postas e a cabeça inclinada.
            São João Crisóstomo (séc. IV) explicava o sentido de estar de pé, do bispo ou padre que presidia a Missa, como a atitude apropriada do mediador entre o povo e Deus, no decorrer da celebração.

Posição do ressuscitado
            Um dos mais antigos significados do permanecer de pé, no decorrer da celebração Eucarística, indica a posição de ressuscitado. O ressuscitado é alguém vivo, que permanece de pé. Este fato é tão marcante que, nos primeiros tempos da Igreja, se participava da Liturgia o tempo todo de pé. De fato, os bancos com genuflexórios foram introduzidos nas igrejas por volta do século X. Antes não havia bancos nas igrejas e, até hoje, as basílicas romanas não contam com bancos na sua nave central para manter-se fiel a tradição de permanecer de pé na “actio liturgica”. As igrejas do Rito Oriental não têm bancos e os celebrantes não se ajoelham. Permanecem de pé, em atitude de quem celebra como ressuscitado.
            Este simbolismo tem um forte fundamento Bíblico no Apocalipse, quando João descreve que os salvados, aqueles que foram redimidos com o Sangue do Cordeiro, permaneciam de pé diante do trono (Ap 7,9). O estar de pé, neste caso, é a posição dos vitoriosos, a mesma posição que compete aos celebrantes, lavados no Sangue do Cordeiro quando mergulhados no Batismo, ocasião na qual receberam a veste branca da vida nova e renovada na Ressurreição do Senhor. Além do mais, com o gesto de ficar de pé, os celebrantes da terra se unem, na mesma posição de ressuscitados e adorantes, com os participantes da Liturgia celeste.

Respeito
            Outro significado que se encontra no gesto de permanecer de pé é aquele do respeito. Estar de pé é uma atitude respeitosa. Isto se torna evidente em alguns momentos da celebração, como durante a recitação das orações e principalmente para ouvir a proclamação do Evangelho. O permanecer de pé para ouvir o Evangelho é uma atitude de respeito para com o mesmo e, além disso, tem conotação com o fato de ser a Palavra que ressuscita para a vida eterna, isto é, que nos coloca de pé.
            Este sinal de respeito, presente na posição do estar de pé, sempre esteve presente na Liturgia da Igreja. Alguns autores comentam que, nos primeiros séculos, antes de introduzir a posição de sentar-se e ajoelhar-se, os celebrantes permaneciam de pé praticamente a celebração inteira, em atitude respeitosa, como já referi acima, e quando ficavam cansados apoiavam-se nas paredes da igreja ou em bastões. Mas tinha uma exceção: não se apoiavam em nada durante a proclamação do Evangelho e durante a Oração Eucarística; permaneciam de pé para simbolizar que o Evangelho e a Eucaristia são os grandes suportes da vida cristã.
            A mesma atitude de ficar de pé, para concluir, é proposta tradicionalmente para o Tempo Pascal, o tempo do ressuscitado. Neste tempo, a tradição litúrgica conserva o hábito de rezar de pé, até mesmo durante a consagração do Pão e do Vinho, presença viva e real do Ressuscitado entre nós.
            Em conclusão, o estar de pé, o ficar de pé, o permanecer de pé durante a celebração não e uma formalidade litúrgica, é um modo comunicacional de interagir e, por isso, de participar ativamente da celebração Eucarística.
Serginho Valle
2016




20 de jul de 2016

Oremos – a coleta da Missa

Todos os ritos da Liturgia Eucarística são concluídos com uma oração denominada “coleta”. Assim, temos a coleta que conclui os ritos iniciais, aquela que conclui a Liturgia da Palavra, a coleta que conclui os ritos da apresentação e preparação das oferendas e a coleta que conclui os ritos da comunhão.
            A coleta que conclui os ritos iniciais é denominada, no Missal brasileiro, como “oração do dia”. A coleta começa com o convite para a oração feito pelo padre, seguido de um breve momento de silêncio. O mesmo rito se repete para a coleta dita “pós comunhão”. Já a coleta que conclui a Liturgia da Palavra é rezada depois da oração dos fiéis e, a coleta ofertorial, chamada “sobre as oferendas”, não contemplam o convite do presidente da celebração. Com exceção da coleta depois da oração dos fiéis, que o padre formula de acordo com o contexto celebrativo e as leituras da Missa, as demais coletas são propostas pela Igreja e se encontram no formulário de cada Missa.

Características da coleta
            Uma primeira característica é se tratar de uma oração presidencial. Isto significa que a oração é dirigida a Deus pelo presidente da celebração, o bispo ou o padre, em nome de toda assembléia. Os celebrantes participam da oração através do silêncio, seja antes da recitação da oração, seja no decurso da recitação da oração e, através do amém conclusivo. Não é uma oração para ser rezada por todos os celebrantes em conjunto. O mesmo é válido para a oração que conclui a oração dos fiéis, que trataremos mais detalhadamente em outra oportunidade.
            Outra característica é a sua composição. É uma oração dirigida ao Pai. Somente algumas poucas coletas são dirigidas a Jesus Cristo. Sendo dirigida ao Pai, contempla uma estrutura que, em latim, se denomina como “ad – per – in”. Traduzindo: ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. É assim que se concluem as coletas: Por Cristo, na unidade do Espírito Santo.
            Sua estrutura é composta de quatro partes. Isto se verifica de modo especial na coleta inicial. Inicia-se com a invocação dirigida ao Pai, segue um atributo divino ou uma menção memorial breve, faça-se o pedido e a conclusão da coleta. Colocando de modo didático, citamos o exemplo da coleta do XXVI Domingo do Tempo Comum:

Invocação = “Ó Deus”
Memorial breve = que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia,
Pedido = derramai sempre em nós a vossa graça, para que caminhando ao encontro de vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais.
Conclusão = Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!

            Por fim, outra característica da coleta é a sua fundamentação bíblica. Toda a coleta inspira-se em passagens bíblicas ou pensamentos bíblicos. Isto fez com que algumas conferências episcopais, como por exemplo a italiana, compusessem coletas especiais para cada Missa de acordo com os Anos A – B – C. No Brasil, esta proposta já existe, mas ainda não foi publicada em um novo Missal.

Processo comunicativo
O processo comunicativo da coleta inicia-se com o convite do padre para que todos se coloquem em atitude de oração, dizendo: “oremos”. Este convite pode ser feito tanto recitado como cantado. É importante que o mesmo não seja feito de modo mecânico, mas como um convite de quem deseja ser atendido naquilo que está solicitando: que os celebrantes coloquem-se em atitude orante.
Depois do convite, segue um momento de silêncio com duas finalidades práticas. A primeira delas é dar um tempo para que os celebrantes silenciem seus pensamentos e possam assumir uma postura de oração; entrar em clima de oração. Dependendo do ritmo do canto do Glória, se foi agitado com palmas, por exemplo, este tempo de silêncio poderá ser maior, para se ter o tempo necessário de silenciar o coração, a mente e o corpo para rezar. O segundo elemento prático do silêncio é possibilitar a cada celebrante apresentar a Deus uma intenção. Entende-se, portanto, que a leitura das intenções neste momento tira e impede a função do silêncio e, por isso não se deveria ler as intenções da Missa antes da oração coleta.
Da parte do padre, o modo de recitar ou cantar a oração coleta tem uma importância muito grande. Já comentei acima que se trata de uma oração presidencial, por isso feita somente pelo padre. Isto significa que o padre não apenas deve interpretar oracionalmente a coleta, mas realmente rezá-la. Uma vez que a coleta se caracteriza pela brevidade, o modo de rezá-la precisa ser mais pausado.
Se existe um modo de recitar oracionalmente a coleta, existe igualmente um modo de ouvir oracionalmente a oração coleta da Missa. Este modo é favorecido pelo silêncio que antecede à coleta e se prolonga no decorrer da sua recitação. Para tanto, é importante que o padre colabore com o “modus orandi” de recitar a coleta. Os celebrantes podem acompanhar oracionalmente a coleta colocando-se em atitude de escuta silenciosa acompanhando as palavras e fazendo-as próprias em suas mentes.
Serginho Valle

2016

8 de jul de 2016

Comunicação litúrgica pela gestualidade – IGMR 42

Os gestos e posições do corpo tanto do sacerdote, do diácono e dos ministros, como do povo devem contribuir para que toda a celebração resplandeça pelo decoro e nobre simplicidade, se compreenda a verdadeira e plena significação de suas diversas partes e se favoreça a participação de todos. Deve-se, pois, atender às diretrizes desta Instrução geral e da prática tradicional do Rito romano e a tudo que possa contribuir para o bem comum espiritual do povo de Deus, de preferência ao próprio gosto ou arbítrio.
            A posição comum do corpo, que todos os participantes devem observar é sinal da unidade dos membros da comunidade cristã, reunidos para a sagrada Liturgia, pois exprime e estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes.


            A gestualidade é uma importante linguagem comunicativa e, enquanto tal faz parte da comunicação litúrgica celebrativa. Estão presentes em todos os sacramentos, evidentemente, mas nossa atenção foca-se na Instrução Geral do Missal Romano — IGMR 42.
            A IGMR 42 serve-se de uma duplicação de sentido quando fala de “gestos e posições do corpo”. Entende-se que todo gesto é uma posição corporal e toda posição corporal se traduz em gestos. A posição corporal de estar de pé, sentado ou ajoelhado, por exemplo, é um gesto corporal que, no nosso contexto, é uma linguagem com um significado e uma finalidade celebrativos. Isto é, existe um léxico da linguagem gestual para a celebração litúrgica. Não iremos tratar dos significados gestuais, neste momento, porque a IGMR 42 não tem este propósito; apenas destaca o motivo de se prestar atenção e ter cuidado com os gestos para que a comunicação litúrgica seja eficaz.

Decoro celebrativo
            O primeiro cuidado para com os gestos, na comunicação litúrgica, tem a finalidade de contribuir com o decoro celebrativo. Isto implica em considerar que a gestualidade litúrgica não se pauta pela espontaneidade, mas por aquilo que denomino de “etiqueta celebrativa”. Assim como se tem etiquetas para se comportar educadamente em situações sociais diferentes, assim existe uma “etiqueta celebrativa”, com a qual os celebrantes se comportam no decorrer de uma celebração Eucarística. O contexto celebrativo, por aquilo que celebra — o Mistério Pascal de Cristo — merece o respeito de uma gestualidade educada ou, no dizer da IGMR 42, decorosa. Existe um toque de classe postural que caracteriza a gestualidade litúrgica no decorrer da celebração.  
            A “etiqueta celebrativa”, da qual faço referência, não se expressa por uma solenidade pomposa ou uma espontaneidade extravagante, nem por jeitos ou trejeitos teatrais. Ao contrario, a IGMR 42 propõe que a mesma se manifeste por meio de uma “nobre simplicidade”. Respeito e solenidade sim, mas de modo simples e com sobriedade. A solenidade litúrgica em geral não se pauta pelo exagero, mas pela simplicidade e isto se manifesta também através da linguagem gestual.

Catequese litúrgica
            Um segundo elemento chamado em causa, na IGMR 42, diz respeito à catequese litúrgica, que deve vir em auxílio dos celebrantes, para que compreendam o significado da gestualidade e o motivo das posições corporais no durante celebrativo. Nas entrelinhas da IGMR 42 subentende-se que a linguagem gestual litúrgica, enquanto linguagem corporal, tem significados próprios, com os quais os celebrantes participam da celebração e, por meio desta linguagem entram em contato com Deus nos diferentes momentos celebrativos. É pela gestualidade — linguagem corporal — que os celebrantes rezam com o corpo, silenciam o corpo para ouvir a Palavra ou para adorar, se ajoelham e se inclinam diante do mistério, e assim por diante. De onde a necessidade de uma catequese para compreensão quanto ao cuidado de expressar pelo gesto-corporal aquilo que se celebra em cada rito.

Participação celebrativa
            Uma das grandes insistências da reforma Litúrgica (1963) pauta-se na participação dos celebrantes (SC 30). A IGMR 42 orienta que a comunicação gestual favoreça a participação celebrativa. Algumas pessoas, equivocadamente, limitam a participação celebrativa à comunicação oral ou musical. Consideram que os celebrantes participam bem se, por exemplo, rezarem partes da Oração Eucarística, se leigos proclamarem o Evangelho... Assim, transformam a Missa em falação. A IGMR 42 abre este campo participativo com a orientação gestual de silenciosamente ficar de pé, nos dois exemplos citados (mas que pode se alongar para outros), para respeitosamente ouvir o Evangelho e a proclamação da Oração Eucarística.
            Outra confusão, que as vezes se observa, é quanto a uniformidade. Falo daqueles que colocam exigências de todos a fazerem exatamente a mesma coisa. A gestualidade, enquanto parte da “etiqueta celebrativa”, não se rege por obrigações, mas pelo bom andamento da celebração em favor de todos. Por isso, a gestualidade é disciplinada por ritos que preveem momentos para caminhar em procissões (entrada, ofertório e comunhão), momentos para se levantar as mãos, momentos para se ajoelhar, ficar de pé... Todos estes gestos, embora tenham seus significados próprios, são também funcionais, em vista do bom andamento da celebração. Tem assim uma função e uma finalidade. Isto vale também para quem preside a celebração, presidindo com gestos que favoreçam a participação de todos e não a dispersão dos celebrantes.
O parágrafo segundo desta IMGM 42 oferece outra finalidade funcional que completa o enunciado apenas contemplado: a unidade celebrativa. Todos unidamente participando do mesmo e único sacrifício pascal. Conclui dizendo que a linguagem gestual, quando realizada de acordo com o que é proposto na IGMR 42 “estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes”. Isto é, cria uma unidade que favorece a concentração e evita a dispersão.
Serginho Valle
2016



6 de jul de 2016

"Gloria in excelsis Deo!"

Concluído o ato penitencial ou o Kyrie, a assembléia canta o hino do “Gloria in excelsis Deo”, um hino de glorificação a Deus, podendo ser cantado ou recitado. A Teologia Litúrgica não equipara o Gloria a canções laudativas, mas trata-o como um rito e, como rito doxológico. Alguns autores caracterizam o Glória como a “doxologia maior” da Missa. 
A doxologia (glorificadora) do Glória é um poema que exalta a "doxa" divina. Os dicionários definem esta palavra, de origem grega, em dois aspectos. Na Filosofia grega, “doxa” tinha o sentido de “opinião comum” ou “senso comum”. Quer dizer, todos estão de acordo com uma determinada atitude ou opinião, que era a certa, a correta. Disto vem a palavra “ortodoxo”, aquele que vive na retidão, na doutrina certa. Já no conceito Bíblico, a “doxa” faz referência ao poder divino que se manifesta em sua glória. Aos seres humanos cabe o reconhecimento da glória divina com louvores, glorificações e adoração. O termo “doxa”, em conceitos teológicos, define a glória divina e, em termos da Teologia Litúrgica relata um rito glorificador a Deus. Na Missa, este rito é feito com canto do “Gloria in excelsis Deo”, conhecida também como “doxologia maior”, diferente do que acontece na Liturgia das Horas, que se serve de uma “doxologia menor”, nos finais dos salmos, pela recitação do “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”.
Sempre em consideração ao processo comunicativo, foco dos meus artigos, traço algumas considerações.

Proclamação solene da glória divina
Quando a Liturgia canta o “Glória in excelsis Deo” — “Glória a Deus nas alturas” — está proclamando solenemente a glória divina, não como um atributo divino entre outros, mas como manifestação glorificante e glorificadora ao ingressar no “espaço” da celebração Eucarística, o local onde a glória divina se manifesta sacramentalmente. Lembro que o canto do Glória situa-se nos ritos iniciais da Missa, os quais tem a função de introduzir os celebrantes no memorial do Mistério Pascal de Jesus Cristo, onde reside a glória divina, na terra, tão bem descrito no prólogo de João (Jo 1) e  por Paulo, escrevendo aos Colossenses: “pois nele habita corporalmente toda a plenitude divina” (Cl 2,9). Habita toda a glória divina.
Uma vez que os ritos iniciais conduzem os celebrantes a participar da glória divina e o colocam diante da glória divina, presente na celebração Eucarística, o processo comunicativo do rito do Glória qualifica-se pela solenidade, pela adoração e pelo respeito profundo, expressos por uma arte musical artisticamente refinada, como demonstra a história da música sacra, nas composições para o “Glória in excelsis Deo”. Não se trata de considerar simplesmente a “glória de Deus brilhando na natureza”, mas de cantar a glória divina que se manifesta na vida plena trazida por Jesus Cristo, da qual os homens de boa vontade acolhem em suas vidas como dom da paz. Esta grande glória divina, manifestada na criação, na libertação do povo, na voz dos profetas... agora é manifestada plenamente e, no dizer de Paulo, corporalmente, na pessoa de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado, o intercessor nosso que está à direita do Pai, o alimento da vida plena, com o qual somos alimentados na Eucaristia. Ele é o Ungido com o Espírito Santo, de onde ser glorificado com o nome de “Christós”. Ora, de tudo isso os celebrantes tomam parte e comungam na Liturgia Eucarística, motivo pelo qual se colocam diante de Deus com seu canto de glorificação desde o início da celebração.
E, na Quaresma e no Advento, quando o Glória não é cantado? A mesma glorificação solene continua sendo feita, mas desta vez pelo canto do Kyrie, quando se glorifica o “Senhorio de Jesus Cristo”, proclamando-o “kyrios Theós” e “Christós Theós” — o Senhor Deus e o Ungido de Deus — , de quem invocamos a piedade divina.  

O conteúdo do Glória
Uma análise simples do conteúdo poético do Glória é suficiente para demonstrar que algumas canções de louvação trinitária não cumprem a proposta ritual feita pela Liturgia, seja do ponto de vista teológico como ritual. Outra consideração inicial é lembrar que o Glória é um hino de antiquíssima tradição que se mantém inalterado em sua poesia. Por isso, repetindo, a Igreja pede que não seja substituído por uma canção de louvor qualquer. No canto do Glória, a Igreja continua glorificando a Deus, como no decorrer de todos os seus séculos de história. Embora o Glória não tenha origem na Igreja primitiva, expressa uma comunhão com as origens da Igreja, cantando sempre o mesmo hino glorificador ao Pai. Vale lembrar que a Igreja tem aprovado algumas versões poéticas que mantêm o conteúdo glorificante. Mas, tais versões precisam da aprovação da Igreja. Cantar canções laudativas não substituem o rito do Glória.
Ainda sobre o conteúdo poético do Glória, muitos autores não aceitam a tese de que o Gloria seja um hino dedicado à Trindade, mas um hino dirigido ao Pai, que faz memória da ação salvadora de Jesus Cristo, o qual age em sua missão redentora guiado pela Espírito Santo. Mas, os mesmos argumentos podem servir para demonstrar que a glorificação divina acontece pelo agir do Pai, do Filho e do Espírito Santo; uma ação trinitária, no meu entender.

A comunicação glorificadora
Dito isto, podemos concluir (mas de modo provisório) que o processo comunicativo do rito do Glória situa-se nos ritos iniciais e, enquanto tal, tem a finalidade de introduzir os celebrantes no contexto celebrativo da Eucaristia, glorificando a Deus. Sendo introdutório do contexto celebrativo — isto é, iniciando a ação celebrativa — pondero que melodias com ritmos agitados correm o risco de expor os celebrantes à dispersão em vez de prepará-los para calmamente ouvirem a Palavra de Deus, proclamada logo em seguida, a qual é também local onde se manifesta a glória divina.
Do ponto de vista poético, leve-se em consideração que se trata de um hino alegre, festivo e vibrante. Características que não se confundem com exageros que podem desconcentrar os celebrantes, agitando-os e despreparando-os para ouvir a Palavra. É um rito que conta com a participação de todos os celebrantes cantando e não apenas ouvindo.
Serginho Valle

2016

1 de jul de 2016

"Reconheçamos nossos pecados"

"Reconheçamos nossos pecados para celebrar dignamente esta Eucaristia".
Assim ou com palavras semelhantes, o padre convida os celebrantes à purificação interior, no início da celebração. Neste blogger já dediquei uma reflexão sobre o rito do ato penitencial, na Missa, não ser considerado sacramental, ou seja, não realiza o perdão dos pecados, a exemplo do que acontece no Sacramento da Penitência e no Sacramento da Unção dos Enfermos. É um tema muito discutido em várias áreas da Teologia Litúrgica, que não é assunto nesta reflexão. Apenas lembrar que este é o motivo, pelo qual, na absolvição do rito que conclui o ato penitencial da Missa, o padre não traçar o sinal da benção da absolvição porque ele, o padre, no rito do ato penitencial é suplicante do perdão divino, juntamente com todos os celebrantes. No ato penitencial, dizendo de outro modo, o padre não está na condição de ouvir pecados para absolver, mas de confessar-se pecador juntamente com todos os celebrantes para celebrar dignamente o Mistério da Eucaristia. Como apenas dito, este é um assunto que poderá ser considerado oportunamente. Nosso intuito, aqui, é considerar o processo comunicativo presente no rito do ato penitencial.

Duas dimensões comunicativas do ato penitencial na Missa
O ato penitencial é marcado — como boa parte da comunicação litúrgica — por um processo comunicativo nas direções horizontal e vertical. Verticalmente, dirige-se a Deus e, horizontalmente, dirige-se aos irmãos e irmãs. Isto está explicito no "confiteor": "confesso a Deus e a vós irmãos e irmãs..." Além disso, o ato penitencial na Missa situa-se num contexto comunicativo orante que inclui o arrependimento pelo reconhecimento dos pecados pessoais e, em certo sentido, pelos pecados comunitários, e a invocação do perdão divino e fraterno.
Outra característica do ato penitencial consiste em ser momento de preparação interior, através do silenciamento que favorece a avaliação da vida cristã para poder celebrar o Mistério da Salvação, presente na Eucaristia. Estes elementos comunicativos do ato penitencial indicam atitudes de respeito, silêncio e acolhimento do perdão endereçado a Deus e aos irmãos e irmãs. Entende-se, pois, porque o próprio rito é iniciado por um momento de silêncio, com o padre convidando e introduzindo uma pausa silenciosa para que todos, padre inclusive, possam reconhecer-se pecadores diante de Deus e dos irmãos e irmãs.
Infelizmente, este primeiro momento, que acontece como parte da monição inicial, nem sempre é muito respeitado e nem valorizado em algumas comunidades. São músicos que o invadem com seus acordes apressados, o próprio padre ou algum ministro que não tem paciência para silenciar e o atropela com palavras. A invasão do silêncio é um ruído no processo comunicativo do ato penitencial, impedindo que os celebrantes se aquietem internamente para entrar no Mistério Eucarístico que está iniciando. A pressa tira dos celebrantes a possibilidade de silenciarem-se para entrar no Mistério. Aquietar-se, através de uma breve pausa silenciosa, faz parte do processo comunicativo presente no ato penitencial e seria bom que nossos celebrantes (padres, ministros e povo) observassem este momento.

Clima silencioso do ato penitencial"Reconheçamos nossos pecados "

"Reconheçamos nossos pecados para celebrar dignamente esta Eucaristia".
Assim ou com palavras semelhantes, o padre convida os celebrantes à purificação interior, no início da celebração. Neste blogger já dediquei uma reflexão sobre o rito do ato penitencial, na Missa, não ser considerado sacramental, ou seja, não realiza o perdão dos pecados, a exemplo do que acontece no Sacramento da Penitência e no Sacramento da Unção dos Enfermos. É um tema muito discutido em várias áreas da Teologia Litúrgica, que não é assunto nesta reflexão. Apenas lembrar que este é o motivo, pelo qual, na absolvição do rito que conclui o ato penitencial da Missa, o padre não traçar o sinal da benção da absolvição porque ele, o padre, no rito do ato penitencial é suplicante do perdão divino, juntamente com todos os celebrantes. No ato penitencial, dizendo de outro modo, o padre não está na condição de ouvir pecados para absolver, mas de confessar-se pecador juntamente com todos os celebrantes para celebrar dignamente o Mistério da Eucaristia. Como apenas dito, este é um assunto que poderá ser considerado oportunamente. Nosso intuito, aqui, é considerar o processo comunicativo presente no rito do ato penitencial.

Duas dimensões comunicativas do ato penitencial na Missa
O ato penitencial é marcado — como boa parte da comunicação litúrgica — por um processo comunicativo nas direções horizontal e vertical. Verticalmente, dirige-se a Deus e, horizontalmente, dirige-se aos irmãos e irmãs. Isto está explicito no "confiteor": "confesso a Deus e a vós irmãos e irmãs..." Além disso, o ato penitencial na Missa situa-se num contexto comunicativo orante que inclui o arrependimento pelo reconhecimento dos pecados pessoais e, em certo sentido, pelos pecados comunitários, e a invocação do perdão divino e fraterno.
Outra característica do ato penitencial consiste em ser momento de preparação interior, através do silenciamento que favorece a avaliação da vida cristã para poder celebrar o Mistério da Salvação, presente na Eucaristia. Estes elementos comunicativos do ato penitencial indicam atitudes de respeito, silêncio e acolhimento do perdão endereçado a Deus e aos irmãos e irmãs. Entende-se, pois, porque o próprio rito é iniciado por um momento de silêncio, com o padre convidando e introduzindo uma pausa silenciosa para que todos, padre inclusive, possam reconhecer-se pecadores diante de Deus e dos irmãos e irmãs.
Infelizmente, este primeiro momento, que acontece como parte da monição inicial, nem sempre é muito respeitado e nem valorizado em algumas comunidades. São músicos que o invadem com seus acordes apressados, o próprio padre ou algum ministro que não tem paciência para silenciar e o atropela com palavras. A invasão do silêncio é um ruído no processo comunicativo do ato penitencial, impedindo que os celebrantes se aquietem internamente para entrar no Mistério Eucarístico que está iniciando. A pressa tira dos celebrantes a possibilidade de silenciarem-se para entrar no Mistério. Aquietar-se, através de uma breve pausa silenciosa, faz parte do processo comunicativo presente no ato penitencial e seria bom que nossos celebrantes (padres, ministros e povo) observassem este momento.

Clima silencioso do ato penitencial
O silêncio com o qual os celebrantes são introduzidos no ato penitencial torna o processo comunicativo do ato penitencial silencioso, isto é, para ser celebrado em clima silencioso, próprio de quem pede perdão. Isto é, não se ritualiza o ato penitencial falando em voz alta e muito menos cantando a plenos pulmões, batendo palmas ou tocando tambor, baterias e pandeiros. Quando ofendemos alguém, pedimos desculpas ou perdão num clima de respeito silencioso e, dependendo da falta, sequer temos coragem de levantar os olhos. Não é possível reconhecer a falta ou o pecado, também no pedido de desculpas e de perdão a alguém, sem o tempo silencioso para rever a vida e reconhecer o pecado, a falta cometida. Ora, este clima silencioso do reconhecimento da falta cometida influencia no modo de se implorar o perdão: não com rumores, mas envolvido por um respeitoso silêncio interior. Ninguém pede perdão tocando tambores e pandeiros. A barulheira de instrumentos, no ato penitencial cantado, impede cantar o perdão de modo oracional.
Diante disso, considero que o melhor modo para realizar o processo comunicativo no ato penitencial, aquele que mais corresponde ao seu objetivo, é através da recitação orante de intercessões que imploram o perdão divino, seja em forma de uma prece, como no “confiteor”, ou em forma litânica, intercedendo a piedade divina com um refrão depois de cada invocação, como acontece quando depois de cada invocação se diz “Senhor, tende piedade de nós!”
Não sou contra cantar o rito do ato penitencial, desde que a canção seja orante, capaz de favorecer o silêncio interior e ajudar o celebrante a sentir-se necessitado do perdão divino e fraterno. Hoje, temos muitas canções que realizam o rito do ato penitencial em contexto silencioso e orante, inclusive no que se refere ao ritmo da canção. O favorecimento orante e silencioso do ato penitencial com canções acontece cantando canções a cappella ou canções acompanhadas por um único ou com poucos instrumentos capazes de favorecer o silêncio interior e não a dispersão. O ministério da música, portanto, precisa considerar, além do volume do som, também o ritmo das canções penitenciais, que pedem canções mais lentas e mais compassadas. Os autores musicais ajudam quando compõem canções para ritualizar o ato penitencial com canções suplicantes do perdão divino e fraterno em clima de silêncio orante. A Missa não começa com barulho, mas envolvida pelo silêncio.
Serginho Valle
2016
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