30 de mar de 2016

A Última Ceia e a Missa

Você já deve ter ouvido falar que a Última Ceia foi a primeira Missa celebrada na terra. É verdade! A Última Ceia foi a celebração final de todo o projeto salvador do Pai realizado em Cristo, denominado de “Mistério Pascal”. A Última Ceia foi uma celebração de ação de graças — EUCARISTIA — e ao mesmo tempo a oferta do sacrifício que Jesus iria realizar na Cruz, o momento supremo do Mistério Pascal de Cristo. Para sermos breves. Cristo realizou na Última Ceia seu Mistério Pascal em modo ritual celebrativo.
            Isso é o mínimo do mínimo para se entender a Missa. Mas tem um porém que merece refletir um pouco. São as palavras de Cristo depois da bênção do cálice, que na Missa, nós chamamos de consagração do vinho. Cristo diz: “fazei isto em memória de mim”. Nas palavras de Jesus está expresso que a Missa é uma celebração memorial. O que significa isso?
            Significa que a Missa não é teatro — encenação, reprodução, ou qualquer sinônimo semelhante a isso — da Última Ceia. É muito mais que isso. Missa é a memória do Mistério Pascal, do sacrifício e da Ressurreição do Senhor. E aqui chegamos ao centro da questão, a chave da compreensão de todo ato litúrgico, de modo especial, da Missa. Se a Missa fosse teatro, ou coisa parecida, nós estaríamos repetindo um rito realizado por Cristo. Seja o padre como os ministros e, até mesmo, o povo celebrante, seriam atores ou, na pior das possibilidades, expectadores de um rito realizado há mais de 2000 anos. Mas não, todos nós somos celebrantes na Missa e, no momento celebrativo da Eucaristia, estamos participando Mistério Pascal de Cristo, do qual fazemos memória e graças a ação memorial, que sempre acontece pela atualização da Salvação, na força do Espírito Santo.
            Fazer memória não é repetir um rito, mas atualizar um acontecimento. Isso é tão importante para entender a Missa, que vou repetir com outras palavras. Fazer Memória não é teatralizar a Última Ceia, é atualizar, trazer para o momento presente, para o nosso hoje, para a nossa vida de agora, o acontecimento salvífico de Cristo. Quer dizer, a Salvação do Pai, realizada no Mistério Pascal de Cristo “naquele tempo”, acontece HOJE a nós que estamos celebrando a Missa nesse momento. É isto que se entende como a primeira e mais importante participação; participar (tomar parte) do Mistério Pascal de Cristo, participar da sua Salvação no nosso hoje.
            O mais bonito de tudo é que isso não é obra nossa, mas ação do Espírito Santo. Sem o Espírito Santo não existe Eucaristia, não existe participação na Salvação de Cristo, não existe presença memorial do Mistério Pascal de Cristo. Qualquer comparação de Missa com teatro é totalmente fora de contexto.
Serginho Valle


23 de mar de 2016

Quinta-feira Santa — notas e curiosidades

Duas celebrações solenes marcam a quinta-feira Santa, precedendo o Domingo da Páscoa: a Missa Crismal e a Missa da Ceia do Senhor (in Coena Domini, dito em latim). Além de Quinta-feira Santa, outros nomes marcam ou marcaram este dia. No século VI e VII, por exemplo, a Quinta-feira Santa era conhecida como “Natalis Calicis”, que em tradução livre seria “comemoração do cálice”; alusão feita à Instituição da Eucaristia. Outra terminologia é a de “endoenças”¸ que em português antigo, significa dores e tremores, que Jesus sofreu logo depois da Última Ceia, no Monte das Oliveiras, antes de ser preso e traído por Judas Iscariotes. Em Portugal, na cidade de Braga, realiza-se uma conhecida procissão chamada de “Procissão das endoenças”.


Missa crismal
            A Missa Crismal é celebrada na Quinta-feira Santa, pela manhã, e reúne ao redor do Bispo, juntamente com seu povo, todo o presbitério que atua na Diocese (padres e diáconos), celebrando a Instituição do Sacerdócio por Jesus Cristo. Por este motivo, os padres e diáconos presentes renovam suas promessas sacerdotais diante do Bispo e de todo o povo. Nesta mesma oportunidade acontece a consagração do Óleo Crismal, de onde a denominação de “Missa Crismal”, e a bênção dos Óleos dos Enfermos e Catecúmenos, introduzidos solenemente na assembléia para serem abençoados pelo Bispo. Por motivos pastorais, esta celebração poderá ser transferida para a quarta-feira Santa, com uma Missa vespertina.

Missa in Coena Domini
            A “Missa in Coena Domini” (Missa da Ceia do Senhor) é uma celebração solene, que abre a grande celebração do Tríduo Pascal. Na prática, o Tríduo Pascal é uma única celebração realizada em três dias diferentes — Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo —, motivo pelo qual as duas primeiras celebrações (Quinta-feira e Sexta-feira Santas) não se concluem com a bênção e nem com o envio. É uma celebração, cujas notícias históricas remandam ao século IV.
            A Missa da Ceia do Senhor é celebrada à noite e faz memória da Instituição da Eucaristia e do Mandamento Novo, cantado no rito da “aclamação ao Evangelho”. É a celebração que abre o Tríduo Pascal e contém três particularidades que merecem atenção. A primeira delas é que, após o canto solene e festivo do glória, todos os instrumentos musicais e os sinos se calam e voltam a ser tocados somente no Glória, da Missa da Vigília Pascal, no Sábado Santo. A partir do canto do glória, portanto, a celebração torna-se silenciosa e com cantos a cappella.
            A segunda característica é o gesto do lava-pés, repetindo o gesto de Jesus, que lavou os pés de seus Apóstolos (Jo 13,3-17). Um rito não obrigatório, que pode ser substituído por outro gesto que demonstre caridade fraterna, conforme consta nas rubricas do Missal Romano. Neste ano de 2016, Papa Francisco decretou que o lava-pés, um rito até então destinado unicamente a participação de homens, poderia acolher também mulheres na participação do rito. Isto na prática acontecia em todas as partes do mundo, até mesmo o próprio Papa, em 2015, por exemplo, lavou os pés de algumas jovens, uma delas mulçumana.
            Por fim, a terceira característica da celebração é a transladação do Santíssimo Sacramento a um altar lateral ou a uma capela devidamente preparada para acolher os celebrantes, onde permanecerá em exposição solene até a meia-noite para a adoração dos fiéis. Depois da meia-noite, até momentos antes da celebração da Sexta-feira Santa, a adoração é dita simples, com predominância para a oração pessoal e silenciosa. Ainda com respeito à adoração ao Santíssimo, este não é exposto com o ostensório, mas na ambula coberta com o véu próprio da ambula.

Curiosidades históricas
            Houve um tempo, na História da Liturgia, que não se dava o ósculo da paz na Missa da Quinta-feira Santa em protesto ao beijo traidor de Judas Iscariotes ao entregar Jesus ao algozes (Lc 22,48).
            Desde longa data, ainda presente em nossas celebrações, depois da procissão da transladação do Santíssimo, acontece a desnudação do altar, tirando as toalhas do altar e todas as flores, deixando o presbitério sem algum tipo de ornamento. Antes da reforma litúrgica (1963), até mesmo a água benta era retirada das pias de água benta, que se encontravam nas portas das igrejas.
            De acordo com o Sacramentário Gelasiano (um dos primeiros missais da Liturgia cristã, usado entre os séculos V e VII) na Quinta-feira Santa celebravam-se três Missas: a primeira por ocasião da reconciliação dos penitentes (pecadores públicos que eram readmitidos na Igreja), a segunda para a bênção dos Santos Óleos (que ainda é celebrada em nossos dias) e a terceira a Instituição da Eucaristia e o Mandamento Novo. Atualmente, são celebradas as duas últimas Missas.
            No século XVI acontecia uma antiga tradição romana, conhecida como “giro delle Sette Chiese” — peregrinação pelas Sete Igrejas — que comportava um percurso de 20 Km a pé. A proposta apareceu na metade do século XVI, por iniciativa de São Filipe Neri com caráter penitencial. A proposta era realizar o percurso num único dia. Mas como o percurso é extenso, o mesmo começava na Quinta-feira Santa, depois da celebração das Vésperas e deveria ser concluído na Sexta-feira Santa, antes da celebração da Morte do Senhor. As Sete Igrejas mais antigas de Roma, por onde passavam os peregrinos, eram: Basílica de São João do Latrão, Basílica de Santa Maria Maior, Basílica de São Pedro (Vaticano), Basílica de São Paulo fora dos Muros, Basílica da Santa Cruz, Basílica de São Lourenço fora dos Muros e Basílica de São Sebastião. Atualmente, muitos peregrinos continuam fazendo este percurso, durante várias noites, mas no mês de maio e de setembro. A mesma tradição de visitas a sete igrejas acontece em alguns países da América Latina, durante a noite, em forma de procissões ou peregrinações penitenciais.
Uma última curiosidade é que a Quinta-feira Santa ocorre sempre entre 19 de março e 22 de abril. Os dias variam dependendo das fases da lua, uma vez que a Liturgia adota o calendário lunar.
Serginho Valle


19 de mar de 2016

Domingo de Ramos

O Domingo que precede a solenidade pascal e inicia a Semana Santa chama-se “Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor”. A Igreja o celebra solenemente antes da Missa com uma procissão ou nos ritos iniciais próprios para a celebração Eucarística deste Domingo.

            A procissão com ramos foi introduzida no Ocidente na segunda metade do século IX. Historiadores relatam que antes desta data os celebrantes participavam da da Missa com ramos nas mãos sem serem abençoados, em algumas localidades, e outras localidades, com a inclusão da bênção dos ramos.
            O centro desta celebração é a entrada de Jesus em Jerusalém, mencionada pelos quatro evangelistas: as multidões tinha ramos de oliveiras e foram ao encontro do Senhor cantando e gritando hosanas (Jo 12,12-13). Este texto tornou-se a antífona da procissão de ramos.
            Este Domingo foi denominado com vários nomes, em latim: “Dominica palmarum” e “Dominica Hosanna”. Este último devido a antífona inicial da celebração. Outros nomes: “Pascha floridum” (Páscoa das flores), pois em algumas localidades abençoavam-se ramos, palmas e flores, trazidos para a celebração. Foi também chamado de “Dies indulgentiae”, porque antigamente, neste Domingo, era anunciado os pecadores públicos que seriam reconciliados publicamente com a Igreja, depois de um longo período de penitência.
            Em algumas Igrejas, acontecia neste Domingo a entrega do Símbolo da Fé (Credo) aos catecúmenos competentes, isto é, aqueles que seriam batizados na Vigília Pascal, de onde este Domingo ser denominado também como “Pascha competentium” (Páscoa dos competentes). Outra curiosidade: neste Domingo os catecúmenos deveriam lavar suas cabeças e tinham os cabelos cortados, por isso denominar este Domingo como “Dies ou Dominica in capitilavatio” (Domingo da lavação da cabeça); uma necessidade para a Unção Crismal, que receberiam na Noite da Vigília Pascal.
            Atualmente, o Missal Romano, em sua “editio typica” denomina este Domingo como “Dominica in palmis de Passione Domini”; Domingo de Ramos da Paixão do Senhor.
            O rito da procissão de ramos, na Liturgia atual, consta de uma monição presidencial, a bênção dos ramos, a proclamação do Evangelho e a procissão até a Igreja. Segue-se depois a Missa da Paixão, assim denominada porque na mesma se faz a leitura do Evangelho da Paixão, a começar com a coleta inicial do Domingo de Ramos.
            A tradição cristã orna a Cruz processional com ramos e pede que os celebrantes levem para suas casas os ramos abençoados na celebração.

(SV)

16 de mar de 2016

Eu celebro, nós celebramos! - Ministérios

A celebração da Missa é nossa. Aliás, já tivemos oportunidade de conversar sobre isso em outra ocasião. Mas tem algo mais! Quando você participa da Missa, ali está para celebrar e, na celebração cada celebrante tem uma função. Alguém terá a função de presidir a celebração. Esta é a função do presidente da celebração. Na Missa, o exercício dessa função compete ao bispo ou ao padre. Mas, existem outras. Há quem anima a celebração, quem entoa os cantos, quem proclama leituras, quem proclama os salmos, quem proclama as preces da comunidade (oração dos fiéis) quem serve o altar, quem faz a coleta, quem traz as oferendas... Todas estas funções estão presentes, de modo mais visível, numa Missa dominical.
            Na Liturgia da missa, e em outras celebrações litúrgicas, a palavra que define cada função especial é “ministério”. Denota uma função, mas com um sentido a mais: ministério traz consigo a qualidade de “serviço”. Por isso, quem está diante da assembléia não exerce apenas uma função — a função de ler ou de fazer uma leitura, por exemplo —; faz mais que isso: presta um serviço aos celebrantes reunidos em assembléia litúrgica.
            O padre realiza seu serviço como presidente da celebração, o leitor presta serviço enquanto anuncia a Palavra de Deus. O menino e a menina que ajudam como coroinhas, prestam um serviço de ajuda ao padre no altar. O cantor está a serviço da Liturgia e da assembléia para favorecer a louvação através da música. O povo reunido em assembléia também tem seu ministério, seu serviço na celebração litúrgica, pois serve a Deus com o louvor, com a ação de graças, com orações e súplicas. É o que se entende por participação. Em conclusão, a assembléia litúrgica, de modo particular a assembléia Eucarística, se caracteriza como servidora. Todos estão a serviço de todos, além de um fato importante: o próprio Deus, se serve do serviço ministerial assemblear para servir os celebrantes alimentando-os com o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia.
            Você pode perguntar se isso existe razão para tudo isso. Tem uma razão, sim. Aliás, não uma, mas várias, embora aqui basta lembrar a atitude de Jesus Cristo, na Última Ceia, quando instituiu a Eucaristia. A atitude de humildade e de serviço ao lavar os pés de seus amigos. Pois bem, a instituição da Eucaristia aconteceu em clima de serviço. O mesmo clima serviçal continua nas nossas celebrações Eucarísticas de nossos dias. Ninguém tenha a pretensão de estar diante da assembléia para aparecer ou promover-se. Quem for chamado para exercer algum ministério, que o exerça como servidor de Deus e dos irmãos.

Serginho Valle


11 de mar de 2016

Participação Ativa Na Celebração - IGMR 35

“As aclamações e respostas dos fiéis às orações e saudações do sacerdote constituem o grau de participação ativa que os fiéis congregados, em qualquer forma de Missa, devem realizar, para que se promova e exprima claramente a ação de toda a comunidade.” (IGMR 35).

            A IGMR 35 destaca um modo de participação celebrativa na Eucaristia. O texto denomina de “grau de participação ativa” dos fiéis. Um enunciado que abre espaço para contemplar três elementos: a graduação na participação, a existência de outras formas de participação ativa e, igualmente, a existência de uma “participação passiva”.
            Existe um grau de participação dos celebrantes, evidenciando assim, que os mesmos são chamados a participar em determinados momentos da celebração, como elencado na IGMR 35: aclamações, respostas em orações e respostas a saudações. Não consta como modo de participação ativa recitar partes da Oração Eucarística, por exemplo, ou proclamar o Evangelho. Como também não se entende por participação cantar o tempo todo, falar ou recitar orações o tempo todo, bater palmas em todas as músicas...
            Em segundo lugar existe outro modo de participação que, por ser participação (tomar parte), é sempre ativa. Neste caso, trata-se da participação realizada pelo ouvir, pelo ver e pelos gestos. Ouvir as leituras, ver as procissões ou participar do gesto processional e de outros gestos, como ajoelhar-se, sentar-se e ficar de pé. Além disso, é também participação o silenciar e o cantar. Na celebração, o silêncio pode ser ritual, como acontece na Liturgia da Palavra e na Oração Eucarística, e pode ser orante, como em momentos de preparação para algum rito, como no caso da preparação para o ato penitencial ou depois da comunhão. A participação pela música acontece cantando ou ouvindo. Mas, este é um assunto que tratarei oportunamente em outra ocasião.
            Por fim, aquilo que denomino de “participação passiva”, que nada tem a ver com passividade na celebração. Por “participação passiva” entendo aquela participação que acontece através da assistência de alguns ritos, como por exemplo, procissões, encenações pedagógicas e coreografias, feitas esporadicamente em algumas celebrações mais solenes ou mais festivas. Em algumas Missas rituais, como aquela Matrimonial, existe a assistência do compromisso sacramental, inclusive denominando o ministro do Sacramento Matrimonial como aquele que assiste o Matrimônio em nome da Igreja.  
            Em conclusão, mesmo que os graus de participação sejam diferenciados, o que os une é a atividade. Seja falando, cantando, silenciando e, até mesmo, assistindo, a participação é sempre ativa, do contrário não seria participação. Só não participa quem se faz indiferente e insensível ao que se celebra.
Serginho Valle




9 de mar de 2016

Tem Missa diferente?

Algumas paróquias e comunidades têm uma lista de Missas para idades, ocasiões especiais: Missa dos jovens, das crianças, Missa dos 15 anos, Missa dos doentes... Isso sem contar que a Missa da família, Missa das mães e, numa paróquia que conheci, havia também a Missa dos homens; e lá mulher não entra de jeito algum.
            Às vezes existem intransigências. Na Missa das crianças, o padre não quer ver adultos e ai de alguma criança ou adulto que aparecer na Missa dos jovens. Vale a pena agir desse modo? Pode ser que sim; mas estou mais propenso a crer que não. Agindo assim, uma família, por exemplo, nunca terá oportunidade de celebrar a Eucaristia como família. As crianças estarão numa Missa, os jovens e adolescentes em outra e os pais num terceiro horário. Você pode até estar pensando que sou contra Missas para grupos particulares. Não sou não. Sou contra intransigências em estabelecer Missas só para um grupo.
            As celebrações Eucarísticas para grupos particulares se enquadram dentro de uma proposta pastoral, que eu também denomino de “pastoral e pedagógica” a ser celebrado em tempos diferentes das Missas Dominicais. Isto está muito claro no Diretório para as Missas com Grupos Populares e no Diretório da Missa com Crianças (cf. n. 20; 27; 28).
            As Missas Dominicais, na medida do possível, devem reunir a assembléia da comunidade formada por crianças, jovens, adultos, idosos, enfermos... Pessoalmente, considero estranho aquilo que algumas comunidades chamam de “missinha”, que consiste no seguinte: os pais vão para a Missa e as crianças ficam brincando ou ouvindo historinhas ou desenhando em algum outro local. Será que isso educa as crianças para a Missa? Será que o ambiente Eucarístico não é fonte de bênção para toda a famílias e para as crianças, mesmo que elas não compreendam tudo que ali se passa?
            Tem ainda uma coisa para ser pensada. A Missa nunca é diferente; é sempre a mesma. O que muda é o modo de celebrar. Atente para isso: muda o modo de celebrar. Para as crianças, existe um modo de celebrar a Eucaristia. Para os jovens, as músicas, por exemplo, dão o tom diferente na celebração. Mas sempre estamos celebrando a mesma Missa. Sempre estamos celebrando a Páscoa de Jesus Cristo haja a motivação que houver.
            Você pode pensar: mas quando se faz a Missa dos 15 anos, ou bodas matrimoniais, ou a festa do padroeiro da comunidade não se está celebrando os 15 anos, as bodas do casal ou o santo protetor? Na verdade não! A Missa é a celebração da Páscoa, da Salvação de Jesus Cristo no mundo. Sempre! Os 15 anos da jovem, as bodas ou o santo são motivos ou lembranças para agradecer a presença da salvação de Deus na vida dessas pessoas. Um jeito de inserir estes acontecimentos existenciais no Mistério Pascal de Cristo.
            O modo para melhor entender é esse: Porque Cristo nos salvou podemos celebrar os 15 anos da jovem, as bodas do casal, o modelo de vida cristã do santo padroeiro. O celebrado na Missa, contudo, é sempre Deus, o Pai a quem damos glória e louvores, a quem dirigimos nossas orações em nome de Cristo, nosso irmão e na unidade do Espírito Santo. O motivo, portanto, é sempre a Salvação de Cristo.
            Percebeu? Não existe Missa diferente. Existem modos diferentes de celebrar a Missa e existem motivações diferentes pelas quais celebramos a Eucaristia. Mas sempre celebramos a salvação, a Páscoa de Jesus Cristo na nossa vida de agora.


Serginho Valle

5 de mar de 2016

Liturgia, escola da oração cristã

A busca da paz interior enche consultórios de psicólogos em todas as partes do mundo. O caminho para o encontro com esta paz, tão desejada e procurada, começa pelo silenciamento, pelo aprendizado do silêncio, que é a porta para se entrar na casa da oração e da meditação orante. Por isso, podemos sim ir ao psicólogo e pedir que nos ensine a encontrar a paz interior, mas podemos também seguir o exemplo do Mestre, que buscava locais silenciosos para se encontrar com o Pai e passar a noite em oração (Lc 6,12).
            A escola orante da Liturgia escolheu este segundo caminho: transformar nossas celebrações e os espaços celebrativos em locais silenciosos, onde é possível ouvir a Palavra do Pai (Liturgia da Palavra) e se alimentar da vida divina partilhada como alimento, na Comunhão Eucarística. É com este princípio que as celebrações litúrgicas se apresentam como possibilidade pedagógica para a oração pessoal e comunitária. Um modo de conceber as celebrações litúrgicas como escola da oração cristã.
            Não é tarefa fácil, numa cultura com uma dificuldade imensa para silenciar, até mesmo quando, no caso cristão, sabe e reconhece que o silêncio é um ensinamento testemunhal do Mestre. Dificuldade também porque existe uma forte tendência transferir a linguagem de auditórios para as celebrações. Aquela do auditório é uma linguagem mais fácil e com um feedback, com um retorno, imediato, do ponto de vista participativo, além de o aprendizado acontecer diariamente, na sala da casa, diante da televisão.
            À medida que isso vai se tornando costume, corre-se o risco de cultivar uma religião com fundamentos emocionais, fundamentada numa fé como auto-ajuda, diminuindo força da fé que se alimenta da oração silenciosa de quem ouve e louva o Senhor, reconhecendo que para Deus até o silêncio é louvor (Sl 65,1). A biografia de santos está repleta de exemplos de homens e mulheres que aprenderam a silenciar diante de Deus, especialmente no silêncio celebrativo da Liturgia.
            Ora, é importante que se diga: isto não significa celebrar com sisudez, de modo seco. As palmas e até a dança celebrativa podem acontecer na celebração, mas dentro de limites quanto a momentos celebrativos, tempos litúrgicos e duração intra-celebrativa. Do ponto de vista da pedagogia orante, Liturgia não é atração musical, é escola de oração inspirada na oração silenciosa do Mestre.
Reconheço que se trata de um caminho árduo, que exige muito esforço da parte de padres e da Pastoral Litúrgica. Mas, tenho experiência de muitas comunidades, especialmente entre os jovens que, depois de experimentar celebrações silenciosamente orantes — com canções orantes, com orações silenciadas, por exemplo — buscam mais intensamente estes momentos. Não precisamos de músicas modernas (ou modernosas) para atrair os jovens, crianças e adultos para as Missas. Precisamos sim daquilo que temos e recebemos da Igreja: celebrar Liturgias orantes, para que as pessoas se encontrem com Deus e com o Senhor. Quanto menos barulho em nossas celebrações, melhor!
Serginho Valle


4 de mar de 2016

Laetare

Laetare, primeira palavra latina da antífona da 4ª semana da Quaresma: “alegrai-vos”. Como no “Domingo Guadete”, para o 3º Domingo do Advento, a Igreja faz uma pausa em sua caminhada quaresmal para melhor participar das alegrias pascais. Para expressar ainda mais a alegria deste Domingo, graças a proximidade da Páscoa, a Liturgia se veste com paramentos cor de rosa e, discretamente, coloca algum arranjo floral ou alguma folhagem em seu espaço celebrativo. Trata-se de uma alegria discreta para não interromper o silêncio do grande retiro quaresmal. 

2 de mar de 2016

Celebração ou falação?

Peço desculpas, mas preciso falar de um defeito que vem acontecendo em algumas missas: a falação. Aliás, tem dois tipos de “falação” que atrapalham a missa. Uma acontece na assembléia, quando alguém fica o tempo todo cochichando com o vizinho. A outra falação é dos animadores da missa.
            Tem animadores de missas que falam o tempo todo. E junto a estes incluam-se também alguns padres. Falam demais. Falam para iniciar a missa, falam para motivar o ato penitencial, falam para pedir que a assembléia silencie, mas invadem o silêncio dos celebrantes e o silêncio litúrgico, como acontece com a recitação em voz alta das orações chamadas “secreta”. 
            Alguns criaram a mania de explicar tudo, “tintim por tintim”. Explicam que vão fazer uma saudação; e depois saúdam. Explicam as partes da missa, como se missa fosse aula de significados ou sinônimos litúrgicos ou celebrativos. Explicam, pasmem, até mesmo o silêncio e assim invadem o silêncio de tanto falar. Haja falação!
            A falação, em alguns casos é tanta, que é viável perguntar: afinal, estamos celebrando uma missa ou estamos escutando uma falação interminável. Exagero à parte, comentaristas há que, na ânsia de comentar e preparar a assembléia para ouvir as leituras, fazem autênticos sermões ou pregações antes das leituras. Pior que é isso é o padre que faz uma homilia antes de cada leitura e uma depois da mesma leitura para confirmar o que dissera antes, deixando a leitura esmagada entre suas explicações. Sobre isso, uma senhora comentou (com entusiasmo) que a missa na sua comunidade deveria ser paga, porque o padre dava uma verdadeira aula de Bíblia. Cá prá nós: Missa não é aula, nem que seja de Bíblia.
            Um autêntico exagero são as missas explicadas para o povo, como se o momento celebrativo da Eucaristia fosse hora de ensinar ou de aula litúrgica. Você me pergunta: não é interessante que a missa seja explicada? Claro que sim, mas isso deve ser feito antes, em momentos convenientes. O estudo e o conhecimento da Missa precedem a celebração.
            A compreensão da Missa não está em priorizar explicações, mas em valorizar a  dinamicidade da celebração, feita pela música, procissões, momentos para falar, silêncio, hora de sentar para ouvir, de estar de pé para rezar, de ajoelhar para adorar ou pedir perdão... Fazer bem cada um desses momentos é um modo de rezar e de entender, nem sempre racionalmente, o que estamos celebrando. A Missa é uma “obra aberta” e, enquanto tal, cada Missa comunica uma mensagem diferente, não só pelas leituras e pelo Tempo Litúrgico na qual é celebrada, mas também pelo espírito com que o celebrante entra na celebração.
Serginho Valle



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